Mostrando postagens com marcador José Luiz Penna. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Luiz Penna. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Trilha em imagens


José Luiz Penna, Hermano Penna e Tiago Araripe

Registro fotográfico no set de gravação da trilha do filme "Aos ventos que virão", do diretor Hermano Penna, gravada neste outubro de 2011 no Estúdio Muzak, Recife.




Cláudio Rabeca



Pierre Leite









Gerimum de Olinda














André Oliveira (técnico de som)

Sinopse do filme

Zé Olímpio, personagem vivido pelo ator Rui Ricardo Diaz ("Lula, o filho do Brasil"), foge da morte na última batalha de Lampião. Fim do cangaço. Na tentativa de refazer sua vida, encontra na terra natal só o desejo de vingança e o ódio aos ex-cangaceiros. Com Lúcia (Emanuelle Araújo), sua mulher, parte para São Paulo, onde vive por muitos anos. O tempo arrefece os ódios e o casal retorna para o velho sertão. Com a morte do pai, Zé assume os negócios da família: terras e criações. Ele prospera e entra na política. Vítima das tramas de um juiz eleitoral corrupto, reage com violência. Perseguido e preso, vê da cadeia seus amigos serem perseguidos. Em contraponto acompanha, através das revistas semanais, o país da Era JK. A construção de Brasília e a tentativa de Jucelino em pacificar a política nacional surgem em sua consciência, como na maioria do povo brasileiro, como um sinal de um Brasil novo. Um Brasil onde a política não se exprime através da violência. Seu sonho passa a ser chegar em Brasília, símbolo de um país voltado Aos Ventos que Virão.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Trilha do filme "Aos ventos que virão"

Foto e texto: Joana Aquino
Pierre, Tiago, Cláudio, Penna e Jerimum

Deu no portal do Estúdio Muzak, Recife.

Notícias

Trilha original de longa-metragem está sendo gravada na Muzak

Nesta semana, está sendo gravada, no Estúdio Muzak, a trilha original do novo longa-metragem de Hermano Penna (que dirigiu o premiado “Sargento Getúlio”). O filme, “Aos Ventos que Virão”, retoma a parceria de composição de José Luiz Penna e Tiago Araripe, que assinam as canções de vários trabalhos, como o próprio “Sargento Getúlio” e o documentário produzido para a Rede Globo, “Mulher no Cangaço”.

A história de “Aos Ventos que Virão” gira em torno do personagem José Olímpio, que vive dividido entre a política e o cangaço. “Fizemos uma trilha minimalista e fugimos do regional, mas eu digo que as músicas têm ‘sotaque’ nordestino”, afirma José Luiz.

A gravação conta com a participação dos músicos pernambucanos Jerimum de Olinda (percussão), Cláudio Rabeca (rabeca e violão) e Pierre Leite (teclados). “A escolha de gravar no Recife é pelo histórico do manguebeat, que sabe usar a cultura de forma original”, completa o compositor.

As gravações seguem até sábado. O filme tem previsão de lançamento para 2012.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Parceiro Paulo Costa se apresenta em São Paulo

‘SAVEUR de BOSSA’

Paulo Costa, o embaixador da Bossa Nova na França, lança sua nova turnê internacional. No Brasil, “Saveur de Bossa”

Photo%20Paulo%20Costa%20presse%201


Paulo Costa, brasileiro radicado na França, considerado pela midia internacional e pelo Ministério da Cultura da França como o EMBAIXADOR DA BOSSA NOVA, convida para um concerto franco-brasileiro com apresentação exclusiva para o SESC.

Paulo Costa, único brasileiro a ter a autorização de traduzir o hino da música francesa, ‘TOULOUSE’, de CLAUDE NOUGARO e, também o único com registro de uma menção do Ministério de Cultura da França sobre sua obra. Nas próprias palavras do Ministro em carta ao artista: « cet artistesingulier, compositeur et interprète de talent, dont la guitare au jeu nuancé et la voix toute de délicatesse et de sensualité reflètent avec subtilité l’univers feutré de la bossa nova » .

O Brasil é o primeiro país a receber a turnê SAVEUR DE BOSSA que viajará para Portugal, Suiça, Alemanha, entre outros países da Europa e deve chegar ao Japão no início de 2012.

Depois de 30 anos da inauguração do SESC Pompéia – Paulo Costa retorna aos palcos do SESC para tocar num espaço mágico com convidados e amigos muito especiais como Cid Campos, Felipe Avila, Renato Teixeira, Rodrigo Rayol e Vania Bastos.

O show SAVEUR DE BOSSA traz músicas inéditas cantadas em português e em francês. Muitos dos clássicos da bossa revisitados por Paulo Costa - misturas de bossas - estão inundados de surpresas nordestinas como nos bons tempos do Papa Poluição (grupo de sucesso na década de 80).

O show é como uma viagem entre São Paulo, Rio, Bahia e Paris e conta com a presença dos artistas: Caio Mamberti, percussionista que tocou com Tânia Maria e Steve Wonder e que acompanha Paulo na Europa; Marinho Andreotti, contrabaixista do Zimbo Trio e virtuose guitarista e violonista Felipe Ávila, que faz parte da história musical do artista no Brasil.


PHOTO Div ALXA música do Paulo Costa não traz apenas Bossa Nova, mas muitas outras influências como o Pop, o Jazz e o Baião composições inéditas com a poeta Mabel Velloso, José Luis Penna, Tiago Araripe, Antonio Miranda, entre outros. Meticuloso e dono de uma voz única, de muito bom gosto e uma pegada genuinamente brasileira, como diz Zeca Baleiro, Paulo Costa busca nas suas composições, delicadeza, sofisticação, algo que « soe bem e suave » que tenha a sua digital e que possa refletir sua maneira de ser e agir na vida cotidiana, "IL est Bossa Nova ...Il est Bossa Nova", complementam os críticos franceses no jeito de ser, de compor e de viver e na elegância com que representa a música brasileira na Europa, denominado o Style Paulo Costa em Paris.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Montagem brasileira de Hair faz 40 anos



Vídeo: Ingrid Morais

Hair e Cabelos de Sansão: tudo a ver. Há quatro décadas era lançada a montagem brasileira do musical que marcou época para toda uma geração.

Algum tempo depois eu, estudante de arquitetura, morava provisoriamente no Hotel do Parque, Recife, quando a novidade chegou. E, não por acaso, teve como palco o teatro vizinho: o Teatro do Parque, na rua do Hospício. O mesmo da minha futura estreia como compositor e intérprete das canções da peça Armação e do lançamento do grupo performático e multicultural Nuvem 33.

