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terça-feira, 18 de setembro de 2012

segunda-feira, 21 de março de 2011

Tango com Décio Pignatari

Resgate feito, via internet, de faixa do compacto simples "Tom Zé e Tiago Araripe", lançado em 1974 pela Continental. A gravação foi feita no estúdio de Rogério Duprat, de apenas dois canais, e tem arranjo de Guilherme Arantes, que também toca piano. José Eduardo Nazário toca bateria e percussão. Ao final, ouve-se a voz de Tom Zé. Ao longo da minha trajetória de músico, compus dois tangos, ambos com letra de Décio Pignatari. Este é um deles.

Tiago Araripe




E aqui o lado A: "Conto de Fraldas" (Tom Zé).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O depoimento de Décio Pignatari

1973 foi um ano em que estive bem chegado à MPB. Até hoje me espanto com o pique e empenho de Tiago na criação de peças tão instigantes a partir daquelas letras que eram mais problemas do que poemas inspiracionais. Gosto muito da composição Teu coração bate, o meu apanha, seguido de Drácula. Já Hipopótamo é um nonsense infantil que nem eu entendo. E 1973 foi o ano da capa do "Todosolhos", do Tom Zé, uma bomba relógio em câmera lenta que explodiria trinta anos depois, graças a David Byrne, Tom e a minha míni-equipe de design. Mas é muito bom ver o Tiago Sansão-Canção emergindo do calabouço!

Décio Pignatari

Curitiba, Fevereiro 2008


(O texto acima foi gentilmente escrito para o material de divulgação de Cabelos de Sansão. As duas composições a que Décio se refere foram feitas a partir de letras dele que me foram apresentadas por Tom Zé. A terceira, que se tornou uma espécie de rumba dançante, me foi apresentada pelo próprio Décio e executada nos primeiros shows do Papa Poluição, em São Paulo. T.A.)

domingo, 5 de outubro de 2008

Tiago Araripe, por Augusto de Campos


Quando o vi cantar Little Wing de Jimi Hendrix, fiz uma versão para ele.


Com sua voz melodiosa, de registro alto, a composição “voou” numa interpretação única, inesquecível, porque não tributária de nada, homenagem criativa ao grande guitarrista americano: Asa Linda. Já era ele próprio compositor de méritos e intérprete ousado de textos raros de Décio Pignatari, Drácula, e Teu Coração Bate, o Meu Apanha.


No LP Cabelos de Sansão, dos tempos heróicos do Lira Paulistana, ele mostra a versatilidade das suas músicas e interpretações com o apoio do grupo instrumental Sexo dos Anjos, cujos arranjos e intervenções inventivas conjugam-se à voz de Tiago para fazer do disco uma preciosidade. Fico feliz de poder reouvi-lo agora, finalmente, em CD. Há de ser uma bem-vinda surpresa para os que não chegaram a conhecê-lo. E que Tiago volte com novas surpresas.


Augusto de Campos


(O texto acima foi gentilmente escrito por Augusto de Campos para o material de divulgação de Cabelos de Sansão.)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Drácula no Fantástico

Dias depois do Festival Abertura (vide post anterior), estava eu pensando que estratégia adotar para poder almoçar quando batem à porta do sobradinho onde eu morava na rua Wizard. Era alguém da produção da Rede Globo. Depois de se identificar, a pessoa disparou: eu aceitaria interpretar a música Drácula no Fantástico?

Parecia algo milagroso, dada a minha condição financeira precaríssima naquele momento. Mas o que me ouvi dizer ao rapaz da Globo surpreendeu a mim mesmo: falei simplesmente que ia pensar no assunto. Daria uma resposta depois. (Eu era muito jovem, muito duro e muito metido a besta.)

Depois do pretenso charme de artista (pobre, mas artista), acertei o cachê e os detalhes da gravação do programa –aliás, receber o pagamento foi dez vezes mais difícil que cantar a música.
Para dar mais fôlego à repercussão do Abertura, a Globo preparou um quadro do Fantástico que mostraria polaridades contrastantes do Festival: a música mais popular do evento (Farofa-fá, interpretada por Mauro Celso) e a considerada mais “maldita” (Drácula, interpretada por mim).

