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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Baião de Nós no site Ziriguidum


Tiago Araripe mostra seu universo artístico particular
Compositor pernambucano lança novo trabalho depois de 30 anos
Depois de um hiato de 30 anos o compositor cearense Tiago Araripe lança seu segundo trabalho, Baião de nós. O novo disco, lançado pelo selo Candeeiro Records, tem a obra feita nesse período e produção dividida entre o artista e Zeca Baleiro.

A relação de Tiago com Zeca é a semente desse novo álbum. Fã do disco anterior de Tiago, Zeca relançou o álbum por seu selo Saravá Records em 2008, trazendo de volta o artista para a música. O LP Cabelos de Sansão foi originalmente lançado pelo histórico selo Lira Paulistana na sequencia da estreia de Itamar Assumpção. Antes Tiago Araripe já trazia compactos em sua história, sendo que o primeiro, de 1974, foi dividido com Tom Zé.

Nesse novo trabalho Tiago mostra que sua pena de poeta continua afinada. Logo nos primeiros minutos do disco apresenta versos espertos: "Eu quero saber / A quantas anda você / Se está zen ou deprê / Up to date ou demodée". Segue uma coleção de canções livres e surpresas poéticas. Como em Canção do silêncio: "A menor distância / Entre a palavra e o silêncio / Só o pensamento pode percorrer / Só o pensamento". Ou em No centro do furacão: "Meu coração / Tem semelhança com as bicicletas / Se equilibra quando estou em movimento / Pois é tranquilo / O centro do furacão". Tiago assina parcerias com Paulo Costa e Zeca Baleiro, que também participa da faixa-título.

Assim como São Paulo, Recife - onde vive - também é polo de vanguarda (que o Brasil ainda precisa descobrir). A música de Tiago Araripe junta influências de ritmos populares de sua Crato natal com o ambiente moderno pernambucano da década de 70 e com o cenário artístico paulistano. A Lira de Tiago Araripe é criativa e particular, desde sua música até seu canto. A mistura desse Baião de nós não tem receitas, é preciso provar com ouvidos abertos.




- - Confira a postagem original AQUI. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Paredes da memória II

Mais um texto que ajuda a melhor visualizar os quadros pendurados "nas paredes da memória", como já dizia Belchior em Como nossos pais.

No caso, o artigo Não era um teatro qualquer. Publicado na revista Interferência, fala da experiência vivida pelo Lira Paulistana no cenário cultural de São Paulo. Com depoimentos de protagonistas da história do Lira, como Riba de Castro, Luiz Tatit, Ná Ozzetti e eu.

Vale uma olhada.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Guia da Vila entrevista Riba de Castro sobre 30 anos do Lira Paulistana

.Entrevista.
Lira ganha livro e filme


O teatro Lira Paulistana, que funcionou entre os anos de 1979 e 1985 na Rua Teodoro Sampaio, em frente à praça Benedito Calixto, teve uma importância muito grande para a região da Vila Madalena. O Lira também lançou muita gente, influenciou no comportamento e até na redemocratização do país. Foram breves seis anos de vida cultural ativa que marcaram a cidade. No próximo mês de outubro está prevista uma comemoração aos 30 anos de fundação do Lira, como era carinhosamente chamado. Um dos sócios, o cineasta Riba de Castro, cearense de Quixeramobim, e que reside na Espanha há um bom tempo, reuniu todo o material que juntou daquele tempo, escreveu um livro e finalizou a captação de imagens do documentário que será lançado na ocasião. Nesta conversa, Riba conta como o Lira surgiu, quem passou por lá e o que vem por aí.

Quando você chegou à Vila Madalena?
Cheguei aqui em 1974. E aos 20 anos cheguei em São Paulo. A Vila Madalena foi a minha primeira morada aqui. Morei na Mateus Grou.

Qual é a sua formação? E como foi a sua vida por aqui?
Sou autodidata em tudo. Comecei muito cedo a fazer as coisas que eu queria fazer. Aos 15 já estava expondo. Aos 17, desenhava. Fui durante muito tempo desenhista gráfico. Vim para São Paulo traçar meu próprio caminho. Fiz amizades com o pessoal das artes gráficas e logo depois já fazia produção, shows, cartazes e cenários de eventos. Foi nessa época que conheci gente como Tiago Araripe, Papa-Poluição, José Penna, Walter Franco, Odair Cabeça-de-Poeta, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, Paçoca e outros. Aos 20 anos eu já estava totalmente envolvido com o cenário cultural da cidade.

Como era a Vila Madalena?
Um lugar de “estrangeiros”. Um pessoal criativo. Aqui sempre teve um clima interessante. Era um lugar de estudantes e professores da USP, músicos e cineastas e produtoras.