Eu podia ouvir toda a peça do meu quarto de hotel, mas graças ao amigo e ator José Luiz Penna, tinha livre acesso a todos os espetáculos. Após a peça, íamos beber cerveja e conversar no entorno do teatro. Não raro, iam junto outros integrantes do musical - alguns deles (como Neusa Borges, Ricardo Petraglia e o próprio Penna) atores da montagem original da peça.

Numa dessas conversas, Penna, já sabendo que eu fazia as primeiras incursões pela música, me incentivou a ir a São Paulo. Foi o que fiz em seguida, ficando um mês hospedado na casa de Zé Luiz e Rosa. Depois, com mais Paulo Costa e Xico Carlos, formamos o embrião do que viria a ser o grupo "transnordestino" Papa Poluição, consolidado com as adesões do pernambucano Bill Soares e do paulistano Beto Carrera.

Numa data tão marcante, eu não poderia deixar sem registro a lembrança dessa época. A época que eu tinha cabelos...

Tiago Araripe

sábado, 21 de março de 2009

Papa Poluição na "poeira Zine"

Com o sugestivo conceito de "O melhor da música do melhor dos tempos", a poeira Zine é uma revista paulistana especializada na música pop dos anos 70. Na sua mais recente edição, de fevereiro/março, o editor Bento Araújo abre generoso espaço na seção Arquivo Verde Amarelo para o Papa Poluição. Em duas páginas onde há inclusive citação a este Blog, o jornalista e músico Ayrton Mugnaini Jr. faz um oportuno reconhecimento à contribuição do Papa para a fusão do rock com a música nordestina.

Vale a leitura.




O ROCK NORDESTINO BIODEGRADÁVEL DO PAPA POLUIÇÃO

De todos os artistas que fundiam rock à música nordestina nos anos 1970, o grupo Papa Poluição foi um dos que menos gravaram ou fizeram sucesso – mas se revelou em longo prazo um dos mais influentes, inclusive hoje, trinta anos após sua separação. Esta reportagem resultou de consulta à famosa Fundação Mugnaini e de entrevistas com Tiago Araripe e Bill Soares, dois integrantes do grupo – além dos textos no imperdível blog de Tiago: www.cabelosdesansao.blogspot.com

Ainda vou pleitear um espaço especial na pZ para falar sobre a grande influência da música nordestina no mundo, inclusive sobre o rock, provando mais uma vez minha famosa “teoria do pingue-pongue”: mal o rock surgiu oficialmente em meados dos anos 1950, foi sua vez de influenciar a música nordestina, a partir do “Baião-Rock” gravado por Jair Alves em 1957, passando pela Tropicália e os Novos Baianos e explodindo de vez no começo dos anos 1970 com uma boa leva de artistas arretados, como Lula Côrtes, Belchior, Fagner, Ednardo, Ave Sangria e talvez o mais bem-humorado de todos, o Papa Poluição.

Excelente amostra da presença nordestina no Sul, o Papa Poluição formou-se em São Paulo com os cearenses Tiago Araripe (vocal, violão, composições) e Xico Carlos (bateria), o potiguar José Luiz Penna (vocais, guitarra, composições), o baiano Paulinho Costa (vocais, guitarra e composições; não confundir com o percussionista Paulinho da Costa – se bem que hoje em dia nosso amigo do PP atende por Paulo Costa), o pernambucano Bill Soares (contrabaixo e direção visual) e o paulistano Beto Carrera (guitarra) – todos com queda não só para a música mas também teatro e egressos de outros grupos nordestinos como os pernambucanos A Porta e Nuvem 33, o baiano The Blue Star e os cearenses The Top’s e Os Águias de Barbalha.

Foi em São Paulo que os Papas começaram a aparecer nos grandes meios de comunicação em nível nacional. Em 1970 Penna atuou na primeira montagem do musical Hair! (inclusive no LP da trilha) e participou de um festival da TV Tupi com sua composição “John”. Tiago surgiu para o grande público em 1973 gravando um compacto pela EMI fundindo pop, dixieland (com participação não creditada da Traditional Jazz Band) e letras nonsense, “Os Três Monges” e “Sodoma E Gomorra”; no ano seguinte participou do Festival Abertura da Rede Globo de Televisão com “Drácula”, parceria com o poeta Décio Pignatari e cantada num dos LPs (Abertura – Estas Também Participaram) dedicados ao festival por outro futuro Papa, Paulinho Costa – que participou também com sua composição “Muzenza”, tendo Xico Carlos à bateria. (Ah, sim: Tiago não cantou neste LP, lançado pela RCA, por estar ainda vinculado à EMI.) Paulinho tocou em Paisagem, o LP folk-rock do já veterano mais então ainda um tanto obscuro MPBzeiro Renato Teixeira. E Beto tocou na montagem paulistana do musical Hoje É Dia De Rock da equipe Teatro Ipanema.

Mais que excelente resultado da presença nordestina em Sampa, o PP foi um dos precursores da chamada Vanguarda Paulista dos anos 1980 e um dos responsáveis pela reputação do bairro paulistano da Vila Madalena como grande baluarte da música independente e descompromissada. “Quando eu cheguei [a São Paulo], em 1973, morei no Butantã, mas foi muito pouco tempo”, lembrou Tiago ao Diário do Nordeste. “Depois fiquei na casa do José Luís Penna, próxima à Vila Madalena, na rua Patápio Silva – por sinal, nome de um flautista [grande pioneiro da MPB no começo do século 20]. Era no Sumarezinho, perto da Vila Madalena, onde depois eu aluguei uma casa, que dava pra ir a pé pra casa do Zé Luiz Penna, onde a gente ensaiava no quarto de casal, na época do Papa Poluição. A mulher dele com uma santa paciência... E o Papa contribuiu muito pra essa fama do bairro. Lembro de revistas nacionais, como a Quatro Rodas, que fizeram matérias sobre o [Teatro] Lira Paulistana, colocando como pioneiro desse movimento dos artistas irem pro bairro.

A gente ativou tudo isso. Chegamos a tocar na calçada, o que de certa forma originou aquela Feira da Vila [série de shows na Praça Benedito Calixto, em frente ao Lira]. O José Luís se tornou presidente do Centro Cultural da Vila Madalena; enfim, a coisa começou a ganhar projeção. O Hermano Penna, que dirigiu o [filme] Sargento Getúlio, filme de que nós fizemos a trilha, também tinha um escritório na Vila Madalena, com outros cineastas. Enfim, tinha vários pólos, de várias linguagens, convivendo ali.”

