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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cabelos de Sansão, por Felipe Avila

Na foto, a banda Sexo dos Anjos: Luiz Brasil (guitarra), Cid Campos (baixo), Guelo (de boné, percussão), Xico Carlos (bateria) e Felipe Avila (guitarra).


Cabelos de Sansão. Um disco que marcou época em meio a tantos outros trabalhos, de tantos artistas incríveis que vivenciaram aquele momento “mágico” de diversidade artística e cultural, do início da década de 80, no Teatro Lira Paulistana.

Tiago convidou o meu grupo Sexo dos Anjos para participar das gravações e me pediu que fizesse o arranjo da música Cine Cassino. Pra mim, foi um momento muito especial, uma oportunidade para escrever e criar à vontade no meu primeiro arranjo para um disco e para um grande artista.

Escrevi, para a música Cine Cassino, um arranjo para violões, cello, percussão e piano. Uma música misteriosa e muito original.

Conheci Tiago Araripe através do meu amigo Cid Campos, que junto com Tiago e os músicos Zé Luiz Penna, Paulinho Costa, Beto Carrera e Xico Carlos, formavam o grupo Papa Poluição.

Nesta época, morávamos todos na Vila Madalena - um bairro bem localizado que parecia ser uma cidade do interior. Lá tínhamos aluguel barato, fazíamos nossos ensaios nas casas em que morávamos e, depois, íamos tomar cerveja, no fim do dia, no boteco “sujinho”, onde tínhamos conta (rs).

Nossos encontros eram quase que diários e, naturalmente, foi surgindo daí uma grande amizade, com respeito e cumplicidade em nossas idéias, e os trabalhos que plantamos ali vieram a acontecer em diversas oportunidades.

Nessa fase, Cid Campos, Luiz Brasil, Xico Carlos e eu estávamos montando um grupo para estudos e pesquisas, um laboratório de sons onde tocávamos também nossas composições. Precisávamos dar um nome para o grupo que começava a surgir, e foi Tiago quem sugeriu o nome Sexo dos Anjos. Aceitamos na hora!

Quando Tiago Araripe pensou em gravar o trabalho solo dele Cabelos de Sansão, e convidou o grupo Sexo dos Anjos para participar das gravações e dos arranjos, fiquei muito feliz mesmo.

Os ensaios destinados à gravação do disco aconteceram na casa do Luiz Brasil, num clima muito gostoso, onde pudemos compartilhar sugestões e idéias, experimentar e tocar à vontade.

Um disco muito bonito, que marcou época e agora está disponível em CD. Vale a pena ouvir este trabalho tão original, com música de qualidade tão atual.

Felipe Avila

www.felipeavila.com

Observação deste Blog:
A previsão é que o CD Cabelos de Sansão seja entregue pela fábrica no dia 20 de maio. Ou seja: muito em breve estará disponível ao público.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Xico Carlos em Salvador

A campanha Onde andará Xico Carlos? teve desfecho rápido, embora não muito claro.

Recebi confirmações do que Francis Vale já havia informado: Xico Carlos está mesmo morando em Salvador. Obtive inclusive foto recente dele, que publico acima.

Mas o ex-baterista do Papa Poluição e do grupo Sexo dos Anjos estaria arredio a contatos (ver comentários relativos ao post anterior).

Por quê?

Se alguém puder mandar e-mail ou telefone dele para este Blog, desde já agradeço.

Tiago Araripe

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Onde andará Xico Carlos?

Foto: Xico Carlos, em show do Papa Poluição na Estação São Bento do Metrô (São Paulo).


Este Blog lança, aqui e agora, campanha de utilidade pública para localizar o paradeiro do músico cearense Xico Carlos.

(Quem souber de alguma pista que leve até ele, peço que entre em contato comigo.)

Xico Carlos foi integrante do Papa Poluição desde a primeira hora. Aliás, desde antes e até depois. Participou do meu compacto simples Sodoma e Gomorra. Formou comigo, José Luiz Penna e Paulinho Costa o grupo de apoio de Tom Zé em 1974. Ao longo dos cinco anos de vida do Papa Poluição, foi ponta firme na bateria.