Naturalmente, o nome do parceiro Décio Pignatari deve ter pesado na definição da pauta do programa. Acredito também que a Globo, de alguma forma, estava me dando uma segunda chance depois da minha performance afônica no Festival. Seria uma forma de reabilitar minha imagem de cantor.

Do palco ao porão

Eu e o Mauro Celso gravamos os nossos números nos porões do Teatro Municipal de São Paulo (foto). Por sinal o cenário sombrio se adeqüava mais ao tema de Drácula que ao clima festivo de Farofa-fá.

Daí em diante, Drácula seria uma constante nas apresentações do Papa Poluição: um tango em meio aos rocks, xotes, baiões e maracatus que, traduzidos em linguagem pop, marcaram a diversidade musical do grupo.

Tiago Araripe

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Tangos e morcegos

Quando adolescente no Crato, morei em um sobrado antigo localizado na Praça da Sé. Era algo estranho: no térreo, de cômodos praticamente lacrados, o que havia eram móveis e quinquilharias centenárias da família do meu pai.

O lugar, escuro e assustador, vivia fechado. A ele chamávamos de Subterrâneo. Isso talvez por habitarmos o andar de cima, numa ala de quartos com assoalho de madeira, tendo pouco abaixo dos nossos pés aquele ambiente sombrio.

Havia muitos morcegos transitando ali, e algumas vezes eu e meu irmão Flamínio nos divertíamos a caçá-los pela casa. Com uma daquelas espingardas de carregar pela boca - socadeira, como dizem no sertão - dispensávamos o chumbo que poderia quebrar as telhas: bastava a pólvora, a bucha e o barulho da explosão para os morcegos, cegos que se guiam pela audição, caírem fulminados.

Anos depois, tive a oportunidade de ter o próprio Drácula nas mãos. Não, ele não veio de algum castelo fantasmagórico da Transilvânia. Saiu mesmo foi de um moderno apartamento no bairro paulistano das Perdizes. Longe de ser o aterrorizante personagem de Bram Stoker, era na verdade um vampiro bem-humorado, saído da imaginação criativa do poeta de Décio Pignatari.

Chegou até a mim por meio de Tom Zé, como letra de música, em meio a outros poemas de Décio. Dois deles falavam de vampiro e pareciam mais longos do que normalmente são as letras de uma canção. Depois de algumas horas ao violão, consegui transformá-los em tangos algo futuristas. Ambos foram registrados em disco. Teu coração bate, o meu apanha virou o lado B do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe. E com Drácula participei do Festival Abertura, da Globo.

O Festival aconteceu em 1975, no Teatro Municipal de São Paulo. Representava a tentativa da Globo de reviver os áureos tempos dos festivais de música popular que tanto animaram a cena cultural do país na década anterior. E projetou nomes importantes como Djavan, Alceu Valença, Walter Franco, Hermeto Pascoal, Ednardo, Luís Melodia, Jards Macalé, Jorge Mautner e muitos outros (clique nos links para ver letras ou assistir clipes de algumas das músicas do Festival).

Os futuros parceiros de Papa Poluição - José Luiz Penna e Paulinho Costa - também estavam entre os participantes defendendo Muzenza, composição deles que integraria depois o repertório do grupo, assim como a própria Drácula.

Uma das apresentadoras do Festival era ninguém mais ninguém menos que a Marília Gabriela (foto abaixo). Nos shows dos intervalos estavam lá artistas como Tim Maia e Caetano Veloso. Em suma, havia na receita todos os ingredientes para fazer do evento um grande espetáculo.

Tivemos bom ensaio geral na véspera, quando Drácula foi considerada, por alguns jornalistas presentes, como proposta inovadora. Saí do Teatro Municipal animado, cheio de perspectivas quanto à apresentação da noite seguinte e os seus possíveis desdobramentos.

Mas o imprevisto aconteceu. Lá fora, a garoa e o frio de uma virada de clima habitual em São Paulo passou a destoar das roupas leves que eu usava.

Resumindo: acordei afônico no dia do Festival.