Outra composição de Tiago e Pignatari é “Teu Coração Bate, O Meu Apanha”, gravada por Tiago em dupla com Tom Zé na Continental em 1974 (e com participação de um colega da Continental, o tecladista da banda Moto Perpétuo – ele mesmo, Guilherme Arantes). Foi neste mesmo ano que Tiago e Penna se encontraram e resolveram fundar o grupo Papa Poluição – e em 1976 chegou a vez do Papa se fazer notar. Parodiando a campanha televisiva “Adote Um Atleta”, o PP lançou o show Adote Um Artista, apresentado em escolas, teatros e uma novidade: estações do metrô paulistano. “Os shows tinham uma dinâmica muito forte, a gente saía do palco, brincava com a platéia. Eram performances, uma coisa muito viva”, relembrou Tiago Araripe ao Diário do Nordeste décadas depois. “E tínhamos na platéia pessoas que viriam a ser importantes pra música popular.

Os músicos gostavam de ir assistir, porque os arranjos eram muito inventivos. O Guilherme Arantes costumava ir pros nossos shows, o próprio Belchior cogitava de em algum momento lançar um LP do trabalho com o Papa Poluição. Por algum motivo, a coisa não aconteceu. Quando ele conseguiu [viabilizar], o grupo tinha acabado.” (Vale lembrar que Beto e Bill substituíram dois integrantes originais do PP que mal esquentaram lugar, respectivamente Fausto Aguiar e Dirceu – e que, anos depois, Fausto fez uma participação especial no segundo compacto do grupo.)

No mesmo ano de 1976 o grupo fez a trilha sonora do curta-metragem A Mulher no Cangaço, dirigido por Hermano Penna (primo de José Luiz – assim como Xico Carlos). E também lançou seu primeiro disco, um compacto-duplo pela Chantecler com os rocks-baiões “Rola Coco” (incluindo participação de Osvaldinho do Acordeon), “Brechando nas Gretas” e “Em Nome do Rock” (com citações dos Beatles e jovem guarda) e o balanço latino de “Guerra Fria”. O disco ganhou elogios unânimes de profissionais da comunicação, como o jornalista Wladimir Soares (“com humor e inteligência, o Papa Poluição conseguiu provar que a música pop pode ser feita no Brasil sem buscar originais estrangeiros, o ritmo é nosso e deles”), e o radialista Jacques Kaleidoscópio (“Papa Poluição, um som biodegradável”), e de colegas como o poeta Augusto de Campos (“muito ar livre pra dar a nossa inspiração musical”), Marcus Vinicius (“eu também papo”) e Guilherme Arantes (“eu acho o conjunto a revelação mais espontânea e autêntica de São Paulo nos últimos dez anos”), mas não fez sucesso e o Papa foi dispensado da Chantecler.

Isso não impediu o grupo de marcar 1977 estreando novo show, Mamãe Rádio Não Toca Meu Disco (que o próprio grupo apresentou como “desaconselhável para virtuoses cansados, folcloristas, nostálgicos, FM estéreo, multigravadoras, são-paulinos e araras”) e assinar com a gravadora carioca Top Tape, onde gravou (pelo selo Arco-Íris) seu segundo e último disco, um compacto simples com o rock-balada “Tua Ausência” (trazendo mais citações de Beatles) e a faixa meio-rock-meio-latina “Inferno Da Criação”. O que brecou o Papa Poluição foram problemas de outras ordens – principalmente briga com gravadoras do tipo que são empresas visando lucro, imagine se não fossem.

Estas duas faixas do disco da Top Tape nasceram independentes; o PP as gravou por conta própria no Eldorado, então o maior estúdio do Brasil, aproveitando horas vagas entre uma gravação paga e outra. Subitamente, adentram o estúdio Scarambone (que havia sido tecladista do grupo Renato e Seus Blue Caps durante quase todos os anos 1970 e estava deixando a banda, preferindo seguir carreira como produtor de discos) e outro produtor, veterano e bem-sucedido, Reinaldo Barriga (que trabalhou com Tom Zé e muitos outros). Ambos ouvem a gravação do PP e adoram – não só o resultado musical, como também seu custo praticamente zero. Desataram a prometer ao Papa Poluição mundos e fundos, a começar por um LP na Top Tape. Só que o grupo, pouco disposto a, como se diz, “entrar para o esquemão”, insiste em ir com calma e começar por um compacto para testar o mercado.

Pois bem, a Top Tape lançou o compacto – mas não pagou jabá (sim, isso já existia; aliás, sempre existiu, embora nem sempre com esse nome) às rádios e TVs; coube ao grupo ralar em shows e entrevistas para conseguir um bom espaço em algumas emissoras. “Tua Ausência” começou a fazer sucesso. Mas de repente... o disco obedeceu ao título do show do PP e parou de tocar no rádio. O que aconteceu? Penna relembrou ao blog de Tiago: “Tivemos um trabalho danado para saber o que houve. Não é que a nossa gravadora tinha pedido ao programador da rádio para trocar o nosso espaço, conseguido a duras penas, pelo disco do Stevie Wonder [também do elenco da Top Tape]?” Como resumiu Tiago ao DN: “Descobrimos que a gente conseguia as coisas no
rádio, na TV, e eles vinham por trás e tentavam colocar o cast internacional deles. Ou seja, a própria gravadora tava nos boicotando.” “Aí não deu mais”, continua Penna. “Fomos no dia seguinte, eu e o Tiago Araripe, bem cedo à Top Tape, munidos de bastões, e pichamos todos os cartazes dos astros internacionais com obscenidades. E ficamos esperando funcionários e diretores para recebermos nossa rescisão contratual. Foi um belo escândalo. Enfrentamos a partir daí o colapsototal. As gravadoras determinaram o fim DISCOGRÁFICO do PAPA POLUIÇÃO.” (Ah, sim: a quem interessar, Scarambone ainda vive no Rio de Janeiro e hoje em dia trabalha não com jabá, e sim com mais palatáveis doces e salgados.)

Como se esse enrosco com a gravadora já não fosse bastante, na época, Bill Soares trabalhava como diretor de arte da TV Tupi, a qual entrou na crise que a fecharia em 1980. “Fiquei de cabeça quente e saí do Papa Poluição batendo porta”, recorda Bill. “Me arrependi tanto... E ficou aquele clima de casamento, procurar pêlo em casca de ovo...” O PP ainda seguiu em frente com outro contrabaixista, Cid Campos (filho de Augusto). Mas não passou de 1979, quando gravou uma marcha carnavalesca para um compacto triplo de vários intérpretes, compôs e gravou canções para o filme Sargento Getúlio (também dirigido por Hermano Penna e estrelando Lima Duarte) e participou do último festival da Tupi defendendo “O Grande Circo Universal”, de Thomas Roth em parceria com o saudoso Luís Guedes.