Depois, já com o Sexo dos Anjos, fizemos o show que funcionou como cartão de visita para o meu ingresso no cast do Lira Paulistana. Em seguida, na gravação do disco Cabelos de Sansão, atuou com o grupo nos arranjos de base. Além de contribuir com bateria e percussão em diversas faixas, ele toca o baixo em Asa linda - versão de Augusto de Campos para Little wing, de Jimi Hendrix. Estivemos juntos também nas apresentações de lançamento do Cabelos no Lira.

Músico versátil, sempre demonstrou afiado senso de humor. Ouvi dele tiradas engraçadas. Uma delas comparava duas ruas de São Paulo: uma muito popular, em Pinheiros, e outra sofisticada, no Jardim Paulista. Não se tratava de uma simples comparação. Na maneira de ser de Xico Carlos, soava como um posicionamento de vida:

"Não troco dez Augustas por uma Teodoro Sampaio", afirmou.

Certa ocasão, o Papa Poluição voltava de uma apresentação no interior paulista após exaustiva viagem na kombi Sofia Bundete. Fomos direto para o Teatro João Caetano, na Vila Mariana, onde tocaríamos na mesma noite. O show começou em grande estilo. Efeitos de luz, os músicos entrando displicentemente no palco e criando, aos instrumentos, uma atmosfera sonora de magia e encantamento. Até que disparamos, finalmente, o primeiro número. Eu ao microfone. Cansados e insones que estávamos, foi o primeiro de uma sucessão de erros. Simplesmente não lembrei a letra da música. E olha que costumava cantá-la em muitas outras apresentações. Como recurso desesperado, emendei uma performance desengonçada no palco. Fazia sons com a voz, para suprir a falta da letra. E me contorcia em uma espécie de dança descordenada.

Ao ver a marmota, Xico Carlos não se conteve e gritou: "O filho de Jósio endoidou!"

A partir daí, o show desandou. Quando concluiu, estávamos arrasados. Passada a frustração, só nos restou rir de nós mesmos e dar a volta por cima.

Xico Carlos, cadê você?

Tiago Araripe

terça-feira, 22 de abril de 2008

Adeus às ilusões

Na foto de Hermano Penna, em pé, Cid Campos, José Luís Penna e Paulo Costa; sentados, Beto Carrera, Tiago Araripe e Xico Carlos.
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Ao longo de cinco anos de luta e música, o Papa Poluição foi praticamente agente de si mesmo. Claro, ter um bom empresário cuidando dos nossos interesses facilitaria muito a vida. Possivelmente melhorasse as condições de sobrevivência do grupo, também.
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Nesse meio tempo, duas figuras se anunciaram para suprir essa importante lacuna. O relacionamento com elas foi breve e decepcionante.
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Nem lembro em que ordem entraram em cena na nossa trajetória. Mas começo falando daquela mulher de aparência distinta e gestos educados. Expressava-se bem, sendo convincente em seus argumentos. Transmitia segurança e sensatez. E o melhor: mantinha escritório na Rua Augusta, com algumas funcionárias. Claro que ficamos animados ao conhecê-la. Mas nada de concreto aconteceu. Ela nos deu algum apoio em um show que já tínhamos programado. Depois nos pediu dinheiro emprestado. Pelo que lembro, não pagou.
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O segundo elemento era argentino. Muito falante, prometeu que nos transformaria em "psicose nacional". Tinha escritório na Avenida Consolação, próximo à Praça Roosevelt. Agenciava um grupo de sucesso, à época. Também vimos nele motivos para sonhar. O contato nos rendeu apenas uma apresentação numa espécie de festival de rock no Paraná. E nada mais.
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Uma bela tarde chegamos ao escritório dele e encontramos a porta fechada. Batemos... e nada. Depois descobrimos que o empresário estava acossado lá dentro, com medo da Polícia Federal. Nunca mais o vimos.
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Fecha o pano, rápido. E ponto final no nosso brevíssimo relacionamento com empresários.
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Tiago Araripe

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nordeste revisitado - 1

Na foto, Araripe e Penna: Papa Poluição in concert.

E o Papa Poluição pega a estrada, numa das raras incursões do grupo fora do estado de São Paulo. Seria final de 1978. Toda a nossa excursão pelo Nordeste foi organizada por carta. Isso mesmo: o velho e bom correio. Não tínhamos empresário – os dois únicos que se dispuseram a isso ao longo dos cinco anos de existência do Papa não eram exatamente dignos de confiança (um deles, procurado pela Polícia Federal, escafedeu-se; a outra nos deu um calote).