E como surgiu o Lira Paulistana?
Muitos artistas moravam na Vila e o público também era do bairro. No final dos anos 1970, a ditadura estava forte. Os teatros convencionais não recebiam os novos artistas. O Lira foi inaugurado em 25 de outubro de 1979 com a peça de teatro “Fogo Paulista”. Era um musical relacionado com o programa Pró-Álcool. A ideia da peça era uma crítica à crise de álcool. Tinha álcool para os carros, faltava álcool para se beber. Foi uma criação coletiva e dirigido por Mário Mazeti. Depois veio “Tambores da Noite”, de Bernold Brecht.

Quem teve a ideia de criar o Lira?
No começo não estávamos todos juntos. Nos primeiros seis meses, quem tocou foi o Wilson e o Valdir Galeano. Eles já trabalhavam com teatro em São Paulo. Já tinham a ideia de abrir um espaço. Aí acharam o porão da praça Benedito Calixto e surgiu o Lira Paulistana. Seis meses depois o Valdir se apaixonou e foi embora e o Wilson ficou só. Nesse momento entraram o Chico e o Fernando. Depois eu cheguei.

Como era a programação?
Tinha teatro e depois surgiu a música. O Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia é que inauguraram essa fase no Lira. E com ele, lançamos nosso primeiro long play com o selo do Lira. Tinha cinema também, que era o que me trouxe. Eu participava de um projeto na zona leste da cidade. Na época, o cineasta João Batista de Andrade tinha lançado o filme “O homem que virou suco”. Foi exibido no circuito comercial em dezembro e pouca gente viu. Dois meses depois, o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim (Alemanha) e eu tinha uma cópia desse filme dos tempos do centro cultural lá da zona leste. Nessa época eu fazia comunicação visual no Curso Anglo Vestibulares. Um amigo meu, o cineasta Ivo Branco, me visitou um dia e contei para ele que tinha uma cópia do “Homem...”. Ele sugeriu que fôssemos ao Lira que tinha uma janela na programação. Eles toparam fazer uma semana com o filme e foi muito legal. Foi a primeira vez no Lira que o público fez fila que dobrava a Rua Lisboa. Até então o Lira tinha teatro, música no meio da semana e filmes. A partir daí, ficamos mais próximos.

Quem se apresentou no Lira?
O Paçoca, Gereba, Tetê Espíndola e Almir Sater começaram a fazer
shows no Lira. Era uma mescla de estilos musicais, inclusive instrumentais.

O Jornal do Lira, como surgiu?
O Fernando Alexandre era editor da Gazeta de Pinheiros e sempre divulgava a nossa programação. Ele tinha um projeto de fazer um jornal cultural na cidade. Nesse momento, começamos a conversar sobre fazer um jornal cultural. Mas antes era preciso de uma infraestrutura mínima. Alugamos um sobrado na praça Benedito Calixto. Eu e o Fernando saímos dos nossos trabalhos e montamos uma gráfica para atender ao teatro e ao jornal. Cartazes, filipetas e outros trabalhos que foram surgindo. Aí o Lira passou a ser um centro de artes e editora. Continuei fazendo cenários para o Lira. Depois de quase um ano, o jornal saiu com 30 mil exemplares, com venda em banca.

E quem escrevia no Jornal do Lira?
Não tínhamos dinheiro. Formamos uma cooperativa de jornalistas. Muita gente trabalhou lá: Paulo Caruso, Apoenam Rodrigues, Gabriel Prioli (hoje diretor da TV Cultura) e outros que toparam participar. Tinha de tudo. Amigos participavam do jornal.

Qual era a linha do jornal?
Mais variedades. Foi o primeiro jornal na cidade a dar toda a programação cultural. Desde a programação de cineclubes ou dicas de onde ir para tomar uma canjinha na zona norte. Onde comprar flores. Tinha comida, diversão e arte. Cobria o circuito normal e o alternativo. E com um detalhe, com dicas de qual ônibus você devia usar e coisas assim. Tinha livrarias, bares, gafieiras e outros endereços. Fomos os primeiros a fazer isso. Seis meses depois do fechamento, surgiu a Veja São Paulo. Era semanal e formato tablóide. Foram 14 números. Fechou por falta de dinheiro.