Mas os integrantes do grupo continuaram ativos de uma forma ou outra. Em 1982 Tiago gravou pelo selo Lira Paulistana o LP Cabelos de Sansão, que fez algum sucesso alternativo com faixas como “Estrela do Mar” e “Meg Magia” (e em 2008 foi promovido a CD pelo selo Saravá, do fã Zeca Baleiro), e hoje reside no Recife, trabalhando com música e publicidade. No ano seguinte Penna e Paulinho da Costa gravaram em dupla o compacto “O Macaco Avoa” (alusão aos saltos do bicho de cipó em cipó, dando realmente a impressão de que ele voa pela floresta), incluído na trilha do filme e trazendo gravações antigas do PP. Penna entrou para a política e se deu bem como vereador e presidente nacional do Partido Verde (sim, tudo a ver com o nome Papa Poluição); e uma composição sua da época do PP, “Comentário a Respeito de John”, foi modificada por Belchior e fez muito sucesso nas gravações da cantora Bianca e do próprio Belchior. Paulinho seguiu o verso de “Rola Coco” que fala do “sonho vago de não morrer sem ver Paris”, radicando-se mais ou menos lá perto, em Toulouse, na França, onde já gravou um CD solo (e continua compondo com Tiago, um de seus parceiros de sempre). Xico, após formar com Cid o grupo Sexo dos Anjos, mudou-se para a Bahia e hoje atende por Xico Sá (não confundir com o jornalista homônimo). Bill Soares perdoou a TV Tupi a ponto de trabalhar no departamento de criação visual do SBT, e hoje tem seu estúdio de gravação e publicidade, o Yeah! Estúdio. E Beto Carrera está radicado em Embu das Artes, na Grande São Paulo.


Paulinho da Costa realiza "o sonho vago
de não morrer sem ver Paris".


Trinta anos depois, o Papa Poluição continuou sendo garimpado e bem lembrado, influenciando artistas mais novos como Chico Science e tendo canções aproveitadas em filmes (como “Rola Coco” no longa Cine Tapuia, dirigido por Rosemberg Cariry e com Rodger, ex-Pessoal do Ceará, no papel do Cego Aderaldo) ou regravadas por Belchior e outros. “É bom ver que nosso trabalho não foi em vão”, comenta Bill. Para quase terminar, por enquanto, a pergunta inevitável: haverá volta do Papa Poluição? “No ano passado [2008] Penna me disse ‘vamos fazer!’” De modo que podemos ter esperanças em breve. E, para terminar mesmo, o ideal é a frase que Tiago incluiu no encarte do LP Cabelos de Sansão: “Viva o Papa Poluição!”

Ayrton Mugnaini Jr.


Quem quiser conhecer melhor a iniciativa poeira Zine, experimente um desses link (ou todos):

Site: www.poeirazine.com.br

Sample: http://issuu.com/poeirazine/docs/pz23

My Space: www.myspace.com/poeirazine
Blog: www.poeirazine.blogger.com.br
Video blog: http://poeirazine.wordpress.com


sexta-feira, 20 de março de 2009

Mais cenas do lançamento em São Paulo

Fotos: Sérgio Polignano

Momento do bis: Felipe Vagner, Felipe Avila, Zeca Baleiro, Tiago Araripe, Cid Campos e Pedro Cunha.




Participantes do LP e do CD Cabelos de Sansão: Zeca Baleiro (Saravá Discos), Wilson Souto Júnior (Lira Paulistana), Felipe Vagner (arranjos e flautas), Felipe Avila (Sexo dos Anjos, arranjos, violão, guitarra), Riba de Castro (Lira Paulistana), Suzana Salles, Tiago Araripe, Cid Campos (Papa Poluição, Sexo dos Anjos, arranjos, baixo, craviola), Passoca (vocais) e Sergio Polignano (fotomontagem do leão da capa).

Suzana é uma virtual integrante dos vocais do disco. Só não participou por não estar em São Paulo no período das gravações. Mas às vezes até consigo ouvi-la nos coros.

Hermano Penna (diretor de Sargento Getúlio), Tiago, José Luiz Penna (Papa Poluição e parceiro em Quando a pororoca pegar fogo), Wilson Souto e Riba de Castro.


Reencontro com Beto Carrera (Papa Poluição).

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Com a palavra, José Luiz Penna

Eram anos difíceis, aqueles primeiros dos anos setenta. Ditadura braba. Tinha passado uma temporada repensando a vida. O Hair tinha exaurido o prazer de fazer teatro, e o retorno à música era cada dia mais vital pra mim. Foi quando chegou em casa Tiago Araripe vindo do Crato, via Recife. Devo a ele meu retorno às lides musicais. Aprendi com ele, e ainda aprendo, o prazer pelo lado criativo da vida, através das suas canções e da sua generosidade. Reouvir Tiago é estar mais perto da beleza.

José Luiz Penna

Penna, hoje presidente nacional do Partido Verde, é parceiro musical na faixa Quando a pororoca pegar fogo e formou comigo, Paulo Costa, Xico Carlos, Beto Carrera e Bill Soares o grupo transnordestino Papa Poluição (foto ao lado).

A pedido da produção da Saravá Discos, gentilmente escreveu o texto acima para divulgação de
Cabelos de Sansão.

(T.A.)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

quarta-feira, 14 de maio de 2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Adeus às ilusões

Na foto de Hermano Penna, em pé, Cid Campos, José Luís Penna e Paulo Costa; sentados, Beto Carrera, Tiago Araripe e Xico Carlos.
x
x
Ao longo de cinco anos de luta e música, o Papa Poluição foi praticamente agente de si mesmo. Claro, ter um bom empresário cuidando dos nossos interesses facilitaria muito a vida. Possivelmente melhorasse as condições de sobrevivência do grupo, também.
x
Nesse meio tempo, duas figuras se anunciaram para suprir essa importante lacuna. O relacionamento com elas foi breve e decepcionante.
x
Nem lembro em que ordem entraram em cena na nossa trajetória. Mas começo falando daquela mulher de aparência distinta e gestos educados. Expressava-se bem, sendo convincente em seus argumentos. Transmitia segurança e sensatez. E o melhor: mantinha escritório na Rua Augusta, com algumas funcionárias. Claro que ficamos animados ao conhecê-la. Mas nada de concreto aconteceu. Ela nos deu algum apoio em um show que já tínhamos programado. Depois nos pediu dinheiro emprestado. Pelo que lembro, não pagou.
x
O segundo elemento era argentino. Muito falante, prometeu que nos transformaria em "psicose nacional". Tinha escritório na Avenida Consolação, próximo à Praça Roosevelt. Agenciava um grupo de sucesso, à época. Também vimos nele motivos para sonhar. O contato nos rendeu apenas uma apresentação numa espécie de festival de rock no Paraná. E nada mais.
x
Uma bela tarde chegamos ao escritório dele e encontramos a porta fechada. Batemos... e nada. Depois descobrimos que o empresário estava acossado lá dentro, com medo da Polícia Federal. Nunca mais o vimos.
x
Fecha o pano, rápido. E ponto final no nosso brevíssimo relacionamento com empresários.
x
Tiago Araripe

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nordeste revisitado - 1

Na foto, Araripe e Penna: Papa Poluição in concert.

