Falecido há nove anos, quando começava ter seu talento reconhecido por outras gerações, Jacinto Silva recebe agora um tributo à altura do papel que desempenhou na música brasileira, em geral, e na nordestina, em particular. Jacinto Silva no coração da gente, um CD em que nomes feito Tiago Araripe, Xangai, Josildo Sá, Tom Zé, Isaar, Silvério Pessoa, Caju e Castanha e Elba, para citar apenas alguns, participam, é uma homenagem ao forrozeiro alagoano, que morou a maior parte e sua vida em Pernambuco. O lançamento será amanhã, às 19h, na loja Passa Disco, no Shopping Sítio da Trindade, com participação de artistas que estão no projeto e entrada gratuita.
No coração da gente é uma edição de luxo, com um encarte de 48 páginas e apresentação criativa, nada destas capas mambembes, quase norma na maioria dos discos de forró. Na contracapa, uma curiosidade: não há nada nela que indique ter sido o álbum realizado com incentivos governamentais. O trabalho foi gravado no estúdio Muzak, sob o selo Candeeiro. A Link, que aparece nos créditos, é uma agência de propaganda, com sede na Bahia e escritório no Recife, desde 2006. Edson Barbosa, seu presidente, um baiano de Irará, costuma bancar projetos ligados à cultura. Em discos, especificamente, foi responsável pelo elogiado Cóccix até o pescoço, de Elza Soares: “Gosto de fazer estes projetos com uma coisa bem nossa. Há anos fiz um trabalho com Jacinto, e então caiu a ficha. Um disco com as músicas, de um alagoano, pernambucano por opção”.
Tiago Araripe é um músico cearense que, nos anos 70, militou no udigrudi recifense, no coletivo Nuvem 33. Em seguida, em São Paulo, foi da banda Papa Poluição, gravou disco solo pela Lira Paulistana e foi parceiro de muita gente boa, entre outros, de Tom Zé. De volta a Pernambuco, como publicitário, Araripe continua envolvido em música e foi o responsável pele seleção de repertório do CD, que prima por músicas menos conhecidas, mas nem por isso inferiores aos clássicos de Jacinto Silva (que também estão presentes). O próprio Jacinto Silva canta no disco Teste de cantor, num dueto com Silvério Pessoa (extraído do último disco do forrozeiro).
Da tiragem do disco, pouco será comercializada: “A matriz original foi cedida à família do cantor. Vamos dar como brinde, não visamos lucro, foi também uma homenagem a Pernambuco, que tão bem nos acolheu”, diz Edson Barbosa.
Na foto, publicada no JC, Otávio "Bzzz" Machado e Fernando "Carneirinho" durante performance do Nuvem 33 na I Feira Experimental de Música.
O jornalista José Teles escreveu, para as edições de 14, 15 e 16 de agosto do Jornal do Commercio (Recife), extensa reportagem sobre os 40 anos do festival de Woodstock. No terceiro dia da matéria, é destacada a repercussão do evento na cena musical do Recife.
Entrevistado, lembrei do quanto me impressionou a versão idealizada do festival que nos chegou por meio do documentário exibido no Cine São Luís. Uma das consequências locais mais diretas foi a realização do nosso próprio woodstock possível: a I (e única)Feira Experimental de Música, em Nova Jerusalém, região Agreste de Pernambuco, tendo como palco o palácio de Pôncio Pilatos.
Segue o texto publicado no domingo. (T.A.)
» MEMÓRIA Ecos de Woodstock chegam ao Recife Publicado em 16.08.2009
Última reportagem sobre Woodstock mostra como o festival foi compartilhado pelos recifenses no documentário de Michael Wadleigh e influenciou uma geração
José Teles
teles@jc.com.br
A influência do festival de Woodstock sobre a juventude brasileira, sobretudo os jovens que viviam nas grandes cidades foi avassaladora. Em 1969, o País acabara de ingressar no período mais pesado da ditadura e para a juventude só havia duas opções, o desbunde ou o engajamento. Era cair na estrada, ou cair na clandestinidade. A turma do desbunde se viu refletida no Woodstock visto no documentário de Michael Wadleigh, que chegou às telas brasileiras em 1970 (é até paradoxal que tenha sido liberado pela censura, com tantas cenas de nu e drogas). “A gente era o genérico do hippie no Brasil. Foi um momento feliz, um universo de paz, era o ideal, num tempo em que a gente vivia a realidade dos anos de chumbo. A gente já vinha ouvindo aquela música, bebendo daquela fonte. Para nós era como prenúncio da mudança de tudo”, analisa o músico Lula Cortês.