Ao que parece, meu drama pessoal sensibilizou algumas pessoas nos bastidores do Teatro - principalmente aqueles que me viram cantar no ensaio anterior. Uma jurada, notória professora de canto, pediu que me transmitissem exercícios vocais para melhorar a garganta (se não me engano, foi a própria Marília Gabriela a porta-voz da receita). Do seu camarim, Caetano orientou que me ensinassem uma posição de Ioga chamada de Posição do Leão, indicada para casos como o meu. Atordoado, eu a tudo aceitava querendo ficar bom. Cheguei a cogitar a substituição por outro intérprete: o próprio Paulinho Costa. A direção da Globo não aceitou: meu videoclipe já estava gravado, ambientado no cemitério da Avenida Dr. Arnaldo, e havia alguma simpatia pela minha imagem magra, longos cabelos, vestido com capa negra de vampiro meio hippie.

Assim, com a coragem de mamar em onça que desenvolvi nos momentos difíceis de enfrentamento do público, adentrei o palco do Teatro Municipal. Procurei compensar a falta de voz com gestos dramáticos. Houve quem ouvisse na minha rouquidão uma referência aos guinchos de vampiro, que os violinos do arranjo de Mauro Giorgetti sugeriam.

No dia seguinte, alguns críticos foram benevolentes. Wladimir Soares, do Jornal da Tarde, escreveu que Drácula "foi a única música a representar uma proposta concreta de inovação e criatividade". Continuando, acrescentou: "Na hora da apresentação, Thiago (sic) Araripe perdeu a voz e ganhou apenas 66 pontos; era um tango que fugia do tradicional portenho e do jazzístico de Piazzola, com uma linha própria".

José Miguel Wisnik, que anos depois se revelaria um talentoso compositor, registou no jornal Última Hora o que chamou de perda lamentável "porque envolve o próprio andamento do concurso":

Thiago Araripe, que apresentou a música Drácula, é um cantor muito bom, com uma afinação muito natural e segura, além de ser um ótimo compositor, conforme pôde-se ver no decorrer dos ensaios. Acontece que ele acordou sem voz no dia da apresentação, em conseqüência dos rigores do clima paulistano, e sua interpretação perdeu toda a naturalidade. Repare bem quando puder: Drácula é uma das melhores composições do festival.

A seguir, você vai saber como - mesmo desclassificado no Abertura - fui convidado para cantar Drácula no Fantástico. E não vale antecipar, dizendo que é o show da vida...

A propósito, a foto que ilustra esta postagem é de um show realizado no Colégio Rio Branco logo após o Festival Abertura. Ali está, provavelmente, a mesma capa que utilizei no evento da Globo. Ali está, com certeza, o embrião que deu origem ao grupo Papa Poluição - e começou quando formamos uma banda para acompanhar Tom Zé alguns meses antes - inclusive no mesmo colégio paulistano.

Além de Xico Carlos na bateria e Fausto Aguiar na guitarra, contei com a participação de José Luís Penna e Paulinho Costa. Não lembro quem estava no baixo: a pessoa ficou encoberta por mim na fotografia. Mas recordo que bem em frente, na platéia, estavam Décio Pignatari e os irmãos Campos - Augusto e Haroldo. E que estreamos nessa noite outra parceria minha e do Décio: O hipopopótamo, rumba dançante de letra estranhíssima.

Tiago Araripe

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O que vem por aí


Enquanto começa a contagem regressiva para o relançamento de Cabelos de Sansão, este Blog antecipa aqui cenas dos próximos capítulos.

Falaremos dos shows do Papa Poluição. Depoimentos a respeito das tantas histórias que vivemos nos palcos e bastidores serão bem-vindos. Novas fotos dos acervos pessoais serão reveladas.

Esta que você vê acima, por exemplo, mostra uma apresentação do grupo no teatro - na época recém-inaugurado - do Sesc Anchieta, em São Paulo. (No click, este que vos tecla, Bill e Penna.) x

As performances do Papa eram movimentadas e divertidas. Melhoravam conforme as adversidades que tínhamos que superar. Uma de nossas mais vibrantes apresentações aconteceu em um pequeno teatro de São Paulo, depois que descobrimos que o público daquela noite se resumia a sete pessoas. Aquilo mexeu com nossos brios. Um de nós bateu no espelho do camarim, que se espatifou. Como uma equipe que entra em campo para uma partida difícil, decidimos que aquele seria um grande show. Entramos em cena com todo gás, como se estivéssemos tocando e cantando para uma multidão. Para aquelas sete pessoas deve ter valido o preço do ingresso. Para o grupo, valeu ter dado o melhor de nós quando teria sido compreensível - e usual em casos semelhantes - simplesmente suspender o espetáculo.