E o Papa Poluição pega a estrada, numa das raras incursões do grupo fora do estado de São Paulo. Seria final de 1978. Toda a nossa excursão pelo Nordeste foi organizada por carta. Isso mesmo: o velho e bom correio. Não tínhamos empresário – os dois únicos que se dispuseram a isso ao longo dos cinco anos de existência do Papa não eram exatamente dignos de confiança (um deles, procurado pela Polícia Federal, escafedeu-se; a outra nos deu um calote).

Penna e eu viajávamos a bordo de Sofia, nossa kombi recém-adquirida, juntamente com o equipamento do grupo (algo modesto, principalmente se relacionado aos sofisticados PAs de hoje). Paulinho levava Xico Carlos, Beto e Bill na sua Brasília que não era amarela.

E dá-lhe estrada.

De São Paulo a Salvador, onde faríamos nossa primeira apresentação da viagem, são 1.962 quilômetros. Não paramos para dormir: fazíamos isso nos próprios carros. Na kombi, havia um espaço mínimo entre as caixas de som e o teto – suficiente para que eu e Zé Luiz nos revezássemos para um cochilo no colchonete ali estrategicamente colocado.

Os postos rodoviários requeriam toda a nossa atenção: a bordo de Sofia, apenas eu era oficialmente habilitado a dirigir. Se Penna estava ao volante, era impressionante a rapidez com que alternávamos nossas posições ao avistar um posto ou barreira policial – mesmo com o veículo em movimento. No mais, evitamos maiores problemas simplesmente entregando exemplares dos nossos discos aos guardas. Não sei bem como, mas funcionava. (Na volta substituímos os presentes por mangas, que trazíamos do Cariri.)

Chegamos à Bahia pela Ilha de Itaparica, onde ficamos um ou dois dias para nos restabelecer do estirão da estrada. Ao avistarmos o mar, depois de tanto tempo papando a poluição paulista, não tivemos dúvidas: paramos os carros e entramos na água com roupa e tudo. Depois nos instalamos em casa na ilha, da família do Paulinho, numa praia simples e acolhedora chamada Cacha-Prego.

Após o show que abriu a excursão, em um clube de Salvador, levantamos acampamento rumo a Fortaleza. Na capital cearense, hospedados na casa do jornalista, compositor e cineasta Francis Vale, fizemos temporada de quatro apresentações no Teatro da Emcetur. O show estava afiado, com o grupo entrosado e ótima iluminação produzida por Túlio Penna, irmão de Zé Luiz que se juntara a nós em Salvador. Graças à boa divulgação, obtida com auxílio de Francis, tínhamos o teatro cheio todas as noites.

Como a proposta da excursão era funcionar também como férias patrocinadas, após o show íamos para a Beira-Mar - e as conversas se estendiam madrugada adentro. Pessoas como Petrúcio Maia e Rosemberg Cariri juntavam-se a nós em discussões às vezes acaloradas. Bebíamos muito. Promovíamos jantares para o pessoal da imprensa. E com a mesma facilidade que o dinheiro entrava, saía.

(Eu jamais imaginaria, àquela altura, que décadas depois voltaria a Fortaleza... para ficar.)

(Continua...)

Tiago Araripe

domingo, 13 de abril de 2008

Vaqueiros de vacas magras

O período de existência do Papa Poluição, na segunda metade da década de 70, foi certamente heróico. Enquanto os demais integrantes do grupo tinham seus empregos, cabia a mim e a José Luiz Penna a tarefa de fazer contatos para shows, visitar gravadoras e editoras musiciais, abrir espaço na imprensa e coisas do gênero.

Não raro, não havia o que comer. A gente, naturalmente, improvisava. E haja macarrão. Até que descobrimos a salvação da lavoura: uma mulher que fornecia quentinhas na rua Girassol. Coisas da Vila Madalena de então: ela permitia que o pagamento fosse feito apenas no final do mês.

Tínhamos, enfim, almoço garantido. Havia ainda um porém. O lingüição de Dona Nerina (aquela boa senhora que me perdoe) era absolutamente intragável. Abríamos a quentinha com grande expectativa. Comemorávamos ao descobrir que não era dia de lingüiça.

Pagar o aluguel era outra novela. Um dia fui à Sicam - Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais - disposto a receber um pagamento que me era devido. Fiquei de plantão a tarde inteira na ante-sala da entidade, aguardando a saída do presidente para cobrá-lo pessoalmente, visto que por outros meios não havia surtido efeito. Era exatamente o dia do vencimento do aluguel do sobradinho onde eu morava na rua Wizard, e estava tão determinado a pagar a conta que o presidente não pôde mais se esquivar.

Quando cheguei na imobiliária, haviam acabado de cerrar a porta de ferro da casa. Fiquei batendo lá que nem um maluco, tentando a todo custo me livrar da multa que inevitavelmente viria a partir do dia seguinte. Até que algum espírito compreensivo gritou de lá de dentro que eu poderia saldar o compromisso na próxima manhã, sem ônus algum.

O Papa Poluição tinha, no seu repertório, uma música chamada Durango Kid ("Saque sua estrela de xerife/Se identifique, venha me policiar...". Possivelmente tenha relação com tudo isso. Além do mais, o episódio da Sicam me inspirou a compor o rock Déjà vu. A letra diz:

O suspense que eu passo
Pra pagar o aluguel
É de deixar Hitchcock encabulado
É de botar Zé Mojica no chinelo...

(Zé Mojica Marins, para quem não sabe, é o criador e intérprete do personagem Zé do Caixão, em filmes de terror que se tornaram cult entre os admiradores do gênero.)

Tiago Araripe

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O que vem por aí


Enquanto começa a contagem regressiva para o relançamento de Cabelos de Sansão, este Blog antecipa aqui cenas dos próximos capítulos.

Falaremos dos shows do Papa Poluição. Depoimentos a respeito das tantas histórias que vivemos nos palcos e bastidores serão bem-vindos. Novas fotos dos acervos pessoais serão reveladas.