Como surgiram os shows na Praça Benedito Calixto?
Fomos vender anúncio para a agência de publicidade Thompson. Eles não queriam anunciar no jornal mas topavam patrocinar uma série de shows com os artistas do Lira. Estávamos no vermelho. Juntamos a redação e viramos produtores. O primeiro show ao ar livre que aconteceu na Praça Benedito Calixto aconteceu no dia 25 de janeiro de 1981, no aniversário de São Paulo. Quem se apresentou: Jorge Mautner, Premeditando o Breque, Grupo Rumo e Tetê Espíndola. O jornal deixou muito prestigio ao Lira. Tinha 15 mil pessoas na praça. Depois fizemos outros shows pela cidade e fora daqui também.

Os projetos como o Virada Paulista e o Boca no Trombone, como surgiram?
O Virada Paulista foi um projeto que tinha 42 grupos de música e mais 500 músicos envolvidos. Muita gente que nunca tinha se apresentado. Língua de Trapo, Ultraje a Rigor, Grupo D’Alma, vários grupos surgiram. No ano seguinte criamos o Boca no Trombone com outros grupos, entre eles Os Titãs, Vânia Bastos e outros. O pessoal nos procurava. Nós alugávamos o teatro e também produzíamos alguns espetáculos.

Por que o Lira terminou?
Era um casamento de cinco. E como toda relação, se desgatou. O Boca no Trombone foi “exportado” para Curitiba. O Lira ficou pequeno para os artistas grandes e não tínhamos capacidade para receber um público desse tamanho. E nessa ocasião surgiu o Sesc Pompeia, que tinha um espaço maior para comportar esses shows.

Qual o grande mérito que o Lira deixou?
O Lira sempre estava na mídia. Tinha música, teatro, cinema, exposição. Todo dia tinha uma atividade. O público selecionava o trabalho que a gente programava. O Kid Vinil tocou a primeira vez lá.

Até que ponto a situação política do Brasil influenciou o Lira?
Um dos motivos do Lira ter dado certo era que o país atravessava um período de ostracismo por conta da ditadura. O pessoal que surgiu no Lira já existiam. O Lira foi o veículo que deu o espaço. Eram muitas pessoas. O Lira deixou um espírito boêmio e artístico para a cidade.

Fale sobre o documentário do Lira? Como surgiu?
Em setembro de 2008 resolvi escrever um livro sobre o Lira. A morte do Itamar Assumpção deu início ao projeto. Lembrei de muitas coisas. Nesses anos que estou na Espanha, sempre que eu vinha para cá, um estudante me achava e perguntava sobre o Lira. Eu tinha experiência em cinema e pensei “essa história precisa ser contada”. Eu tinha muito material da época, cartazes, jornais. Com o livro pronto, resolvi fazer o documentário. Conversando com um amigo, ele topou produzir o filme. Saí da TV e estou só trabalhando no documentário. E quero fazer outras coisas, mas ainda é segredo.

Será em película ou digital?
Filmei em HD. Será digital. Entrevistei 65 pessoas. Os fundadores, inclusive eu e os artistas que passaram por lá.

A receptividade foi boa?
O pessoal falou com alegria, com satisfação, sem saudosismo. Naquele momento, o Lira foi muito importante para o país. Surgiram outros partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores e o Partido Verde.

Vai ser exibido em circuito cultural?
Acho que vai ser exibido em circuito comercial e cultural.

Como será o lançamento?
Quero fazer um grande lançamento. Ainda não definimos o local. Gostaria de fazer um show na praça Benedito Calixto. Ideias não faltam. Ainda estamos buscando recursos.

www.piratacreative.com

(Guia da Vila, maio de 2009)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Um garoto que amava os Beatles e as bandas cabaçais. Por Wilson Bentos.

Tiago Araripe e Zeca Baleiro, em cena do lançamento de Cabelos de Sansão em Fortaleza (22/9/2008).


(Foto: Genilson Lima)


Um dia, no final dos anos 80, o cantor e compositor Zeca Baleiro estava espiando as novidades de uma loja de discos no Rio de Janeiro, quando levou um susto: um velho LP, com um cabeludo nu cavalgando um leão na capa, revelava uma sonoridade inovadora, a fusão de ritmos nordestinos com as experimentações do movimento que ficou conhecido como Lira Paulistana, que tinha nomes como Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Premeditando o Breque e Tetê Espíndola. O tal cabeludo era um cearense chamado Tiago Araripe. Foi amor à primeira vista. Ou melhor: à primeira audição.

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De lá para cá, Zeca não descansou enquanto não encontrou Araripe pessoalmente. Aproveitando a oportunidade de um show em Fortaleza, pediu à produção que localizasse Tiago. O homem que apareceu à sua frente era um respeitável senhor de óculos, muito diferente do cabeludo pelado da capa do disco. Mas a voz doce e suave, que um dia Augusto de Campos comparou ao timbre dos trovadores provençais, continuava a mesma. E o talento de compositor também. Zeca Baleiro e Tiago Araripe tornaram-se parceiros, e tempos depois o músico maranhense resolveu relançar Cabelos de Sansão, o disco que tanto o tinha impressionado.