Se Woodstock encantou a juventude, para os músicos foi uma influência marcante. Adolescente na época, mas já considerado o melhor guitarrista da cidade, Robertinho do Recife, que tocava nos Bambinos, há anos morando no Rio, lembra, em conversa por telefone, que viu o documentário várias vezes: “Para mim foi um aula de tudo que a gente estava vivendo. Ver aqueles músicos todos no mesmo lugar. Jimi Hendrix tocando o hino americano, que não havia ainda gravado foi fantástico. O filme fez as pessoas modificarem a maneira de vestir. Começaram a surgir festivais hippies em algumas praias de Pernambuco, lembro de um em que toquei, num lugar chamado, acho, Águas Finas. A gente já era meio hippie, eu, Lula Cortês, a turma do Ave Sangria, o filme nos fez ver que todos nós estávamos na mesma onda. Para mim Woodstock foi muito inspirador”.
O cartunista e escritor Lailson de Holanda recorda que tomou conhecimento do festival pelo semanário O Pasquim, na coluna Underground, assinada por Luís Carlos Maciel: “Foi a primeira vez que ouvi falar em Jimi Hendrix, Carlos Santana e Janis Joplin. Como naquela época eu ainda era bem garoto – 16 anos – não conhecia tanta gente que se interessasse pelo assunto. Tocava ainda em banda de adolescentes com Paulo Rafael (a lendária The Jopens!) e, para o público em geral, Beatles e Rolling Stones já eram vanguarda demais! Mas aí comprei o Have you been experienced, de Hendrix, e a vizinhança pensou que eu tinha ficado doido, diziam que era um barulho ensurdecedor. E olha que minha radiola Philips nem era estéreo!”. Mas até aí era só a descoberta de novas possibilidades sonoras. Ver o filme foi, como se dizia então, outro “barato”: “A primeira vez que vi eu estava em Nova Iorque e depois vi aqui, no Cine Veneza. Aí já estávamos em 1972, maluco surgia mais que cogumelo – literalmente – depois da chuva. O cinema virou uma comunidade hippie, tinha gente sentada em todo canto, no gargarejo da tela, na alcatifa que fica da tela para a primeira fila. Acho que todo mundo saiu do cinema com a sensação de que ser livre era possível, mesmo estando sob uma ditadura”.
WOODSTOCK DO AGRESTE
Influenciado por Woodstock, Lailson participou da produção da Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém que, segundo ele, foi o nosso Woodstock local. “O logotipo que criei (um braço de violão com um punho fechado em cima) era a minha idéia variante do festival original. Ao invés de “Paz e amor”, uma proposta mais de resistência. Roberto Peixe ( ex-secretário de cultura da prefeitura) foi quem fez a versão final, pois meu desenho original era uma ilustração, muito cheia de detalhes. Ele sintetizou muito bem e ficou ótimo”. O festival de Nova Jerusalém teve a participação das principais bandas e cantores da cidade, entre outros, Lula Cortês, o Nuvem 33, o Tamarineira Village (mais tarde Ave Sangria), sedimentando uma cena de música alternativa no Recife e Olinda.
Marco Polo, compositor e principal vocalista da Ave Sangria, na época de Woodstock, já caíra na estrada, vendia artesanato na famosa feira hippie da praça General Osório, em Ipanema, no Rio. Ele assistiu ao filme com outros hippies: “Eu fiquei particularmente fascinado com a performance chocante de Joe Cocker, cantando A little help from my friends, de Lennon e McCartney, num arranjo arrepiante de Jimmy Page (futuro Led Zeppelin) à frente das guitarras. Saímos do cinema em estado de graça e fomos direto para um bar, beber, conversar, comentar, comemorar. Era o auge do paz e amor, com sexo livre (leia-se todo mundo transando com todo mundo), uso generalizado de drogas leves (leia-se maconha) e muita música (leia-se rock e derivados). Eu já compunha na época, e o filme foi mais um incentivo para continuar compondo, cantando e sonhando em formar uma banda, o que terminou acontecendo quando voltei para o Recife e formei com o pessoal de Casa Amarela a Tamarineira Village, depois Ave Sangria.