Esta que você vê acima, por exemplo, mostra uma apresentação do grupo no teatro - na época recém-inaugurado - do Sesc Anchieta, em São Paulo. (No click, este que vos tecla, Bill e Penna.) x

As performances do Papa eram movimentadas e divertidas. Melhoravam conforme as adversidades que tínhamos que superar. Uma de nossas mais vibrantes apresentações aconteceu em um pequeno teatro de São Paulo, depois que descobrimos que o público daquela noite se resumia a sete pessoas. Aquilo mexeu com nossos brios. Um de nós bateu no espelho do camarim, que se espatifou. Como uma equipe que entra em campo para uma partida difícil, decidimos que aquele seria um grande show. Entramos em cena com todo gás, como se estivéssemos tocando e cantando para uma multidão. Para aquelas sete pessoas deve ter valido o preço do ingresso. Para o grupo, valeu ter dado o melhor de nós quando teria sido compreensível - e usual em casos semelhantes - simplesmente suspender o espetáculo.

Há também a nossa excursão pelo Nordeste, que é um capítulo à parte. E haverá os depoimentos que a assessoria da Saravá Discos já coletou, de pessoas como Tom Zé, Tetê Espíndola, José Luiz Penna, Vânia Bastos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, escritos exclusivamente para o relançamento de Cabelos de Sansão. Todos têm a ver/ouvir com o disco mesmo que indiretamente, como Tom Zé e Décio.

Mas neste Blog o imprevisível também será bem recebido.
Como cantava Johnny Alf em Eu e a brisa: "Que o inesperado faça uma surpresa".

Assim seja.


Tiago Araripe

quinta-feira, 3 de abril de 2008

No preparo do rojão - A letra

Atendendo pedido de leitora deste Blog, publico a seguir a letra da composição No preparo do rojão - motivo de comentário dias atrás. O clima junino evocado na música me fez lembrar das bandeirolas do pintor Alfredo Volpi, de quem selecionei a serigrafia aqui reproduzida.


No preparo do rojão

(José Luiz Penna/Tiago Araripe)

Meu sertão tá em plena festa
Comemorando a chegada do São João
As bicicletas passando
No rumo da feira
E o povo no preparo do rojão
E deste lado do mapa
O céu tem estrelas
E o rock perde feio pro baião

Saltei
Por muitas fogueira
Brinquei
Com sua razão
Mexi
No tarrabufado
Pra chamar sua atenção
Como é gostoso o baião.


Pensando bem, esta composição existia bem antes de ser tocada por Oswaldinho em palcos e disco. Um dia a levei pessoalmente a Luiz Gonzaga, esperando que ele pudesse gravá-la. O velho Lua era cliente da Casa do Fazendeiro, estabelecimento comercial que meu pai mantinha no Crato, Ceará. Lá comprava equipamentos e insumos para sua fazenda no município pernambucano de Exu, onde nasceu. (Fazendo divisa entre os dois estados, a Chapada do Araripe.)

(Aliás, tenho exemplar da primeira edição de sua biografia O sanfoneiro do Riacho da Brígida, do jornalista Sinval Sá, que o próprio Lua havia dado ao meu pai. Li e recomendo.)

Com a cara e a coragem, rumei num fim de semana para Exu, mais precisamente para a casa de Luiz Gonzaga. No entanto, não o encontrei: ele estava viajando. Ficou o saldo de conhecer o lugar, uma residência ampla onde ele costumava levar muitos amigos e em cujo entorno estava construindo chalés para aluguel.
p
Tiago Araripe

terça-feira, 1 de abril de 2008

No preparo do rojão

Aqui o breve registro de mais uma parceria com José Luiz Penna gravada em disco.

Estávamos em um dos ensaios freqüentes do Papa Poluição na Vila Madalena, quando recebemos a visita do Ari, baterista irmão do Oswaldinho. Ele nos fez dois convites, ambos prontamente aceitos.

Primeiro, queria uma composição para o repertório do próximo LP do versátil acordeonista. Ari portava um gravadorzinho, no qual improvisamos uma gravação caseira do baião No preparo do rojão.

O segundo convite era para que fôssemos no final de semana ao Forró do Pedro Sertanejo (pai do Ari e do Oswaldinho), no mais nordestino dos bairros de São Paulo: o Brás.

No sábado à noite o Papa Poluição estava chegando em peso no tradicional endereço de forró, quando eu e Penna tivemos uma surpresa. Justamente naquele momento Oswaldinho estava no palco executando nossa composição, com arranjo e tudo. A casa estava cheia, todo mundo dançando. Naturalmente, ouvir a música nova em folha naquele contexto tão vivo e vibrante me soou como algo especial.

No preparo do rojão se transformou também em faixa do LP Natureza (na foto, a capa), lançado pela Copacabana em 1979. (Para baixar as faixas do disco, clique aqui.) Detalhe: Oswaldinho gravou apenas a versão instrumental da música, cuja letra permanece inédita e descreve o sertanejo se preparando para a chegada do São João.

(Se alguém se interessar em conhecê-la, cartas para a redação.)

Anos depois, o mesmo Oswaldinho viria a ter brilhante participação musical em Fôlego de 7 gatos, uma das faixas do meu LP Cabelos de Sansão.

Tiago Araripe

quinta-feira, 20 de março de 2008

Noite de Jazz em Toulouse



Paulo Costa interpreta Bem me queria, parceria com Tiago Araripe.

E como quem não fica parado é post, rumamos agora para o Velho Continente. Estamos no dia 16 de outubro de 2007, e mais uma programação de jazz anima a noite francesa de Toulouse: é o Festival Jazz sur son 31, que acontece há mais de vinte anos na região do Haute-Garronne, nessa acolhedora cidade ao sul da França. Por ele já passaram nomes como Miles Davis, Carlos Santana, Sonny Rollins, Wynton Marsalis, Hermeto Pascoal, Joao Bosco, Diana Krall e dezenas de outros. A atração que sobe agora ao palco vem do Brasil, mais exatamente da Bahia. Seu nome é Paulo Costa. Cantando ao violão, ele se apresenta acompanhado por quarteto formado por Carsten Weinmann na bateria, o paulista Chico Rodrigues na guitarra elétrica e teclado, Guillaume Gendre no contrabaixo e Malek Boubecker no saxofone. No repertório, canções de Paulinho em parceria com letristas e compositores brasileiros, como José Luiz Penna e eu.

Mais de um quarto de século depois que o Papa Poluição cerrou cortinas, estamos de novo interligados e produzindo música. Mesmo que em cenários tão distintos, como São Paulo, Fortaleza e Toulouse, de alguma forma continuamos. A história, como uma árvore que se desenvolve e ramifica, agora se desdobra em muitas outras.