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“É um disco importantíssimo, embora pouco conhecido”, declarou Zeca em entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza, e que chega às lojas em 2008 pelo selo Saravá Discos, criado por Baleiro para resgatar trabalhos pouco divulgados e que normalmente não se enquadram nos projetos comerciais das grandes gravadoras.

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O relançamento coincide com a série de homenagens aos 50 anos do movimento de poesia concreta e a um de seus expoentes, o poeta e ensaísta Décio Pignatari, um dos parceiros de Tiago, juntamente com os outros líderes do movimento, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. O disco faz desfilar personalidades como Itamar Assunção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Oswaldinho do Acordeon e o lendário Tony Ozanah (dos Beat Boys, banda que acompanhou Caetano Veloso em Alegria, Alegria no Festival da Record).

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Augusto de Campos, aliás, criou uma versão da música Little Wing, de Jimi Hendrix, especialmente para o disco. A capa é do famoso designer Alexandre Wollner e, fiel ao conteúdo experimental e vanguardista do disco, traz uma foto do cosmos captada em telescópio, contribuição do físico Augusto Damineli.

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No arranjo das músicas o produtor Wilson Souto Jr., idealizador do Lira Paulistana, fez tudo o que pôde para que as idéias vanguardistas do disco fossem executadas à risca. Foram mais de 300 horas de estúdio, que reúnem formações inusitadas como um quarteto de cordas acompanhado por tabla indiana, instrumentos andinos com sanfona nordestina e toda a parafernália do rock eletrônico. Além de uma “participação” dos Beatles, numa colagem sonora de Strawberry Fields Forever.

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UM GAROTO QUE AMAVA OS BEATLES E AS BANDAS CABAÇAIS


Irmãos Aniceto (foto: Pachelly Jamacaru)


Apesar das influências pop que o permeiam, Cabelos de Sansão não esconde a origem nordestina de Tiago. Por trás de todo o experimentalismo com que ousou desafiar o som predominantemente conformista dos anos 80 e de ainda trazer ecos do Tropicalismo, o disco revela um pouco da influência da sonoridade de tradições populares da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, dos reisados e do maneiro-pau.

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Para quem sabe da história, em determinados momentos é possível até mesmo visualizar o menino Tiago na cidade cearense do Crato, onde nasceu, de gravador em punho, registrando o som dos pífanos, triângulos e zabumbas desses grupos a pedido do avô folclorista, que muito o influenciou. Ao mesmo tempo, seu outro avô mantinha, em sua fazenda no sertão do Piauí, um baú cheio de tesouros: discos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês. O menino Tiago, tímido e curioso, vivia por ali, bebendo daqueles sons.

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Até que um dia, repentinamente, embriagou-se. Um vizinho do Crato, cujo pai tinha uma loja de discos, apareceu com um disco chamado Beatlemania. “Aquilo abriu para mim um novo horizonte de possibilidades musicais” - revela Tiago, que trocou o velho gravador de pilhas do avô por um violão e começou a compor suas próprias canções.

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Mais tarde, já como estudante de arquitetura no Recife, deparou-se com o Tropicalismo e com o som de outros vanguardistas como Frank Zappa e Mothers of Invention e Jimi Hendrix. E misturou tudo com os livros de ficção científica de autores como Kurt Vonnegut Jr. e Isaac Asimov. Isso, segundo ele, o levou a ser conhecido na cidade como um autor de “músicas estranhas” e a formar um grupo chamado “Nuvem 33”, no qual figuravam, além dos músicos, também artistas plásticos e atores.

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Um grupo tão performático estreou, como não poderia deixar de ser, numa peça de teatro. Armação, encenada no palco do Teatro do Parque do Recife, alternava o teatro com a música exótica do Nuvem 33. Embalado, Tiago Araripe compôs as doze músicas do espetáculo em uma semana. E logo depois voltou ao mesmo teatro com o grupo para o espetáculo de estréia da banda, já batizada. Poderia ser um show de música como outro qualquer, mas Tiago e seus amigos, inquietos, fizeram questão de incluir performances como a de um cartunista desenhando ao vivo “comentários” sobre o que ocorria no espetáculo, sendo as imagens projetadas num telão no fundo do palco.

