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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Realumbramento (De um leitor de Porto Alegre)

Imagem extraída do encarte do CD Cabelos de Sansão, criação da designer gráfica Andrea Pedro.

Primeiro eu fui lendo o texto do Zeca do encarte do Cabelos de Sansão e tendo um flashback f...

Eu tinha lá meus 14 anos (sou de 68), e, igualmente interiorano (de uma cidade próxima a Porto Alegre), igualmente vinha pra capital fuçar discos que eu escolhia pela capa ou pela estranheza do nome do sujeito. E, saindo da aula de teoria na escola de música da sinfônica daqui, achei o LP, gostei da capa, do nome do cara, peguei o encarte e vi ali Itamar, Tetê, Vânia, Mané, a turma toda. E isso era mais, muito mais do que o suficiente pra escolher que seria esse o único disco que minha mesada ia poder pagar naquela quinzena. Afinal, o Clara Crocodilo tinha acabado de mudar a minha vida pra sempre e qualquer coisa remotamente relacionada à ele me interessava.

Aí, em Gravataí, como sempre acontecia com discos novos e especiais, o LP se espalhou imediatamente pela turma. Na nossa rede pré-internet e baixamentos, todos copiavam em K7 para todos cada item novo da nossa súmula mínima: o Amoroso do João Gilberto, Pulsacion do Piazzolla, Clara Crocodilo, Grupo Um, Tetê na cachoeira, os gaúchos Musical Saracura e Almôndegas e Quintal de Clorofila, o primeiro da Eliete Negreiros, o primeiro do Premê, os primeiros Itamares...

As mesmas quatro imediatas pérolas que saltaram aos ouvidos do Zeca, anos depois, saltaram aos nossos também naquele instante. Pra mim, então, a curiosidade era ainda maior: nunca tinha ouvido nem Jimi Hendrix nem Strawberry Fields Forever. Pra mim aquilo era tudo só novidade (anos depois ouvi Little Wing e fiquei espantado como era MENOS interessante no original). Era uma revelação sobre como se podia ser tão absolutamente original sem usar as dissonâncias e atonalismos e serialismos do Arrigo nem as polirritmias do Itamar. E ainda trazer uma sonoridade curiosamente regional, tão distante pra quem nunca tinha ouvido uma ciranda, um maracatu. Então dava pra ser daquela turma e ser relativamente simples? Aquilo foi uma luz que explodiu na minha angustiada cabeça de já compositor, pensando o que fazer depois do Arrigo.

Hoje, escutando o CD, parado num estacionamento, dentro do carro, no meio de um fog caprichadamente portoalegrense, meus olhos se encheram d´água muitas e muitas vezes. Lágrimas de reencontro, de alumbramento, de surpresa com um disco que não envelheceu um minuto (OK, o timbre da caixa da bateria, mas é só). Até me deu de novo aquela inveja boooooooooa de Redemoinho, de como eu nao fiz essa música (e não fiz aos 14 e não fiz até hoje, com 39). Alumbramento de remeter aos caras que me fundaram esteticamente, os Irmãos Augustos (como a gente dizia, incluindo o Pignatari), o Lira Paulistana, as tais "vanguardas paulistas" (talvez por isso até hoje me sinta em casa em São Paulo, com ou sem meus amigos músicos, e completamente ET no Rio de Janeiro).

Fazia muito tempo que eu não tinha essa sensação de voltar pra casa (olha aí os olhos cheios d´água de novo! - toca, agora no computador da firma, Fios da Light). E de a casa seguir ali, intacta, sem nenhum sinal de envelhecimento, sem nostalgia.

Te devo essa, seu Araripe.

Arthur de Faria

http://www.myspace.com/seuconjunto
http://www.seuconjunto.com.br/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Pizza não é cultura

Uma das últimas incursões do Papa Poluição em São Paulo foi mais que um show: foi uma espécie de movimento cultural para salvar o Teatro 13 de Maio. Afinal aquele era um dos principais espaços de música na cidade. Foi lá que assisti shows como o de lançamento do Moto Perpétuo, grupo que praticamente lançou Guilherme Arantes, e da banda de rock Joelho de Porco, integrada por Tico Terpins (anos depois, no estúdio Áudio Patrulha do Tico e do Zé Rodrix, eu gravaria Cabelos de Sansão).

Pois bem. O Teatro 13 de Maio estava prestes a se tornar uma pizzaria, e precisávamos fazer algo. Conseguimos algumas datas na pauta do teatro ameaçado. E então começamos a mobilizar músicos e poetas para tentar impedir o fechamento daquele espaço. Acorreram artistas como Jorge Mautner e Eliete Negreiros, que se alternaram ao Papa Poluição nas apresentações musicais. Poetas organizaram uma exposição de livros no saguão do teatro. Disponibilizamos diversos tubos de spay para o público pichar as paredes da casa (uma das frases anônimas que resultou disso tudo é a que dá título a este post).

Conseguimos aumentar a sobrevida do Teatro 13 de Maio por alguns meses, ao que me lembro. Hoje, pelo que vi na internet, no local está instalado um café. A Dalvinha, irmã do Paulo Costa, me lembrou esses dias que foi o Papa Poluição que fez o show de fechamento do Teatro. O nome do show: Venha passar o Natal com o Papa.

Num país de tantas CPIs que acabam em pizza, mas tão rico de manifestações artísticas e culturais, ficou aquele toque marcado em spray na memória: "Pizza não é cultura".


Tiago Araripe


Montagem fotográfica (da esquerda para a direita): Em cima, Beto Carrera, Bill Soares, José Luiz Penna; embaixo, Paulo Costa, Tiago Araripe, Xico Carlos.