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terça-feira, 10 de maio de 2011

Paredes da memória II

Mais um texto que ajuda a melhor visualizar os quadros pendurados "nas paredes da memória", como já dizia Belchior em Como nossos pais.

No caso, o artigo Não era um teatro qualquer. Publicado na revista Interferência, fala da experiência vivida pelo Lira Paulistana no cenário cultural de São Paulo. Com depoimentos de protagonistas da história do Lira, como Riba de Castro, Luiz Tatit, Ná Ozzetti e eu.

Vale uma olhada.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Na Vanguarda Paulista, um cearense

A presença da cantora Ná Ozzetti (foto) em Fortaleza, para participar do X Festival de Jazz e Blues, motivou o Diário do Nordeste a publicar na edição de hoje uma farta matéria sobre essa apurada intérprete paulistana.
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(Veja, na íntegra, aqui.)

Reproduzo abaixo o box que acompanha a reportagem do DN.

FIQUE POR DENTRO

Na Vanguarda Paulista, um cearense

Enquanto Ná Ozzetti cantava no grupo Rumo e ajudava a tecer os caminhos da Vanguarda Paulista no final dos anos 70, início dos 80, um cearense também circulava por entre espaços e integrantes daquele movimento. Era o cantor e compositor Tiago Araripe, que em 1982 lançou, pelo selo Lira Paulistana, o LP ´Cabelos de Sansão´, reeditado em CD ano passado. ´Lembro muito do Tiago. O Lira Paulistana era um ponto de artistas com novas propostas, como ele´, destaca Ná Ozzetti. ´Trocamos figurinhas. Inclusive montei, com a Suzana Sales, o show ´Princesa encantada´, nome de uma moda de viola que o Tiago indicou pra mim. Mais tarde, gravei essa música, no disco ´Estopim´´.

DALWTON MOURA
Repórter

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cabelos de Sansão, por Nelson Augusto









Foto: Clarissa Araripe

Nelson Augusto em O Disco da Semana, da Rádio Universitária FM

Tiago Araripe lança Cabelos de Sansão em CD

Na Lira Paulistana, movimento lítero-musical que revelou para a Música Popular Brasileira estrelas do quilate de Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé e o Grupo Rumo, só para citar algumas, também brilhou o cearense do Crato, Tiago Araripe.

Idealizado primeiramente como teatro no final da década de 70, o Lira Paulistana transformou-se em gravadora, editora, produtora, loja de discos e livros e divulgou também durante os anos 80 os trabalhos de artistas da então chamada Vanguarda Paulista.

Dessa troupe participavam, entre outros o Grupo Rumo, Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque (Premê), Língua de Trapo, Ná Ozzetti, Susana Salles, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, além do próprio Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, os quais fizeram seus primeiros shows em Sampa, no então Teatro Lira Paulistana.

O álbum Cabelos de Sansão foi lançado em 1982 pelo selo Lira Paulistana, que já havia disponibilizado o então elepê de estréia do Nego Dito Beleléu, Itamar Assumpção. No disco Cabelos de Sansão, Tiago Araripe contou com o auxílio luxuoso de mais de trinta artistas da música como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Turcão, Passoca, Dino Vicente (teclados), Mané Silveira (sax), Cláudio Faria (trumpete), Oswaldinho do Acordeon, entre outros.

Acompanho o trabalho dos cantores, compositores e músicos cearenses desde minha adolescência. Se fosse eleger os três discos mais emblemáticos dessa geração que se lançou, escolheria o álbum Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, o qual ficou conhecido como o Pessoal do Ceará de Rodger Rogério, o Alucinação de Belchior, ambos da década de 70, e o Cabelos de Sansão de 1982 do Tiago Araripe.

O LP Pessoal do Ceará com sua capa antológica trazendo uma foto do artesanato de renda de bilro e no encarte fotos, textos sobre os artistas da música envolvidos no projeto e as letras de todas as canções. Já o Alucinação, com suas mensagens contestatórias, estampava em suas artes gráficas internas uma nota de dólar com mensagens criativas sobre o tema. O álbum Cabelos de Sansão, a partir da lendária capa, mostrando uma foto de Tiago Araripe montado num leão numa colagem com uma imagem do espaço sideral, também no encarte e na contracapa revelava criação artística revolucionária para os lançamentos da época.

Esses três discos até hoje, na minha concepção, soam atualíssimos pois trazem uma proposta inovadora tanto de música, quanto das mensagens das letras e suas artes gráficas. E nesse último item, vale salientar que os recursos gráficos da época eram muito precários no que se refere às modernas técnicas dos computadores de hoje. Creio que, se fossem disponibilizados hoje, causariam o mesmo impacto da época do lançamento original.

Nelson Augusto
www.nelsons.com.br

Com o texto acima, o radialista Nelson Augusto abriu a noite de lançamento de Cabelos de Sansão em Fortaleza, no dia 22 de setembro de 2008.

quarta-feira, 12 de março de 2008

O revisor - 2

Suzana Salles e Ná Ozzetti me indicaram a professora de canto de ambas, Cláudia Mocchi. Durante um ano ela me deu aulas de técnicas vocais no estúdio anexo à sua casa, no bairro de Moema. Mulher notável. Morou na Itália, onde foi soprano no Scala de Milão e teve bem sucedida carreira interrompida por motivos que recheariam um bom romance. Aliás, ela tinha planos de escrever um livro sobre a própria vida. Espero que tenha escrito.