Hoje trabalhando em publicidade em Fortaleza, o músico Tiago Araripe, da Nuvem 33, conta como foi afetado pelo documentário sobre o festival: “De um lado existia aquele sonho coletivo da geração hippie, de que a melhor resposta ao mundo poderia ser simplesmente paz e amor. De outro, o anseio juvenil de estar, de alguma forma, participando do movimento. Eu já dava os primeiros passos na música, mas quando assisti ao documentário sobre o Woodstock no Cine São Luís do Recife foi um impacto. A decisão de mergulhar mesmo na música havia sido tomada a partir de encenação da peça Hair no Teatro do Parque. Um dos atores, que como outros que vieram a Pernambuco havia participado da montagem brasileira original, era José Luiz Penna. Penna, hoje presidente nacional do Partido Verde, me convidou a ir a São Paulo onde depois viríamos a fundar, com Paulo Costa, Xico Carlos, Beto Carrera e Bill Soares, o grupo musical Papa Poluição.
Quando assistiu a Woodstock, Araripe já participava do Nuvem 33, um grupo formado por muitos integrantes, com influências de Jimi Hendrix e, principalmente, Frank Zappa. “Quando o filme chegou à cidade nos deixou animadíssimos. Fernando ‘Carneirinho’, o guitarrista do grupo, praticamente internou-se no cine São Luís e assistia uma sessão seguida da outra. Ficava horas no cinema. Eu vi o filme umas três vezes. E ouvia muito o álbum do festival. O filme supriu uma lacuna importante, numa época em que não existia internet e quando quase não víamos televisão. Havia uma visão muito romântica e idealizada das drogas, por exemplo. Muita gente embarcou nessa. Não existia o conhecimento de causa que há hoje quanto a esse aspecto. Conheço muita gente talentosa que pagou um preço muito alto por isso. Alguns, com a própria vida. Por outro lado, Woodstock funcionou como um estimulante painel da música pop, que nos marcou muito. Em mim, por exemplo, acentuou o gosto pela diversidade musical. No País, a repercussão daqueles três dias de paz e amor sacudiu o mercado brasileiro e funcionou como motivação para os festivais de música que viriam em seguida, dando projeção tanto à MPB quanto ao rock e impulsionando a carreira de tantos artistas”, diz Araripe.
Hair e Cabelos de Sansão: tudo a ver. Há quatro décadas era lançada a montagem brasileira do musical que marcou época para toda uma geração.
Algum tempo depois eu, estudante de arquitetura, morava provisoriamente no Hotel do Parque, Recife, quando a novidade chegou. E, não por acaso, teve como palco o teatro vizinho: o Teatro do Parque, na rua do Hospício. O mesmo da minha futura estreia como compositor e intérprete das canções da peça Armação e do lançamento do grupo performático e multicultural Nuvem 33.
Eu podia ouvir toda a peça do meu quarto de hotel, mas graças ao amigo e ator José Luiz Penna, tinha livre acesso a todos os espetáculos. Após a peça, íamos beber cerveja e conversar no entorno do teatro. Não raro, iam junto outros integrantes do musical - alguns deles (como Neusa Borges, Ricardo Petraglia e o próprio Penna) atores da montagem original da peça.
Numa dessas conversas, Penna, já sabendo que eu fazia as primeiras incursões pela música, me incentivou a ir a São Paulo. Foi o que fiz em seguida, ficando um mês hospedado na casa de Zé Luiz e Rosa. Depois, com mais Paulo Costa e Xico Carlos, formamos o embrião do que viria a ser o grupo "transnordestino" Papa Poluição, consolidado com as adesões do pernambucano Bill Soares e do paulistano Beto Carrera.
Numa data tão marcante, eu não poderia deixar sem registro a lembrança dessa época. A época que eu tinha cabelos...