Há também a nossa excursão pelo Nordeste, que é um capítulo à parte. E haverá os depoimentos que a assessoria da Saravá Discos já coletou, de pessoas como Tom Zé, Tetê Espíndola, José Luiz Penna, Vânia Bastos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, escritos exclusivamente para o relançamento de Cabelos de Sansão. Todos têm a ver/ouvir com o disco mesmo que indiretamente, como Tom Zé e Décio.

Mas neste Blog o imprevisível também será bem recebido.
Como cantava Johnny Alf em Eu e a brisa: "Que o inesperado faça uma surpresa".

Assim seja.


Tiago Araripe

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Teu coração bate, o meu apanha

Letra: Décio Pignatari (foto)
Música: Tiago Araripe

Compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe (Continental, 1974)


Teu coração bate
Você é rica
O meu apanha que sou pobre
Teu amor devora o meu
Não deixa nada
Nem um suspiro, nem um A
Nem um respiro, nem um M
Nem um retiro, nem um O
Nem um tiro, nem um R

Teu coração bate
De vampiro
Você é rica
De amor sugado
O meu apanha
Sem manha
Porque é pobre
De amor roubado

Teu amor devora o meu
Não deixa nada
Nem um escape nem ar
Nem mesmo amor para eu te amar

Só sofre assim que não morreu
E não encontra quem o mate
Teu coração no meu
Bate, bate, bate, bate.




sábado, 16 de fevereiro de 2008

Das ruínas a rexistência, por Carlos Adriano

Entre 1961 e 1962, o poeta e pensador Décio Pignatari (1927) filmou em 16mm alguns projetos sob ânimo ideológico e revolucionário (mas sem experimentação formal). A produção era da Estrela Vermelha Productions, fundada por Décio com seu amigo José Nania. A câmera de corda era operada por Nania e Décio, que também assinava o roteiro e a direção dos filmes.

Entre os projetos rodados, estavam o ambicioso documentário Ruínas para o Futuro (sobre a greve dos vidreiros em 1910 e a utopia operária levantada com a cooperativa anarquista em Osasco), a ficção Ponto de Encontro (uma história de amor passada entre os trilhos dos trens que ligavam Osasco a São Paulo) e o lançamento da pedra fundamental da Matriz de Osasco.

Estes filmes nunca foram finalizados ou exibidos. Permaneceram inacabados, desconhecidos. Das Ruínas a Rexistência (2004-2007; 35mm; 13 minutos) é a montagem poética desta rara constelação de imagens enigmáticas do cinema brasileiro. Com sua habitual sacada de síntese, Décio definiu-o como “um filme cubista-caleidoscópico”.

Assino a realização e a montagem, e divido a produção e o roteiro com Bernardo Vorobow. Eduardo Santos Mendes fez o design e a edição de som. José Luiz Sasso mixou e masterizou. A première mundial deu-se em agosto de 2007 no 60º Festival de Locarno (que, em 2003, exibiu minha obra completa na seção Cineastas do Presente).

No trabalho de reapropriação, as imagens filmadas por Décio foram transformadas por meio de procedimentos ópticos e operações (“efeitos”) digitais: exploração de texturas, re-enquadramento de planos, inversão de movimento, rotação do quadro. É um filme do gênero “experimental”, na vertente found footage, que recicla material de arquivo.

Curiosamente, no que hoje vejo como uma projeção retro-perspectiva, Décio batizou um artigo sobre meu trabalho, publicado à época em que eu havia realizado meus dois primeiros filmes sobre material de arquivo (Remanescências e A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha) justamente com o título “Carlos Adriano: he’s reel !”.

Como todas as imagens provêm de arquivo, era natural e coerente que todos os sons também o fossem. É o que ocorre com dois trechos breves de músicas incidentais de Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski (de cujo arquivo veio a gravação da voz de Décio lendo seus poemas), e o som do big bang refeito em laboratório por John G. Cramer.