Penna e eu viajávamos a bordo de Sofia, nossa kombi recém-adquirida, juntamente com o equipamento do grupo (algo modesto, principalmente se relacionado aos sofisticados PAs de hoje). Paulinho levava Xico Carlos, Beto e Bill na sua Brasília que não era amarela.

E dá-lhe estrada.

De São Paulo a Salvador, onde faríamos nossa primeira apresentação da viagem, são 1.962 quilômetros. Não paramos para dormir: fazíamos isso nos próprios carros. Na kombi, havia um espaço mínimo entre as caixas de som e o teto – suficiente para que eu e Zé Luiz nos revezássemos para um cochilo no colchonete ali estrategicamente colocado.

Os postos rodoviários requeriam toda a nossa atenção: a bordo de Sofia, apenas eu era oficialmente habilitado a dirigir. Se Penna estava ao volante, era impressionante a rapidez com que alternávamos nossas posições ao avistar um posto ou barreira policial – mesmo com o veículo em movimento. No mais, evitamos maiores problemas simplesmente entregando exemplares dos nossos discos aos guardas. Não sei bem como, mas funcionava. (Na volta substituímos os presentes por mangas, que trazíamos do Cariri.)

Chegamos à Bahia pela Ilha de Itaparica, onde ficamos um ou dois dias para nos restabelecer do estirão da estrada. Ao avistarmos o mar, depois de tanto tempo papando a poluição paulista, não tivemos dúvidas: paramos os carros e entramos na água com roupa e tudo. Depois nos instalamos em casa na ilha, da família do Paulinho, numa praia simples e acolhedora chamada Cacha-Prego.

Após o show que abriu a excursão, em um clube de Salvador, levantamos acampamento rumo a Fortaleza. Na capital cearense, hospedados na casa do jornalista, compositor e cineasta Francis Vale, fizemos temporada de quatro apresentações no Teatro da Emcetur. O show estava afiado, com o grupo entrosado e ótima iluminação produzida por Túlio Penna, irmão de Zé Luiz que se juntara a nós em Salvador. Graças à boa divulgação, obtida com auxílio de Francis, tínhamos o teatro cheio todas as noites.

Como a proposta da excursão era funcionar também como férias patrocinadas, após o show íamos para a Beira-Mar - e as conversas se estendiam madrugada adentro. Pessoas como Petrúcio Maia e Rosemberg Cariri juntavam-se a nós em discussões às vezes acaloradas. Bebíamos muito. Promovíamos jantares para o pessoal da imprensa. E com a mesma facilidade que o dinheiro entrava, saía.

(Eu jamais imaginaria, àquela altura, que décadas depois voltaria a Fortaleza... para ficar.)

(Continua...)

Tiago Araripe

sexta-feira, 28 de março de 2008

Um gosto de muito mais

No mesmo 1982 em que o Lira Paulistana lançou Cabelos de Sansão, chegava ao mercado de discos o novo LP de Amelinha: Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor (na foto, a capa). Entre as faixas, uma das muitas canções que fiz em parceria com José Luiz Penna: Um gosto de muito mais. Amelinha gravou a composição em grande estilo, com arranjo hollywoodiano e gran finale em que emite agudo brilhante.

Com o auxílio instrumental de Cid Campos e Xico Carlos, que na época participavam comigo do Papa Poluição, eu havia gravado uma fita cassete com três canções. A fita tinha destino certo, e esse destino atendia pelo nome de Amelinha. Enviei as composições para ela e, tempos depois, a encontro no Maracananzinho, num daqueles festivais da canção que a Globo fez no Rio de Janeiro. (Possivelmente tenha sido no próprio que ela conquistou o segundo lugar cantando Foi Deus que fez você.) Para minha surpresa, Amelinha me disse que havia recebido a fita mas não entendera nada: a gravação estava com rotação alterada... Argumentei que a havia testado em mais de um aparelho, sem problemas. Sem querer ser insistente, dei o incidente como favas contadas.

Passam-se meses. Estou na labuta, revisando textos na Editora Abril, quando toca o telefone. É Amelinha, dizendo que gostara muito das músicas e queria gravá-las (das três canções, gravou duas - em dois discos seguidos). Na ocasião era casada com Zé Ramalho, que me convidou ao Rio para assinar o contrato de edição na editora dele (Martelo).