Tiago Araripe está de volta à música Publicado em 27.11.2008
Compositor que fez parte do coletivo Nuvem 33 nos anos 70 e depois integrou a vanguarda paulistana relança Cabelo de Sansão
José Teles
teles@jc.com.br
Quem vê o cearense Tiago Araripe hoje, cinquentão, calvo, discreto no vestir, jamais irá imaginar que se trata do mesmo que, nos idos de 72 agitou a cena musical pernambucana no coletivo Nuvem 33, com o Laboratório de Sons Estranhos, o grupo mais performático daquela movimentação udigrudi. Em 1973, araripe foi para São Paulo, onde ajudou a formar a banda Papa Poluição, que marcou época na cidade. Na década de 70, foi parceiro de Tom Zé, de Cid Campos, do pai deste, Augusto de Campos. Tiago esteve envolvido na maioria das elucubrações acontecidas na paulicéia desvairada, que acabaram desaguando no começo dos 80, no que se convnecionou chamar de Vanguarda Paulista, e no primeiro selo independente importante do País, o Lira Paulistana. Seu disco Cabelos de Sansão, que relança hoje, às 19h, na Passa Disco, foi o segundo título do Lira.
O relançamento acontece graças a Zeca Baleiro, admirador do trabalho de Tiago Araripe, e que o abrigou em seu selo, o Saravá Discos. Um relançamento que deve levá-lo de volta ao estúdio. “É um resgate importante em dois níveis: primeiro, por dar oportunidade às novas gerações de ter acesso a iniciativas raras como a do Lira Paulistana no início dos anos 80, e da Saravá Discos agora. Nos dois casos, são espaços abertos para trabalhos à margem das grandes gravadoras, reveladores de outras formas de vida – no sentido de valorização da diversidade cultural. Na época do LP, era difícil classificar qual era exatamente o tipo de música que eu fazia – o mercado formal não estava preparado para vender essa indefinição”, comenta Araripe.
Passados 35 anos, ele recomeça a carreira de músico, que trocou pela publicidade. “É significativo estar de volta ao Recife, onde a viagem musical começou. O relançamento de Cabelos de Sansão abre possibilidades para outro disco, capaz de revelar composições armazenadas ao longo do tempo – inclusive parcerias com Zeca Baleiro. O resgate de Zeca é importante também do ponto de vista pessoal, ao me possibilitar uma reconexão com minha própria história de vida. A leitura que ele faz do disco começou a me mostrar novas possibilidades, indicando que o esforço não foi em vão”, diz Tiago.
Como é de praxe nos lançamentos na Passa Disco, a sessão de autógrafo será acompanhada de um pocket show, de Tiago Araripe com o violonista Leonardo César da Silva: “Vou apresentar um punhado de canções de Cabelos de Sansão. Algum elemento surpresa é sempre possível – e será sempre bem-vindo”, diz ele.
» Sessão de autógrafos e pocket show do CD Cabelos de Sansão, de Tiago Araripe, a partir das 19h, na Passa Disco (Estrada do Encanamento, 480, Parnamirim). Outras informações: 3268.0888.
Publicado em 10.09.2008, no Jornal do Commercio, do Recife
O cearense Tiago Araripe foi um dos agitadores no movimento musical udigrudi recifense nos anos 70, com o grupo Nuvem 33, presente nos festivais hippies que aconteciam em Pernambuco. Depois de algumas apresentações memoráveis, Tiago foi para São Paulo, que passava também por uma radical mudança, deixava de ser uma cidade provinciana, não antenada com a moderna música que acontecia lá, segundo ainda velhos modelos de rock progressivo ou da MPB dos anos 60. Quem contribuiu bastante para Sampa tornar-se a cidade cosmopolita de hoje foi a gravadora Lira Paulistana. Cabelos de Sansão (que sai pelo selo de Zeca Baleiro) foi o segundo disco da hoje histórica gravadora.
Tiago é velho conhecido de quem fazia música no Recife, fez parte de um grupo de malucos da época no Recife, daí se esperar que Cabelos de Sansão tivesse mais ousadias. Mesmo assim, ele se encaixa bem dentro do clima da época, e na linha da música que se fazia então em São Paulo. Enfim, está longe de ser uma música fácil de ser digerida pelos ouvintes da FMs. As canções são do próprio Tiago, em parceria com João Alfredo e Cid Campos, mais uma versão de Little wing, de Hendrix, feita por Augusto de Campos, uma das melhores faixas do disco, que estava fora de catálogo há 26 anos. Valeu a pena a espera. Tiago Araripe e seu Cabelos de Sansão, não ficaram datados.