A única música que propriamente toca no filme (e inteira, nos créditos finais) é Teu Coração Bate, O Meu Apanha, composta por Tiago Araripe sobre a letra de Décio Pignatari. A gravação foi lançada no lado B de um compacto de 1974 (no lado A, Conto de Fraldas de Tom Zé, que faz coro na canção de Décio e Tiago). Sob o mesmo espírito de re-descoberta, que re-instaura uma revelação, eu a escolhi por sua raridade.

E pelo achado maravilhoso. Mas também pela gazua de ouro do que se abre à fruição da experiência. Encerrar um filme de teor sensorial e conceitual sobre a natureza temporal da imagem com uma canção reflexiva e desconcertante (por sua clareza e enigma, sua construção mediada e seu apelo imediato), que faz do jogo amoroso profissão de fé e des/encanto, é um gesto que adiciona outras e plurais camadas de sentido e de ironia.

A canção é extraordinária. A letra deslumbrante joga com achados polissêmicos e paranomasias (o mais evidente é a conjugação do verbo "bater"). A música é proeza de articulação intrincada, em dois tempos (eco em dobro do sentido duplo das palavras). Ritmo da milonga de pós trovador, refinado e popular, do melódico ao atonal. Em pura alquimia do deleite, esgarçada pela dor do amor e retorcida por passos requebrados, a mente sensível dança no construído descompasso de um tango sincopado.

Orgulho-me de ter realizado este filme e ter merecido a confiança de artistas tão raros como Décio Pignatari e Tiago Araripe.

Carlos Adriano

(Imagem: montagem de Carlos Adriano com foto de Décio e sombra duchampiana.)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Outras vozes - 2

O próximo convidado deste Blog é o cineasta paulistano Carlos Adriano. Já falamos dele há alguns posts. É autor do curta Das ruínas a rexistência (fotograma acima), que tem como tema os filmes inacabados de Décio Pignatari e inclui o tango que fiz a partir de uma letra do Décio: Teu coração bate, o meu apanha.

Amanhã publicarei texto de Carlos Adriano feito exclusivamente para este espaço, onde ele fala do seu filme, dos filmes de Décio e dessa composição em especial.

Em breve, com você, Carlos Adriano.

Tiago Araripe

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Papa Poluição, por Tom Zé, Guilherme Arantes, Augusto de Campos, Décio Pignatari...

Este é o verso da capa do compacto duplo do Papa Poluição, aquele já comentado posts atrás. Algumas pessoas da cena cultural, convidadas a dar um breve depoimento a respeito do grupo, responderam com boa vontade e - em alguns casos - bom humor. É o caso dos poetas Augusto de Campos e Décio Pignatari, do cineasta André Luís Oliveira (diretor do cult Metereorango Kid, Herói Intergalático), dos compositores Tom Zé, Marcus Vinícius de Andrade e Guilherme Arantes, da cantora roqueira Tibet...

As quatro faixas foram gravadas num estúdio de quatro canais, localizado nas imediações da chamada Boca do Lixo de São Paulo. A qualidade deixa a desejar, mas dá uma idéia do som do Papa.

Na época o diretor artístico da Chantecler era o Salatiel Coelho, que fez a coordenação de produção do disco. Um paraibano criativo e engraçado, de quem ouvimos boas histórias. Como a da dupla sertaneja que se apresentou na gravadora, em busca de oportunidade. Chamavam-se Conselheiro e Ouvidor. Com um detalhe: ambos eram carecas. Salatiel Coelho ouviu as músicas da dupla e, curioso, perguntou a razão do nome. O primeiro se adiantou: falou que era Conselheiro porque, durante os shows, ficava dando conselhos às menininhas. "E o Ouvidor?", perguntou Salatiel. "Porque fica só ouvindo...", respondeu de pronto o Conselheiro. A dupla foi contratada, mas com a condição de ser rebatizada. E foi assim que viraram Kung Fu e Kojak...

Tiago Araripe

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Do primeiro disco a gente não esquece

São Paulo, 1974. Estúdio de Rogério Duprat, maestro do Tropicalismo, no boêmio bairro do Bixiga. Apenas dois canais. Arranjo de Guilherme Arantes, bem antes do sucesso de Meu mundo e nada mais que impulsionou sua carreira. No lado A do compacto simples acima, como se viu no post anterior, Conto de Fraldas de Tom Zé.