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CRUZANDO A IPIRANGA COM A AVENIDA SÃO JOÃO


Àquela altura a cidade do Recife já era pequena demais para os projetos de Tiago Araripe. Ele ouvira falar de uma certa escola de música dirigida pelo baiano Tom Zé, em São Paulo, e resolveu arribar. Chegou atrasado. Tom Zé já tinha fechado a escola, mas resolveu apostar no jovem cearense de cabelos longos. “Ele tem a capacidade de descobrir o que cada pessoa tem de melhor e de revelar isso”, lembra Tiago que, num dos shows de Tom Zé, surpreendia a si mesmo fazendo um solo de gaita mesmo sem muita intimidade com o instrumento.

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Por intermédio de Tom Zé, Tiago conheceu Pignatari e os irmãos Campos. E foi apresentado à efervescente vanguarda paulistana dos anos 70 e 80. Com Pignatari, compôs Teu Coração Bate, o Meu Apanha (gravada no compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe, de 1974), e Drácula, poema convertido num tango futurista pelas mãos do músico cearense e apresentado no Festival Abertura da Rede Globo, de 75. Drácula também virou um videoclipe gravado nos porões do Teatro Municipal de São Paulo e estrelado por Tiago em rede nacional no Fantástico. De Augusto de Campos, ganhou “de presente” a versão de Little Wing que enfeita Cabelos de Sansão.

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No filme Sargento Getúlio, vencedor do Festival de Gramado em 1983, a voz de Tiago Araripe flutua sobre um desempenho inesquecível de Lima Duarte, na trilha sonora criada pelo grupo Papa Poluição, fundado por Tiago e outros músicos nordestinos em 1975. Aliás, o “Papa” ainda tem seus fãs fidelíssimos, que mantêm uma comunidade no Orkut. O grupo, que misturava rock com ritmos nordestinos, gravou pequenos discos, fez shows nos mais diversos espaços de São Paulo e excursionou pelo Nordeste.

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O CD Cabelos de Sansão, o mais novo relançamento Saravá Discos, é o resultado do trabalho de Tiago Araripe pós-Papa Poluição, quando ele iniciou uma fase solo e mais experimental. É um disco histórico porque é o segundo lançado pelo selo Lira Paulistana, logo depois de Beleléu, de Itamar Assunção. Que a música de Tiago Araripe possa enfim ser ouvida pelo público que merece ter.

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Wilson Bentos

Jornalista e publicitário

(O texto acima foi gentilmente escrito para o material de divulgação de Cabelos de Sansão.)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cabelos de Sansão, por Nelson Augusto









Foto: Clarissa Araripe

Nelson Augusto em O Disco da Semana, da Rádio Universitária FM

Tiago Araripe lança Cabelos de Sansão em CD

Na Lira Paulistana, movimento lítero-musical que revelou para a Música Popular Brasileira estrelas do quilate de Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé e o Grupo Rumo, só para citar algumas, também brilhou o cearense do Crato, Tiago Araripe.

Idealizado primeiramente como teatro no final da década de 70, o Lira Paulistana transformou-se em gravadora, editora, produtora, loja de discos e livros e divulgou também durante os anos 80 os trabalhos de artistas da então chamada Vanguarda Paulista.

Dessa troupe participavam, entre outros o Grupo Rumo, Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque (Premê), Língua de Trapo, Ná Ozzetti, Susana Salles, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, além do próprio Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, os quais fizeram seus primeiros shows em Sampa, no então Teatro Lira Paulistana.

O álbum Cabelos de Sansão foi lançado em 1982 pelo selo Lira Paulistana, que já havia disponibilizado o então elepê de estréia do Nego Dito Beleléu, Itamar Assumpção. No disco Cabelos de Sansão, Tiago Araripe contou com o auxílio luxuoso de mais de trinta artistas da música como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Turcão, Passoca, Dino Vicente (teclados), Mané Silveira (sax), Cláudio Faria (trumpete), Oswaldinho do Acordeon, entre outros.

Acompanho o trabalho dos cantores, compositores e músicos cearenses desde minha adolescência. Se fosse eleger os três discos mais emblemáticos dessa geração que se lançou, escolheria o álbum Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, o qual ficou conhecido como o Pessoal do Ceará de Rodger Rogério, o Alucinação de Belchior, ambos da década de 70, e o Cabelos de Sansão de 1982 do Tiago Araripe.

O LP Pessoal do Ceará com sua capa antológica trazendo uma foto do artesanato de renda de bilro e no encarte fotos, textos sobre os artistas da música envolvidos no projeto e as letras de todas as canções. Já o Alucinação, com suas mensagens contestatórias, estampava em suas artes gráficas internas uma nota de dólar com mensagens criativas sobre o tema. O álbum Cabelos de Sansão, a partir da lendária capa, mostrando uma foto de Tiago Araripe montado num leão numa colagem com uma imagem do espaço sideral, também no encarte e na contracapa revelava criação artística revolucionária para os lançamentos da época.