Na época Cláudia Mocchi também ensinava a cantoras como Virgínia Rosa (intérprete da bela canção A flor e a quem fui apresentado quando ela começou a fazer vocais, com Suzana, na Banda Isca de Polícia do Itamar Assumpção) e a cearense Mona Gadelha (que conheci após uma apresentação do Papa Poluição em Fortaleza e reencontrei anos depois em São Paulo).

Entre os revisores da Abril trabalhei também com Gabriella Santini, uma pessoa admirável. Ficamos amigos, e não raro ela estava nos meus shows, com o bom astral que lhe era peculiar. Tinha uma bonita voz, e a convidei para os vocais do disco Cabelos de Sansão. Lembro da emoção da Gabi ao cantar ao lado de intérpretes como Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, Vânia Bastos, Passoca... Descanse em paz, Gabriella.

Saí da Editora Abril quando o Chico César estava entrando. Como ter dois revisores músicos logo virou notícia na empresa, fomos imediatamente apresentados. Ainda devo ter, em algum lugar, a fita cassete que o Chico me deu na época. Reúne algumas canções demo que depois seriam gravadas e se tornariam conhecidas no Brasil inteiro, como Béradêro e You Yuri.

Aos revisores, aquele abraço.

Tiago Araripe

terça-feira, 11 de março de 2008

O revisor

Durante aproximadamente dez anos ganhei a vida fazendo revisão de textos para grandes editoras de São Paulo. Assim, encarafunchar palavras e trabalhar com música foram duas atividades que conviveram juntas por muito tempo no meu calendário. Nada mal para quem sempre gostou de livros e leitura...

Eu era então como naquela canção do Belchior, um rapaz vindo do interior sem dinheiro no bolso nem parentes importantes. O nascimento da minha primeira filha me levou a uma atitude radical: procurar emprego. Assim, numa madrugada gelada cheguei ao portão industrial da Editora Abril, onde me inscrevi para uma possível vaga de revisor.

Depois de meses e de uma bateria de testes que parecia não ter fim, fui convidado à fase final do processo de seleção: a entrevista com o gerente do setor. Soube, tempos depois, que ao me ver cabeludo e com roupas pouco indicadas para a ocasião, ele pensou com seus botões: "Este aí não tem cara de quem gosta de trabalhar..." Mas, por alguma misteriosa razão, fui contratado para o período noturno: das 22 às 6h. Enquanto a maior parte da população dormia, eu queimava as pestanas debruçado sobre os textos das publicações da Abril. E quando as pessoas normais começavam a acordar, tudo o que eu mais queria era dormir. Vivi, por um par de meses, numa espécie de terceira dimensão ou universo paralelo. Depois consegui mudar de turno, e a vida ficou mais próxima do normal.

Eu era um operário das palavras, e gostava disso. Gostava de atravessar todos os dias o parque gráfico da editora, que tinha a fama de ser o maior da América Latina (uma das máquinas chegava a trespassar três andares inteiros). O cheiro de tinta, da impressão das revistas recém-saídas das máquinas, me dava a sensação de que algo novo estava sempre acontecendo: o mundo se renovava a cada instante. Eu batia cartão de ponto, comia no bandejão com a peãozada e era revistado ao final de cada expediente - para se certificarem de que não levava alguma revista enfiada sob a camisa (algo meio constrangedor, que passei a encarar como tediosa rotina).

Quando gravei Cabelos de Sansão precisei conjugar as sessões no estúdio com o dia-a-dia de revisor: acordava às 4h, ia de ônibus da rua Teodoro Sampaio até a praça Marechal Teodoro onde, diante das instalações da Rede Globo, esperava o ônibus da Abril que me levava à sede da empresa na Marginal Tietê. Às 14h, tomava mais um ônibus que me deixava próximo ao estúdio Áudio-Patrulha, do Tico Terpins e do Zé Rodrix. Muitas vezes as gravações se estendiam até tarde da noite ou mesmo madrugada adentro. Logo era hora de acordar e começar tudo de novo. Apesar de eu às vezes parecer um sonâmbulo, todo o processo foi muito estimulante.

Até hoje tenho muita simpatia pela classe dos revisores. Nessa profissão, conheci pessoas interessantes, cultas, bem informadas, criativas. Entre elas Suzana Salles, que fazia parte do coro de Arrigo Barnabé e depois foi minha vizinha na rua Fradique Coutinho (em seguida ela iniciaria um consistente trabalho solo). Um dia apresentei a Suzana e a Ná Ozzetti a música Princesa Encantada, na gravação original da dupla sertaneja Cacique e Pagé. Foi paixão à primeira vista. As duas, sagitarianas com aniversário na mesmo data, fizeram um show no Lira Paulistana que batizaram de Princesa e Encantada. Mais tarde Ná gravaria a canção em um dos seus belos discos.

(Continua no próximo post).

Tiago Araripe