Teu coração bate, o meu apanha é um tango. Eu nunca havia feito tangos antes, até receber de Tom Zé as letras de Décio Pignatari. O outro poema/letra em parceria com Décio é Drácula, que interpretei no Festival Abertura da Globo no ano seguinte (ouça aqui).

São composições dramáticas como todo tango - e divertidas também.

A gravação original de Teu Coração Bate, o Meu Apanha foi utilizada no curta-metragem experimental Das Ruínas a Rexistência (2004-2007). O filme, dirigido pelo cineasta paulistano Carlos Adriano, é uma "montagem poética sobre fragmentos dos desconhecidos filmes inacabados (1961-1962) de Décio Pignatari". O curta teve sua estréia internacional na Suíça, durante o 60º Festival Internacional de Cinema de Locarno, numa seção não-competitiva dedicada às experimentações mais radicais do audiovisual contemporâneo. Foi exibido também em outubro de 2007, no 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Sesc Videobrasil, que fez uma exposição completa da obra de Carlos Adriano.

Tiago Araripe

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Tom Zé, por Tiago Araripe


Em dezembro de 2003, Tom Zé veio a Fortaleza apresentar o show Imprensa Cantada e lançar o livro Tropicalista Lenta Luta. Na ocasião, o jornalista Luciano Almeida Filho me pediu para escrever um texto sobre o período em que trabalhei com o compositor e músico baiano. Tirei do fundo do baú a foto ao lado, que ilustra o artigo (de um ensaio que fizemos no apartamento de Tom Zé em Perdizes).
O depoimento me proporcionou um reencontro musical com Tom Zé no palco do anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A convite dele, juntei-me à banda e ao show para dividir os vocais da antológica Jimi Renda-se.


RECORDAÇÕES DO FUTURO


Tiago Araripe
Especial para O POVO


"Quando saí de Recife para tentar a sorte como cantor e compositor em São Paulo, deixando pela metade o curso de Arquitetura e um emprego de copy-desk no Diário de Pernambuco, só tinha um objetivo cem por cento definido: estudar na escola de música de Tom Zé. A fixação tinha seus motivos. Tom Zé era, como 30 anos depois continua sendo para muitos, uma referência de inventividade musical. Suas entrevistas que acompanhei pela televisão me indicavam um criativo invulgar, sempre capaz de lançar um olhar novo sobre os mais diversos assuntos da vida e da cultura do país.


Cheguei a São Paulo no início de 1973, trazendo na bagagem algumas composições tão estranhas quanto imaturas, feitas no eixo Crato-Recife por onde eu me movimentava. Não por acaso, o primeiro show a que assisti na grande metrópole foi o de Tom Zé e Grupo Capote, no auditório do Masp. Depois um vizinho pianista me forneceu o telefone do cantor e marcamos o primeiro encontro. De antemão soube que a escola de música já não existia. Mas fui em frente. Na longa conversa que tivemos no estúdio do maestro tropicalista Rogério Duprat, no bairro do Bixiga, entremeada pela apresentação ao violão de meu precário repertório, Tom Zé se mostrou um ouvinte atento e respeitoso. O contato, que durou toda uma tarde, teve desdobramento inesperado: trabalhamos juntos durante um ano, fazendo apresentações nas quais eu tinha espaço para mostrar algumas de minhas músicas.


A princípio, reunimos um time de músicos amadores, universitários de uma forma ou de outra atraídos pelo trabalho do baiano de Irará. (Alguns deles se profissionalizaram e chegaram a dar boas contribuições ao que se configuraria mais tarde como a Vanguarda Paulistana.) Ensaiávamos no apartamento de Tom Zé nas Perdizes, provavelmente no mesmo edifício onde mora até hoje e do qual é jardineiro oficial. Na mesma vizinhança habitavam os articuladores do movimento concretista: Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Cheguei a participar de alguns encontros de Tom Zé com esses poetas de campos e espaços. Muitos deles no bar Cristal, regados a chopp e Steinhager. Não raro surgiam intersecções musicais interessantes, como a audição da obra do músico austríaco Anton Webern, promovida e comentada por Augusto de Campos, no apartamento deste, com a presença de Tom Zé e do poeta Régis Bonvicino. Ou as cinco letras que Décio pediu a Tom Zé para musicar e este me repassou: um desafio, pois eram extensas e sugeriam tudo menos versos de canção popular. Mesmo assim, a partir delas consegui fazer duas composições: Teu coração bate, o meu apanha, lado B do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe, lançado pela Continental em 1974, e Drácula, que interpretei no Festival Abertura da Globo no ano seguinte. Ambas são tangos, gênero no qual até então eu não me aventurara, definidos pela crítica especializada da época como uma vertente nova, não enquadrada nem no tango tradicional nem no tango jazzístico de Piazzola. Aprovado pelo novo parceiro, ganhei depois uma letra específica (e curiosíssima) das mãos do próprio Décio, transformada numa espécie de rumba: Hipopopótamo (sic).