Esses três discos até hoje, na minha concepção, soam atualíssimos pois trazem uma proposta inovadora tanto de música, quanto das mensagens das letras e suas artes gráficas. E nesse último item, vale salientar que os recursos gráficos da época eram muito precários no que se refere às modernas técnicas dos computadores de hoje. Creio que, se fossem disponibilizados hoje, causariam o mesmo impacto da época do lançamento original.

Nelson Augusto
www.nelsons.com.br

Com o texto acima, o radialista Nelson Augusto abriu a noite de lançamento de Cabelos de Sansão em Fortaleza, no dia 22 de setembro de 2008.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Com a palavra, o produtor do vinil de Cabelos...

Wilson Souto Junior, em foto para a contracapa de Cabelos de Sansão.

“Os criminosos sempre voltam ao local do crime” (Tiago Araripe em Cine Cassino).

Quando eu soube da vontade de a Saravá Discos reeditar o LP Cabelos de Sansão em CD, do muito querido Tiago Araripe, depois de longos 26 anos, logo a melodia-refrão desta canção me veio à memória...

Veio também a imagem do Itamar, o Assumpção, entrando no camarim-escritório do Lira Paulistana, dizendo : "Já sei quem será o segundo lançamento do selo, já sei ... vocês têm que escutar o trabalho do Tiago... você tem que produzir o Tiago Araripe". E como era de costume do Negão, não parou mais, até que marquei um encontro com o Tiago e conheci seu trabalho. Impressionou-me. Eram músicas e letras muito próprias, sem tempo ou espaço definido; rock e poesia concreta, do agreste e urbana. Um lindo desafio...

Daí para o estúdio, foi um tempo curto, ajudado pelos músicos que participaram do trabalho e nada cobraram... as despesas de estúdio, capas , fábricas... Bem, essas, nossas boas bilheterias no teatro cobriram.

Adoro o resultado da produção, sua ousadia e modernidade, a voz doce do Araripe e sua suavidade espacial.

A decisão de passar Cabelos de Sansão ao Zeca Baleiro para reeditá-lo pelo seu selo, tendo eu mesmo uma gravadora ativa - Atração Fonográfica -, veio no momento em que vi seu carinho por esse trabalho, como se em sua companhia, depois de tantas estradas que passei, voltasse com emoção ao local do crime .

P.S.: Tiago, continuo com saudade de te ouvir cantar.

Wilson Souto Junior

(O texto acima foi gentilmente escrito para o material de divulgação de Cabelos de Sansão.)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Diário do Nordeste: Fênix sonora

É o relançamento do ano. Não só por nossas plagas. ´Cabelos de Sansão´, de Tiago Araripe, 1982, é uma jóia reeditada pelo Saravá Discos, de Zeca Baleiro, que participa do seu lançamento em CD hoje, no Sesc Senac Iracema

Havia um cearense na Lira Paulistana, aquele movimento que revelou ao mundo outros talentos não estritamente paulistanos como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos. Era Tiago Araripe, autor do segundo álbum do “movimento”, logo depois de Itamar estrear em “Beleléu”. Responsável pelo resgate de obras do capixaba Sérgio Sampaio e ainda dos maranhenses Antônio Vieira e Lopes Bogéa, além da transcrição em disco de poemas de Hilda Hilst, Zeca Baleiro e seu Saravá Discos voltam a atacar, relançando “Cabelos de Sansão”, um álbum visionário que poderia ter sacudido a canção brasileira, em plena ebulição criativa pelos anos de liberdade que se afirmavam. Faltou pouco. Uma pena. Triste mesmo. Mas o estranho lirismo de Tiago Araripe, mesclando Ednardo e Lira Paulistana, está de volta, isso também interessa. Ainda pode dar uma dimensão do universo que ele ousou expor naquele 1982 onde todo mundo só queria saber do Araken, o personagem global da Copa da Espanha...

(Diário do Nordeste, Fortaleza, 22 de setembro de 2008)

Veja o texto completo, inclusive com o comentário de cada faixa do disco, clicando aqui.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Realumbramento (De um leitor de Porto Alegre)

Imagem extraída do encarte do CD Cabelos de Sansão, criação da designer gráfica Andrea Pedro.

Primeiro eu fui lendo o texto do Zeca do encarte do Cabelos de Sansão e tendo um flashback f...