» Preço médio: R$ 25
José Teles(Caderno C - Coluna Toques)
Obs.: Enquanto o jornal publicou imagem da capa do CD, optei no Blog por ilustrar a nota com foto de arquivo pessoal de performance do Nuvem 33 no Festival Experimental de Música de Nova Jerusalém, em 1972. Em cena, o guitarrista Carneirinho. (T.A.)
De hoje em diante, este Blog ganha mais uma base de apoio e operações: a cidade de Recife. Sua redação passa a ser, vamos dizer assim, itinerante.
Estou de volta ao lugar onde subi ao palco pela primeira vez, guitarra na mão e muitos sonhos na cabeça.
Recife do Teatro do Parque, onde participei como compositor e músico da peça Armação e onde estreamos o grupo Nuvem 33 no show Retreta Eletrônica (do qual tenho como único registro a foto acima) - eu e pessoas como Otávio "Bzzz" Machado, Lula Wanderley, Carneirinho, Humberto Avellar e muitos outros - músicos, artistas plásticos, atores, inventores...
É significativo que essa volta aconteça quando o disco Cabelos de Sansão está sendo relançado.
Durante alguns meses, ainda estarei em Fortaleza durante os finais de semana.
De toda sorte, é estimulante ter à minha volta o mangue e no coração o beat da capital pernambucana.
Na foto, o Papa Poluição: mudança de ares... e de baixista.
Até a chegada do LP Cabelos de Sansão às lojas de discos, muitos cabelos voaram ao vento.
Os cabelos revoltos do grupo Nuvem 33, na Recife do início dos anos 70.
Os cabelos compridos do Papa Poluição, na São Paulo da segunda metade da mesma década.
Os cabelos fartos do Sexo dos Anjos, nos anos 80 que apenas principiavam na paulicéia.
Conexões que vêm à tona na forma de depoimentos e imagens, laços que a ação do tempo não rompeu.
E, bem antes disso, as bandas cabaçais, os reizados, o maneiro-pau... A riqueza cultural do Cariri cearense, pleno de cores e sons. Os discos de Luiz Gonzaga, Marinês e Jackson do Pandeiro, contracenando com a música dos Beatles e todo um universo pop que eclodia nas ondas do rádio.
Durante o percurso, Tom Zé, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo dos Campos. O Lira Paulistana, com Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Premê, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé, Língua de Trapo e tantos outros.
Depois de tudo isso, a história se recicla: Zeca Baleiro descobre o vinil de Cabelos... num sebo do Rio e resolve, com Rossana Decelso, relançar o disco em CD.
Um ano depois (ver post anterior), nova ligação telefônica de Amelinha anunciando a gravação de mais uma composição da velha fita cassete que eu enviara a ela anos antes: Telha de vidro. A música se tornou uma das faixas do LP Romance da Lua Lua (na foto, a capa). Como no disco que o antecedeu, a produção da bolacha é de Zé Ramalho. A faixa-título é de Flaviola (que conheci em Recife, na época do Nuvem 33), sobre poema de Garcia Lorca.
É um disco temático, como logo se vê. Ou se ouve. Todas as músicas falam, de alguma forma, da Lua - que em Telha de vidro entra no quarto pela dita cuja para dar um aviso.
Algo curioso: uma falha de revisão na contracapa desdobrou meu sobrenome e me transformou em parceiro de mim mesmo - ali, a autoria da canção é atribuída a Tiago Araripe-Alencar Araripe.
Encontrei Amelinha em outras ocasiões, em momentos distintos de sua vida. Quase sempre em São Paulo. Em um deles, um empresário inescrupuloso havia lhe dado um desfalque e a deixara numa situação difícil. Como cearense valente, ela já estava dando a volta por cima. Isso foi há muito tempo. Depois não mais a vi. Espero reencontrá-la um dia desses, sob o sol do Ceará.
A Amelinha, aquele abraço. A você que me lê, também.
Lendo o texto de Lula Wanderley postado anteriormente, lembrei do livro cuja capa se vê ao lado. Lançado no ano 2000 e tendo como autor o jornalista pernambucano José Teles, Do frevo ao manguebeat traça um painel abrangente da música produzida na terra de Chico Science.
Pela publicação eu soube do destino de músicos com quem compartilhei palcos de Recife, em 1971 e 1972. Em alguns casos, um trágico destino.