Tiago Araripe

terça-feira, 18 de março de 2008

Cabelos muito compridos de Sansão, por Cid Campos - 1

Mesmo tendo tocado em inúmeras bandas durante a minha adolescência e até tendo participado da montagem e como músico no I Festival de Águas Claras, em Iacanga (SP, 1974), a minha primeira grande experiência musical profissional ocorreu no final dos anos 70, quando, ainda muito jovem, passei a integrar como baixista o grupo Papa Poluição. Formado por Zé Luiz Penna (voz), Tiago Araripe (voz), Paulo Costa – que na época assinava Paulinho da Costa (voz e guitarra), Beto Carrera (guitarra) e Xico Carlos (bateria), o Papa já existia há algum tempo. Com a saída de Bill Soares, surgiu a oportunidade para que eu entrasse para o grupo. Houve uma empatia total e de cara, entre ensaios e preparativos, fomos fazer uma sessão de fotos realizadas por Hermano Penna numa garagem cheia de quinquilharias e figurinos, para divulgação do show que estrearia em novembro de 1978 - Projeto Blue Cap´s. Nem é preciso dizer que as fotos ficaram um arraso!

Todos os músicos eram muito mais experientes do que eu, com muita estrada, shows realizados e ainda, no caso específico de Paulo Costa e Xico Carlos, com grande experiência em estúdios profissionais de gravação, onde trabalhavam regularmente. Isso tudo me fazia ver o quanto tinha a aprender e, ao mesmo tempo, sentia-me cada vez mais motivado diante dos novos desafios.

As composições do Papa eram feitas por Zé Luiz, Paulo e Tiago. As músicas eram muito bacanas, misturando rock com ritmos brasileiros, meticulosamente arranjadas por Paulo e executadas com maestria pelos integrantes da banda. Xico Carlos, exímio baterista, era expert em fazer levadas tipicamente brasileiras, que mescladas às guitarras de Paulo e Beto, definiam com precisão o estilo musical do grupo. As letras eram ecléticas, muitas vezes trazendo críticas sociais, como Na Fila do INPS, passando pela regionalíssima Rola Coco e chegando até Drácula, lindo tango de Tiago Araripe, sobre o poema/letra do poeta Décio Pignatari, cuja faixa, com interpretação de Paulo Costa, está incluída no CD Verbivocovisual (2007), por mim produzido em tiragem limitada e já esgotada, que homenageia a Poesia Concreta – mas pode ser escutado aqui.

Foram anos muito ricos para mim e realmente, através desses amigos, conheci de perto o mundo dos estúdios, dos shows e ensaios, que fazíamos na casa do Zé Luiz, na Vila Madalena, quando a Vila ainda não era nada do que é hoje. Passei nessa época a dividir uma pequena casa na rua Girassol com Xico Carlos, que se tornou especialmente um grande amigo e companheiro de batalha. Todos morávamos nos arredores, freqüentávamos assiduamente o bar “Sujinho”, na esquina da rua Morato Coelho com a rua Wisard, e de alguma forma pude acompanhar, junto a esses amigos, a chegada ao bairro de muitos outros músicos e artistas, o crescimento constante e finalmente o agito que acabou virando o bairro de Vila Madalena. Zé Luiz já morava por ali há algum tempo, mas creio que fomos alguns dos primeiros músicos cabeludos do bairro, que até então era habitado, em geral, por operários, antigos moradores e alguns bandidos, como o Lanchão – com quem éramos obrigados a conviver mas, com todo o respeito, atravessávamos a rua sem vacilar se o avistássemos no mesmo lado da calçada.

Participei também, com o Papa Poluição, dos arranjos de base e execução da trilha sonora do filme longa-metragem Sargento Getúlio, baseado em livro de Ubaldo Ribeiro, dirigido por Hermano Penna, cujas belíssimas composições foram feitas por Zé Luiz, Paulo e Tiago. As gravações ocorreram em São Paulo, no Estúdio Eldorado. Lembro que quando entrei nesse estúdio fiquei maravilhado com o tamanho da sala de gravações, a técnica com enormes caixas acústicas, a mesa de som e todos os aparatos técnicos característicos de um estúdio de grande porte. Jamais havia entrado num estúdio assim. Pensava comigo, quantas pessoas maravilhosas deveriam ter passado por ali, quantas gravações realizadas e que naquele mesmo ambiente Caetano Veloso gravara uma de suas obras mais fantásticas, Araçá Azul... Estava deslumbrado. Demorei um pouco para me acostumar com a luz vermelha que acendia quando se iniciava uma tomada de gravação e confesso que tremia na base quando o engenheiro de som dizia a palavra: – gravando! Porém, me tranqüilizava quando olhava para o lado e via Zé Luiz, Paulo, Tiago, Beto e Xico muito à vontade. Me saí muito bem nas sessões de gravação e realmente depois dessa experiência, me senti preparado para tudo.
(Continua)
Cid Campos
x
Na imagem, reprodução da capa de peça de divulgação do show Projeto Blue Cap´s. Na foto central, de pé, Penna e Cid; agachados, Beto, Paulinho, Tiago e Xico Carlos.

domingo, 16 de março de 2008

Direitos autorais, quem papa?

Mais um episódio para ilustrar o texto de Penna do post anterior.

Certo dia conseguimos agendar e fazer uma entrevista do Papa Poluição (foto) em programa ao vivo da Rádio Bandeirantes. Uma das faixas do nosso compacto é executada então para todo o país. Uma pequena vitória na labuta diária pela conquista do merecido lugar ao sol, na intrincada teia da música industrial brasileira.

Corte para um ou dois dias depois. Estamos no prédio da Continental, onde anos mais tarde seria prensado o LP do Lira Paulistana Cabelos de Sansão. Penna e eu fazemos uma visita de rotina a Vítor Martins, na editora musical que este administra. Temos algumas composições editadas lá.

Vítor nos recebe com a simpatia de sempre. Possivelmente nesse momento, como em outros, tenha nos mostrado a letra de uma de suas parcerias recentes com Ivan Lins. Sobre a mesa de centro do escritório, um envelope lacrado com a palavra Confidencial em destaque. É o boletim diário enviado por sociedade de direitos autorais que monitora a execução de músicas nas emissoras de rádio. Corresponde exatamente ao dia da participação do Papa no programa da Rádio Bandeirantes. Sem cerimônia, abrimos o envelope para ver o nome do grupo pontuado na programação. Mas, para nossa surpresa e decepção, o que está lá diverge da realidade dos fatos. Alguém substituíra nossa banda por outra, bem como a respectiva música...

