quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nordeste revisitado - 1

Na foto, Araripe e Penna: Papa Poluição in concert.

E o Papa Poluição pega a estrada, numa das raras incursões do grupo fora do estado de São Paulo. Seria final de 1978. Toda a nossa excursão pelo Nordeste foi organizada por carta. Isso mesmo: o velho e bom correio. Não tínhamos empresário – os dois únicos que se dispuseram a isso ao longo dos cinco anos de existência do Papa não eram exatamente dignos de confiança (um deles, procurado pela Polícia Federal, escafedeu-se; a outra nos deu um calote).

Penna e eu viajávamos a bordo de Sofia, nossa kombi recém-adquirida, juntamente com o equipamento do grupo (algo modesto, principalmente se relacionado aos sofisticados PAs de hoje). Paulinho levava Xico Carlos, Beto e Bill na sua Brasília que não era amarela.

E dá-lhe estrada.

De São Paulo a Salvador, onde faríamos nossa primeira apresentação da viagem, são 1.962 quilômetros. Não paramos para dormir: fazíamos isso nos próprios carros. Na kombi, havia um espaço mínimo entre as caixas de som e o teto – suficiente para que eu e Zé Luiz nos revezássemos para um cochilo no colchonete ali estrategicamente colocado.

Os postos rodoviários requeriam toda a nossa atenção: a bordo de Sofia, apenas eu era oficialmente habilitado a dirigir. Se Penna estava ao volante, era impressionante a rapidez com que alternávamos nossas posições ao avistar um posto ou barreira policial – mesmo com o veículo em movimento. No mais, evitamos maiores problemas simplesmente entregando exemplares dos nossos discos aos guardas. Não sei bem como, mas funcionava. (Na volta substituímos os presentes por mangas, que trazíamos do Cariri.)

Chegamos à Bahia pela Ilha de Itaparica, onde ficamos um ou dois dias para nos restabelecer do estirão da estrada. Ao avistarmos o mar, depois de tanto tempo papando a poluição paulista, não tivemos dúvidas: paramos os carros e entramos na água com roupa e tudo. Depois nos instalamos em casa na ilha, da família do Paulinho, numa praia simples e acolhedora chamada Cacha-Prego.

Após o show que abriu a excursão, em um clube de Salvador, levantamos acampamento rumo a Fortaleza. Na capital cearense, hospedados na casa do jornalista, compositor e cineasta Francis Vale, fizemos temporada de quatro apresentações no Teatro da Emcetur. O show estava afiado, com o grupo entrosado e ótima iluminação produzida por Túlio Penna, irmão de Zé Luiz que se juntara a nós em Salvador. Graças à boa divulgação, obtida com auxílio de Francis, tínhamos o teatro cheio todas as noites.

Como a proposta da excursão era funcionar também como férias patrocinadas, após o show íamos para a Beira-Mar - e as conversas se estendiam madrugada adentro. Pessoas como Petrúcio Maia e Rosemberg Cariri juntavam-se a nós em discussões às vezes acaloradas. Bebíamos muito. Promovíamos jantares para o pessoal da imprensa. E com a mesma facilidade que o dinheiro entrava, saía.

(Eu jamais imaginaria, àquela altura, que décadas depois voltaria a Fortaleza... para ficar.)

(Continua...)

Tiago Araripe

3 comentários:

Dalvinha disse...

Tiago, você esqueceu de dizer que levava uma Curica(periquito) que um índio no Xingú havia me dado, e que eu estava mandando pra mainha(D.Naná).E a bichinha chegou não foi? apurrinhando vcs com os gritos.Lembra disso? pois é, a Tal Curica viveu anos.Tá vendo nem uma viagem fez com a pobre ave tivesse algum problema.Essa excursão foi a coisa mais louca e mais bonita que vcs fizeram.Por isso o Papa nunca vai ser esquecido, pelas loucuras(sadias) e pelas coisas que vcs falavam, e cantavam.Tá pra existir um grupo como o PAPA POLUIÇÃO com sua loucura, com seu bom humor.Por isso essa minha idolatria por vcs.
"OU EU IDOLATRO OU CUSPO NO PRATO..." papa.
Beijos
Dalvinha Costa

Carlos Rafael disse...

On the road é isso!
Até chegar ao Crato. Tô ávido para ouvir essa parre da história.

Abraços,

Cabelos de Sansão disse...

vem aí, carlos. a continuação já está escrita e pronta para postagem...