O Nuvem 33 é citado algumas vezes en passant, como neste depoimento - datado de 1974 - do também jornalista e músico Marco Polo:
Acho que o Tamarineira foi muito importante no movimento musical recifense porque, por coincidência, nós pegamos uma fase em que o público jovem pernambucano estava se descondicionando de todas as repressões que sofria e procurando uma liberdade de comportamento que antes não tinha. Então coincidiu de a gente começar numa época em que todos os caras jovens do Recife estavam numa ânsia terrível de se integrar a uma cultura, vamos dizer, pop, e aqui ainda não existia nada assim. Existiam, claro, alguns precursores, como Flávio e Tiago do Nuvem 33, mas a coisa ainda não tinha criado um clima de movimento. Então a importância do grupo foi mais cultural que musical.
Recife dos anos setenta organizava-se culturalmente em torno de artistas “oficializados” pelo estado e pela população. Para eles convergiam as verbas públicas e todo o mercado de arte. À margem disso, um bando de jovens talentosos, sem acesso a nada e num difícil dilema entre a arte e a sobrevivência, tinha as ruas de Recife como ponto de encontro das idéias.
Conheci Tiago Araripe na calçada da Rua da Aurora, sentado numa mureta ao longo do rio Capibaribe. Aproximei-me dele pelos gibis que tinha em mãos e que me ajudariam a passar o tempo naquele fim de tarde. Logo as identificações que tive com suas idéias sobre arte prolongaram nossa conversa. Nos tornamos amigos, e mostrou-me um pouco de seu trabalho como contista e músico.
(Tínhamos cabelos grandes, o que era raro em Recife daquela época. Enquanto conversávamos, ouvi de dois senhores logo atrás de nós: - São veados? - Não, podem ser artistas. Não sendo veado, foi a primeira vez que me senti um artista reconhecido. )
Nessa mesma época, em circunstâncias parecidas, conheci um diretor de teatro que me convidou para um encontro de elaboração de uma peça. Tácito Borralho (nunca mais tive notícias) era um artista talentoso que gostava do pensamento descontínuo e anárquico. Suas peças eram feitas a partir de “restos de idéias” e imagens soltas, e eram abertas à participação de todos. Por isso seu grupo se chamava Armação. Na primeira reunião que participei, o músico convidado pediu desligamento do grupo deixando um vazio constrangedor para Tácito. Antônio Nóbrega (hoje reconhecido músico, ator e coreógrafo), que conhecia dos tempos de ginásio no Colégio Marista, sonhava com vôos mais altos e mais claros que sua formação erudita permitia. Logo me apressei em propor Tiago ao grupo. E como desapareci dos ensaios antes de trazê-lo, Tácito andou pelas ruas de Recife atrás do artista que, além da musicalidade, tinha um timbre de voz estranha e lidava maravilhosamente com as palavras.
Tiago compôs seis a oito músicas para o Armação. Eram extremamente originais e me entusiasmaram a entrar naquele labirinto de Tácito, que me levou a uma desastrada experiência como ator.
(Minha proposta inicial era ajudar Tácito nos cenários e vestimentas, mas terminei escrevendo uma parte da peça e atuando como ator. A peça era num castelo medieval, e todos usavam um pequeno saiote. Nervoso, peguei o saiote errado que, de tão pequeno, não cabia em mim. Resolvi ficar nu para fazer menos volume no corpo, para o saiote entrar, e meus ovos ficaram de fora. Entrei em cena, era o garçom do castelo, e arranquei delirantes risos e aplausos. Todo o elenco se constrangeu menos eu, que até o fim não percebi nada e curtia o meu sucesso. Encerrei minha carreira de ator depois de ser “ovacionado” no Festival de Teatro Amador de Caruaru, ao receber o prêmio “O OVO DE OURO”.)
Fim do Armação, Tiago me convidou para formar um grupo de música que chamou de Nuvem 33. Que poderia um artista gráfico, que não tocava instrumento algum e nem dançava porque não tinha ritmo, fazer num grupo musical? Tiago, como o Antônio Nóbrega que substituiu no Armação, tinha forte sotaque nordestino. Mas enquanto Antônio costurava seu sotaque, através de um fio erudito, a uma cultura popular, Tiago costurava-o através de uma atitude experimentalista, a uma cultura de massa que começava a invadir nosso cotidiano. História em quadrinhos, subliteratura, notícias populares eram as matérias-primas de suas músicas que, algumas vezes, se estendiam para além do campo musical transformando-se em pequenos jornais, quadrinhos ou contos. Era o início da nova tecnologia (não me refiro ao computador, mas ao mimeógrafo eletrônico) que nos trouxe a ilusão de poder ser, além de receptor, emissor/editor de informações e alcançar o cotidiano das pessoas. Eu, Rodolfo Mesquita e Humberto Avellar (Bactéria), três atuantes artistas gráficos da época, nos tornamos parceiros em suas composições.