Eu tinha lá meus 14 anos (sou de 68), e, igualmente interiorano (de uma cidade próxima a Porto Alegre), igualmente vinha pra capital fuçar discos que eu escolhia pela capa ou pela estranheza do nome do sujeito. E, saindo da aula de teoria na escola de música da sinfônica daqui, achei o LP, gostei da capa, do nome do cara, peguei o encarte e vi ali Itamar, Tetê, Vânia, Mané, a turma toda. E isso era mais, muito mais do que o suficiente pra escolher que seria esse o único disco que minha mesada ia poder pagar naquela quinzena. Afinal, o Clara Crocodilo tinha acabado de mudar a minha vida pra sempre e qualquer coisa remotamente relacionada à ele me interessava.

Aí, em Gravataí, como sempre acontecia com discos novos e especiais, o LP se espalhou imediatamente pela turma. Na nossa rede pré-internet e baixamentos, todos copiavam em K7 para todos cada item novo da nossa súmula mínima: o Amoroso do João Gilberto, Pulsacion do Piazzolla, Clara Crocodilo, Grupo Um, Tetê na cachoeira, os gaúchos Musical Saracura e Almôndegas e Quintal de Clorofila, o primeiro da Eliete Negreiros, o primeiro do Premê, os primeiros Itamares...

As mesmas quatro imediatas pérolas que saltaram aos ouvidos do Zeca, anos depois, saltaram aos nossos também naquele instante. Pra mim, então, a curiosidade era ainda maior: nunca tinha ouvido nem Jimi Hendrix nem Strawberry Fields Forever. Pra mim aquilo era tudo só novidade (anos depois ouvi Little Wing e fiquei espantado como era MENOS interessante no original). Era uma revelação sobre como se podia ser tão absolutamente original sem usar as dissonâncias e atonalismos e serialismos do Arrigo nem as polirritmias do Itamar. E ainda trazer uma sonoridade curiosamente regional, tão distante pra quem nunca tinha ouvido uma ciranda, um maracatu. Então dava pra ser daquela turma e ser relativamente simples? Aquilo foi uma luz que explodiu na minha angustiada cabeça de já compositor, pensando o que fazer depois do Arrigo.

Hoje, escutando o CD, parado num estacionamento, dentro do carro, no meio de um fog caprichadamente portoalegrense, meus olhos se encheram d´água muitas e muitas vezes. Lágrimas de reencontro, de alumbramento, de surpresa com um disco que não envelheceu um minuto (OK, o timbre da caixa da bateria, mas é só). Até me deu de novo aquela inveja boooooooooa de Redemoinho, de como eu nao fiz essa música (e não fiz aos 14 e não fiz até hoje, com 39). Alumbramento de remeter aos caras que me fundaram esteticamente, os Irmãos Augustos (como a gente dizia, incluindo o Pignatari), o Lira Paulistana, as tais "vanguardas paulistas" (talvez por isso até hoje me sinta em casa em São Paulo, com ou sem meus amigos músicos, e completamente ET no Rio de Janeiro).

Fazia muito tempo que eu não tinha essa sensação de voltar pra casa (olha aí os olhos cheios d´água de novo! - toca, agora no computador da firma, Fios da Light). E de a casa seguir ali, intacta, sem nenhum sinal de envelhecimento, sem nostalgia.

Te devo essa, seu Araripe.

Arthur de Faria

http://www.myspace.com/seuconjunto
http://www.seuconjunto.com.br/

quarta-feira, 12 de março de 2008

O revisor - 2

Suzana Salles e Ná Ozzetti me indicaram a professora de canto de ambas, Cláudia Mocchi. Durante um ano ela me deu aulas de técnicas vocais no estúdio anexo à sua casa, no bairro de Moema. Mulher notável. Morou na Itália, onde foi soprano no Scala de Milão e teve bem sucedida carreira interrompida por motivos que recheariam um bom romance. Aliás, ela tinha planos de escrever um livro sobre a própria vida. Espero que tenha escrito.

Na época Cláudia Mocchi também ensinava a cantoras como Virgínia Rosa (intérprete da bela canção A flor e a quem fui apresentado quando ela começou a fazer vocais, com Suzana, na Banda Isca de Polícia do Itamar Assumpção) e a cearense Mona Gadelha (que conheci após uma apresentação do Papa Poluição em Fortaleza e reencontrei anos depois em São Paulo).

Entre os revisores da Abril trabalhei também com Gabriella Santini, uma pessoa admirável. Ficamos amigos, e não raro ela estava nos meus shows, com o bom astral que lhe era peculiar. Tinha uma bonita voz, e a convidei para os vocais do disco Cabelos de Sansão. Lembro da emoção da Gabi ao cantar ao lado de intérpretes como Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, Vânia Bastos, Passoca... Descanse em paz, Gabriella.