Encaminhamos reclamação ao órgão competente via nossa editora, graças à pronta disponibilidade de Vítor Martins. Depois temos notícia de que o funcionário da sociedade de direitos autorais implicado no caso havia sido demitido. Teria sido um fato isolado? O incidente nos dá a clara noção de que não estamos exatamente em um parque de diversões, embora nosso trabalho seja cultura e entretenimento.

Tiago Araripe

quinta-feira, 13 de março de 2008

Achados e perdidos no ciber-espaço

Estávamos gravando no estúdio Eldorado aquela canção que falava dos Beatles, nas brechas dos jingles e pelo prestígio do Paulo Roberto, quando não sei vindo de onde, um cara chamado Scaramboni, produtor de sucesso nos anos 70, e Reinaldo Barriga, um rato de estúdio meu amigo até hoje, chegaram. Ouviram e gostaram muito de tudo. Principalmente dos custos quase zerados. Foram logo falando em LP. E nós, sem ouvirmos qualquer proposta industrial para o trabalho, insistimos num compacto de apresentação, coisa que hoje se faz muito.

A gravadora seria a Top Tape, e fomos para a divulgação entrando num mundo barra pesada. Foi impactante ver o outro lado da execução nas rádios. O jabá corria solto e a nossa gravadora não queria gastar nada com aqueles jovens irreverentes. Para nos acompanhar, nomeou um divulgador com muita rodagem chamado de Janelinha, apelido esse, suponho, de tanto implorar para tocar de graça. Certa vez, nos corredores da Rádio Globo, vimos ele desfilar, às sete da manhã, de bicha louca diante dos presentes para que sua majestade, o animador, tocasse a nossa música. Que humilhação praquele senhor baixinho.

Refletimos e chegamos à conclusão que nós teríamos que abrir o nosso próprio espaço. Fomos à Bandeirantes, que ditava a programação das emissoras na época, e conseguimos entrar. A canção foi sendo executada até um dia sumir de vez. Tivemos um trabalho danado para saber o que houve. Não é que a nossa gravadora tinha pedido ao programador da rádio para trocar o nosso espaço, conseguido a duras penas, pelo disco do Steve Wonder? Aí não deu mais. Fomos no dia seguinte, eu e o Tiago Araripe, bem cedo à Top Tape, munidos de bastões, e pixamos todos os cartazes dos astros internacionais com obscenidades. E ficamos esperando funcionários e diretores para recebermos nossa rescisão contratual. Foi um belo escândalo. Enfrentamos a partir daí o colapso total. As gravadoras determinaram o fim DISCOGRÁFICO do PAPA POLUIÇÃO.

Tiago foi de Cabelos de Sansão. Chico e Cid nos Sexos dos Anjos. Eu e Paulinho, uma dupla nada caipira. Beto foi pra noite e outros bicos. O Bill já tinha ido para sua prancheta de bom desenhista.

Essa historia precisava ser contada, pra que perrengas menores não explicassem o desfecho. Hoje tenho certeza de que não havia caminhos para a banda. Queríamos discutir o futuro da música industrial, e a alternativa da produção independente nos afastava desses objetivos, e teria vida curta, como de fato aconteceu. E o mercado do disco estava preso numa rede mesquinha de jabás, burrices e que-tais.

Hoje, depois de uma conversa que tive com músicos baianos, vejo impossibilidades novas. Não existe mais direitos autorais, e quem vive da composição sente os efeitos dramáticos da pirataria e da Internet. O pior é não existir compreensão clara sobre o futuro. Nem uma palavra oficial de alento. Lost in ciberspace.

José Luiz Penna

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Papa Poluição antes e depois, por Paulo Costa

Conheci Tiago no começo dos anos setenta em São Paulo, apresentado pelo Penna. Cabelos compridos como os meus, fazia umas harmonias estranhas, umas melodias (lindas) mais ainda e letras que me intranqüilizaram também pela força com que as cantava com uma voz ainda mais surpreendente. E tome-lhe Cine cassino, Três monges, Sodoma e Gomorra, Teu coração bate, o meu apanha, Drácula e que tais. Daí em diante, eu, ele mais o Penna seguimos tocando juntos até desembocarmos "naquele filho de mãe careca e pai cabeludo", como bem definiu André Luís de Oliveira, que foi o grupo Papa Poluição.

Papamos, por alguns anos, tudo que aparecia pela frente: sons, ritmos, notícias, palpites, fuxicos etc., digerindo tudo pra depois misturar os detritos. Uma vez reciclados, eram retransformados em música (com uma originalidade de marcianos), pra depois serem consumidas nos teatros, rádios, tvs e até ruas da metrópole. À noite, juntos com os outros Papas Beto, Bill e Chico, assustavámos os paulistanos à bordo de Sofia Bundette, a fantástica Kombi bege que nos tranportava saltitante pelas ruas da cidade pra colar cartazes, transportar aparelhos de som, idas e vindas de ensaios, pequenas viagens etc.

Depois, já em carreira solo, Tiago gravou Cabelos de Sansão, eu e o Penna Macaco avoa, música-tema do longa de Hermano Penna, Sargento Getúlio. Seguimos em dupla (Penna & Paulinho) até que a vontade de respirar ares mais puros me levou de volta pra Salvador, enquanto Tiago ia pra Fortaleza e Penna continuava na paulicéia, sempre em grandes movimentações culturais e políticas. Fiquei lá na Bahia muitos anos entre jingles, mar, carnavais, cerveja, rede, sombra e água de coco. Em meio a tudo isso gravei e toquei com o Penna uma trilha prum novo filme do Hermano, Mário. Reencontrei o Tiago umas tantas vezes pra conversar e gravar uns reclames.

Mas como nós baianos dizemos, "o mundo é Oropa, França e Bahia", acabei mudando (por obra e muita graça da Luciana, minha mulher) pra França, onde não há carnaval e não preciso falar com quase ninguem. Meio sem compromisso, fui fazendo umas apresentações aqui e acolá, até que tive a feliz idéia de escrever pro Tiago sugerindo uma possível parceria internética. Agora sigo meu caminho por aqui cantando canções que faço via e-mail com Antonio Miranda, Fred Vieira, Penna e Tiago Araripe, ele segue por lá. Cabelos de Sansão vai estar logo nas ruas; Salvador, meu disco de estréia na França, também. Bom estar de volta aos palcos, gravações, ensaios etc.

Acabei de fazer mais uma música com letra do Tiago, Idéias, que acho ficou bem legal! Já já mando em mp3 por e-mail, como modernos que somos…

Grande abraço, Araripe.

Paulinho Costa

Foto: Paulo Costa e quarteto, in concert.