O ponto alto do Nuvem33 foi a Retreta Eletrônica no Teatro do Parque. Um espetáculo em que fundimos a música à experiência gráfica e performática. Em um determinado momento atravessei o palco com um “carrinho de rolimã”. Anos depois, Alex Hamburgo e Márcia X (grandes artistas carioca) se notabilizaram ao atravessarem de patinete (um rolimã sofisticado) um recital de John Cage na sala Cecília Meirelles, no Rio. Houve uma sintonia contemporânea no Retreta Eletrônica que nunca esqueci.
O “efêmero 33”, como chamava o Tarcísio da Livro Sete, acabou rápido sem deixar um registro – um disco qualquer. Foi uma brincadeira quase juvenil (éramos jovens), mas alavancou a cena musical do Recife dos anos setenta. Logo depois, com força e alcance, Marco Polo e seu Ave Sangria (antigo Tamarineira) sintetizou em shows e disco todo o pensamento de uma geração de artistas plásticos, poetas e músicos pernambucanos que, por não seguir o caminho da “oficialização” institucional, quase ficou condenada ao esquecimento.
Tiago foi morar em São Paulo, e eu rumei para o Rio. De São Paulo me enviou o Cabelos de Sansão, disco antológico da música popular brasileira.
Este é o psiquiatra e artista plástico Lula Wanderley, com uma de suas pacientes. Falei a respeito dele quando lembrei o trabalho desenvolvido pelo grupo Nuvem 33, na Recife do início dos anos 70.
O Nuvem 33 reunia música e arte, tendo como base as idéias criativas de Otávio Machado, ou Otávio "Bzzz". Otávio tinha uma espécie de visão eletrônica do trabalho, além do conceito multiforme de lidar com diferentes formas de expressão.
Mas voltando a Lula Wanderley, ele concebeu alguns dos cartazes dos shows do Nuvem... - em que costumava desenhar a personagem Moma, da canção que fiz na época: Moma, seu banjo e o Dr. Bizarro. Atualmente, conjuga muito bem as habilidades de artista plástico com o conhecimento que tem da psiquiatria. (Algumas das suas experiências estão no livro que escreveu, O dragão pousou no espaço.)
Lula mantém, por exemplo, grupo de ações poéticas musical/performático - o Sistema Nervoso Alterado - formado por pacientes psiquiátricos, que se apresenta em teatros pelo país. (A foto acima registra, em Bauru/SP, momento do espetáculo engraçado e criativo chamado As Camisas de Forças Sociais.) Segundo Lula, "é um desfile de moda musicado (a banda é maravilhosa), em que os clientes vestem camisas de força que normalmente são usadas por nós: camisas de forças políticas, cotidianas, sociais, matrimoniais, camisa de força da imprensa, do futebol etc.". Há 4 anos o espetáculo é apresentado, e sempre surgem novos convites para mais.
Ele escreveu um depoimento exclusivo para este Blog, onde fala inclusive sobre o Nuvem 33.
O Nuvem 33 fez um punhado de apresentações além da Retreta Eletrônica no Teatro do Parque: no Pátio de São Pedro, no Beco do Barato e na Feira Experimental de Música (ao lado, o cartaz criado por Lula Wanderley), em Nova Jerusalém.
Quanto a esta, o Diário de Pernambuco, em sua edição de 13 de novembro de 1972, não deixou por menos e estampou a nota:
"Hippies" invadem a Nova Jerusalém e realizam festival
FAZENDA NOVA (Do enviado especial) - As ruelas e palácios de Nova Jerusalém foram invadidos, sábado ao entardecer, por "hippies" e estudantes que, entre os sons de guitarras e a estridência "desordenada" de baterias, realizaram o primeiro festival de música de vanguarda de Pernambuco, com a denominação de I Feira Experimental de Música.