Voltando ao fio da meada. Nos ensaios com os universitários, trabalhando a partir da sonoridade acústica de violões, era interessante observar a capacidade de Tom Zé de extrair o melhor dos músicos incipientes que éramos. Valia-se dos seus conhecimentos de música erudita (chegou a estudar cello e ter aulas com Smetak, quando morava em Salvador) e sua intuição de artista inquieto, sempre em busca do inusitado, para nos ensinar. Lembro de um arranjo que ele criou para ser executado por mim numa harmônica de boca, mostrando-me como tocar sem me atrapalhar com o manejo da clave. Assim a gaita incorporou-se aos shows, que fazíamos em diversos espaços da capital e do interior paulistano. E olha que nunca fui tocador de gaita.


Em determinada altura do campeonato, sugeri a ele que deveríamos modernizar o show, dando-lhe uma característica pop. Algo que fizesse jus ao disco Todos os olhos (sim, aquele da foto polêmica), recém-lançado. Ele aceitou de pronto, e convidei alguns amigos, nordestinos e músicos, constituindo assim o que viria a ser o embrião do grupo Papa Poluição, que integrei entre 1975 e 1980.


A derradeira apresentação que fizemos juntos foi num evento sobre cultura baiana no Anhembi, do qual participou também Walter Smetak. No seu show, Tom Zé entrava todo paramentado de artista pop, com uma máscara aplicada sobre o rosto que o deixava transfigurado. Aos poucos ele ia tirando o disfarce, arrancando nariz, orelhas etc. Se queria impacto, conseguiu.


O registro do trabalho que fizemos juntos foi o compacto gravado no mesmo estúdio, de apenas dois canais, onde nos conhecemos: de um lado Conto de fraldas, de Tom Zé, e do outro Teu coração bate, o meu apanha. Queríamos uma sonoridade diferente para o disco, e convidamos um músico na época bem cotado nos estúdios, mas completamente desconhecido do grande público: Guilherme Arantes. Foi quem fez os arranjos, pilotou os sintetizadores e participou do coro.

Tom Zé tinha uma maneira peculiar de viver a cidade de São Paulo. Acompanhá-lo dirigindo no trânsito caótico era muito interessante. Ele sabia de todos os fluxos e contrafluxos, de todos os meandros do tráfego, como um pescador conhece as oscilações das marés. O que não quer dizer que sua convivência com a cidade fosse tranqüila. Não o era em absoluto. Que o digam algumas de suas músicas, como Botaram tanto lixo, botaram tanta fumaça.


Fazia anos que não o via e nos encontramos na pré-estréia do filme The Doors, à qual ele foi por insistência da esposa Neusa. Tinha voltado há pouco de Nova York onde tivera o primeiro contato pessoal com David Byrne. Assistimos ao filme juntos e perguntei-lhe como estava a cena musical novaiorquina. Ingenuamente, imaginava que me contaria novidades quentíssimas. No entanto, ele me respondeu que não sabia: ficara o tempo todo dentro do hotel.


Esse é o Tom Zé que conheci. Um ser híbrido, meio Irará meio futurismo universal. Durante o longo período em que ficamos sem nos ver, tive um sonho premonitório que contei a Neusa numa fila de cinema. Nele, Tom Zé obtinha finalmente amplo reconhecimento. Isso foi antes de o mundo lhe abrir as portas, a partir do convite de David Byrne. Que bom que se tornou real."
(Publicado no jornal O Povo, em 5 de dezembro de 2003)