O disco Cabelos de Sansão estava quase pronto: faltava minha voz e a mixagem. Levei comigo os playbacks, ao som dos quais cantei para o casal todas as faixas do LP. Zé Ramalho gostou tanto que me pediu para lançar o disco pela CBS, onde tinha contrato. Eu, entusiasmado com o movimento alternativo, não quis trair a causa. Principalmente depois de todo o investimento do Lira Paulistana no trabalho. Pudesse fazer de novo, não faria diferente.

No mais, descobri um grande ponto em comum com Zé Ramalho: a admiração pela música dos Beatles. Morando em Fortaleza, ele não hesitava em mandar alguém ao Rio buscar os mais recentes lançamentos - em disco ou vídeo - do quarteto de Liverpool.

Tiago Araripe

terça-feira, 18 de março de 2008

Cabelos muito compridos de Sansão, por Cid Campos - 2

Em 1980 formei, juntamente com Xico Carlos (bateria), Felipe Ávila (guitarra), Luiz Brasil (guitarra, bandolim) e um pouco mais adiante com a participação dos percussionistas Cabral e Guelo, o grupo instrumental Sexo dos Anjos. Era uma banda e tanto, que trazia um repertório autoral de música instrumental brasileira mesclada ao jazz, blues e outras modalidades. Nunca gravamos um disco. A situação na época era muito difícil para a música instrumental, não havendo muita chance junto às gravadoras e assim, infelizmente, não tivemos a sorte de uma boa oportunidade, mas por outro lado fizemos inúmeros shows, que nos davam enorme prazer e respeitabilidade como músicos instrumentistas.

Até hoje Felipe Ávila, que segue sua carreira como instrumentista e compositor, tem participado de meus shows. Além disso fiz questão de tê-lo como guitarrista e violonista na gravação dos meus CDs No Lago do Olho (2001) e Fala da Palavra (2004). Em dezembro de 2007, tive a oportunidade de reunir Felipe e Luiz numa apresentação que fiz no Rio de Janeiro. Foi muito legal! Quase dava para sentir o Sexo dos Anjos no palco!

Em 1981, juntamos em um mesmo show o Sexo dos Anjos e Tiago Araripe. O espetáculo chamava-se Fôlego de 7 Gatos e foi apresentado no teatro Lira Paulistana. A maior parte das músicas que Tiago apresentava viriam a fazer parte de seu primeiro e único LP, que estava por vir. Não lembro bem, mas talvez tenhamos montado o show já pensando em alguma possibilidade de gravação.

Creio que ainda em 1981 ou início de 1982, Tiago veio com a notícia de ter conseguido uma oportunidade para gravar um LP pelo selo Lira Paulistana. Assim, convidou, entre outras participações, o Sexo dos Anjos para fazer alguns dos arranjos e gravar como banda de base. O repertório era composto de músicas suas e parcerias.

Apesar de termos recuperado, há alguns anos, gravações de shows e de estúdio do Sexo dos Anjos, o LP Cabelos de Sansão registra um pouco da sonoridade de nossa banda que, mesmo contando com participações de outros músicos ou não estando completa em todas as faixas, deixou forte marca de sua personalidade sonora no trabalho.

Ainda no disco Cabelos de Sansão (1982), tive a minha primeira música gravada. Trata-se da canção Estrela-do-mar, parceria com Tiago. Também destaco a música Asa Linda, tradução de Augusto de Campos para Little Wing, de Jimi Hendrix, interpretada lindamente por Tiago, e para a qual eu e Paulo Costa fizemos o arranjo, ainda contando com a participação - no baixo - do baterista multinstrumentista Xico Carlos.

Gostei muito de escrever algo sobre essa época tão importante para todos nós e fico feliz pelo fato de que Cabelos de Sansão está, mesmo que tardiamente, se transformando em CD.

Espero sinceramente que Tiago siga em frente com a sua belíssima voz, suas composições geniais e que, depois desse lançamento, não demore a trazer aos nossos ouvidos novas canções e CDs.


Cid Campos

Na imagem, capa de peça de divulgação do show Fôlego de 7 Gatos. Na foto, da esquerda para a direita, Xico Carlos, Cid Campos, Felipe Ávila, Luiz Brasil e Tiago Araripe.