O espetáculo, que começou às 17h30m do sábado terminando às 4 horas do domingo, reuniu cerca de duas mil pessoas.
A Banda de Música de Fazenda Nova e a Banda de Pífanos de Nova Jerusalém abriram a parada musical em meio a um entusiasmo sem precedentes dos jovens aglomerados ante o imponente Palácio de Pilatos. Seguiu-se a apresentação do conjunto Tamarineira Village, culminando com a exibição do Nuvem 33 e Flaviola.
Os promotores do certame distribuíram questionários a fim de colher as impressões dos participantes do espetáculo, qualificado pelos observadores como "o primeiro grande passo para a completa renovação da música popular regional".
Hoje, canções como Moma, seu banjo e o Dr. Bizarro; Motcha, o morcego; Ave marciana; Lesmas famintas e outras não fariam feio em um CD para crianças...
Sem compromisso com a linearidade, rumamos da Vila Madalena, São Paulo (ver posts anteriores), para a Avenida Conde da Boa Vista, Recife. É lá que, em 1971 – na calçada – conheço Lula Wanderley. Ambos temos os cabelos longos – algo raro na Recife daquela época – e isso facilita a aproximação. Lula me fala do diretor de teatro maranhense Tácito Borralho, que veio à cidade montar uma peça chamada Armação e está à procura de certo estudante de Arquitetura autor de composições estranhas: quer convidá-lo para fazer a trilha musical.
A pessoa em questão, descubro em seguida, sou eu mesmo. E assim, meio casualmente, começo a fazer música para um circuito um pouco maior que os amigos e colegas de faculdade. Em uma semana, componho 12 canções para a peça. E monto uma banda para interpretá-las ao vivo no Teatro do Parque, durantes as cenas. Isso muda o curso da minha vida e determina o surgimento de um grupo muito atuante no cenário musical de Recife em 1972: o Nuvem 33.
A capital pernambucana vivia, no que dizia respeito à música, um momento de transição. Enquanto nomes como Alceu Valença e Geraldo Azevedo tinham ido tentar a sorte no Centro-Sul, a cidade repercutia a seu modo o Tropicalismo. Havia um certo clima experimentalista no ar, traduzido por nomes como Aristides Guimarães e o Laboratório de Sons Estranhos, Marco Polo e o Tamarineira Village, Ana Lúcia Leão, Flaviola, entre outros. Era um período bem estimulante.
O nome Nuvem 33 foi tirado do título de uma novela de ficção científica que escrevi na época. O grupo não era limitado à música, pois incluía artistas plásticos e atores em suas performances. Na primeira delas – Retreta Eletrônica, no Teatro do Parque – desenhistas faziam comentários ao vivo, em linguagem de histórias em quadrinhos, do que se passava no palco. O resultado era projetado em um telão. Por exemplo, enquanto eu fazia voz de falsete durante uma canção, o marinheiro Popeye dizia nos quadrinhos que minha voz era igual à de Olívia Palito. Coisas assim.
O Nuvem 33 reunia personagens como Otávio “Bzzz” Machado (que inventou uma espécie de teremim e me apresentou ao som de Frank Zappa), o guitarrista Carneirinho, o baixista João de Deus, o baterista Israel (que depois trabalharia com Alceu Valença), e as participações dos artistas plásticos Lula Wanderley, Humberto Avellar (que me apresentou autores de ficção científica como Isaac Asimov, Ray Bradbury e Kurt Vonnegut Jr.) e Rodolfo Mesquita. Claro, havia muito mais gente. O primeiro show, aberto a todos os músicos da cidade, não tinha hora para terminar. Nele o guitarrista Robertinho do Recife, recém-chegado dos Estados Unidos, fez uma participação especial. Nele quebrei minha régua "T" em cena e renunciei à Faculdade de Arquitetura. A partir daí decidi ir a São Paulo estudar música com Tom Zé.
Tiago Araripe
Na imagem, cartaz criado por Lula Wanderley para um dos shows do Nuvem 33 em Recife. Há muitos anos morando no Rio de Janeiro, Lula é também psiquiatra, tendo trabalhado com Nise da Silveira e colaborado com o cineasta Leon Hirszman no documentárioImagens do Inconsciente. Como artista plástico, manteve sólida parceria com Lygia Clark, de cuja obra foi curador.