Saí da Editora Abril quando o Chico César estava entrando. Como ter dois revisores músicos logo virou notícia na empresa, fomos imediatamente apresentados. Ainda devo ter, em algum lugar, a fita cassete que o Chico me deu na época. Reúne algumas canções demo que depois seriam gravadas e se tornariam conhecidas no Brasil inteiro, como Béradêro e You Yuri.

Aos revisores, aquele abraço.

Tiago Araripe

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Vila Madalena 2

O Papa Poluição (foto) é uma espécie de precursor da Feira da Vila Madalena, que já tem 30 edições anuais. Um dia, no período de São João, colocamos nossos aparelhos e instrumentos na calçada e tocamos para a vizinhança. Era o projeto Rua de Lazer. Juntou gente. Entre as pessoas presentes, um argentino na época casado com a Alzira Espíndola. Foi ele o empresário que viria a realizar a primeira edição da famosa Feira.

Depois o próprio Penna, como presidente do
Centro Cultural da Vila Madalena, iria contribuir decisivamente para manter ativo o evento em cujos palcos já passaram o Papa Poluição – e mais músicos do que o somatório de todas as bandas cover dos Beatles do Brasil inteiro. Além disso fui jurado, ao lado de Paulo Miklos dos Titãs e outros, do Festival de Música da Vila que deu o primeiro prêmio a Itamar Assumpção pela composição Nego Dito. Em algum lugar do futuro, o Lira Paulistana lançaria o primeiro disco do selo: o LP Beleléu, do Itamar.)

A Vila reunia os mais diversos tipos urbanos. Um deles era assíduo freqüentador das páginas de polícia dos jornais, um sujeito intimidador que atendia pela alcunha de Lanchão. Certa madrugada, caminhando pelas ruas do bairro, me deparo na mesma calçada com o dito cujo. De cara ele implicou com meu cabelo comprido e já queria me encher de porrada no ato. Diante da minha nítida desvantagem física na possibilidade de um corpo-a-corpo, argumentei que era morador da Vila e músico. Desconfiado, ele me perguntou se eu conhecia o Gereba e o Capenga – integrantes do grupo baiano Bendengó. Claro que sim, respondi. São meus amigos, moram na rua Fidalga. Foi como pronunciar alguma senha secreta. Surpreendentemente, Lanchão me pediu desculpas e me deixou passar. Fui salvo pelo gongo. E ele nunca mais me importunou.

Tiago Araripe

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A volta de Cabelos de Sansão

Paulicéia, anos 80. Um teatrinho em frente à Praça Benedito Calixto torna-se ponto de encontro da chamada vanguada paulistana. Ali se apresentam Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Premeditando o Breque (hoje Premê), Passoca, Vânia Bastos, Língua de Trapo, Papa Poluição e tantos outros nomes. Ali dou os primeiros passos solo, depois de cinco anos integrando o Papa Poluição. Tenho como banda de apoio o Sexo dos Anjos (Luiz Brasil, Cid Campos, Felipe Avila e Xico Carlos). Naturalmente, o primeiro palco é o Lira Paulistana.

O teatrinho integra um centro de produções independentes que inclui um selo musical, uma editora gráfica e nem-lembro-mais-o-quê. À frente, Wilson Souto Jr., a quem chamávamos carinhosamente de Gordo. O Lira Paulistana havia produzido seu primeiro disco, o ótimo vinil Beleléu, do Itamar Assumpção. Convenci o Wilson de que o meu LP seria o próximo.

Um ano de arranjos, ensaios, arregimentação de músicos, concepção/produção da capa e mais de 300 horas de estúdio depois, eis que é lançado Cabelos de Sansão. Uma proposta ousada para os padrões independentes (sempre achei melhor o termo alternativo) da época: 33 músicos, cada faixa com conceito distinto - em respeito à idéia da composição, master feita nos Estados Unidos, capa com a assinatura do designer gráfico Alexandre Wollner, participações especialíssimas de talentos como Itamar, Tetê, Vânia Bastos, Passoca, Oswaldinho do Acordeon, Tony Ozanah... E um presente: a versão exclusiva feita por Augusto de Campos para a belíssima Little Wing (Asa Linda), de Jimi Hendrix (eu costumava colecionar gravações dessa canção).

Mais de 25 anos depois, graças a Zeca Baleiro e Rossana Decelso, que conduzem o selo Saravá Discos, Cabelos de Sansão voltará à tona em CD histórico remasterizado. O objetivo deste blog é dar vez à trajetória do disco, que pode abrir espaço para outros vôos. Com novas asas.

Aguarde. E nos falemos.


Tiago Araripe