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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Trilha em imagens


José Luiz Penna, Hermano Penna e Tiago Araripe

Registro fotográfico no set de gravação da trilha do filme "Aos ventos que virão", do diretor Hermano Penna, gravada neste outubro de 2011 no Estúdio Muzak, Recife.




Cláudio Rabeca



Pierre Leite









Gerimum de Olinda














André Oliveira (técnico de som)

Sinopse do filme

Zé Olímpio, personagem vivido pelo ator Rui Ricardo Diaz ("Lula, o filho do Brasil"), foge da morte na última batalha de Lampião. Fim do cangaço. Na tentativa de refazer sua vida, encontra na terra natal só o desejo de vingança e o ódio aos ex-cangaceiros. Com Lúcia (Emanuelle Araújo), sua mulher, parte para São Paulo, onde vive por muitos anos. O tempo arrefece os ódios e o casal retorna para o velho sertão. Com a morte do pai, Zé assume os negócios da família: terras e criações. Ele prospera e entra na política. Vítima das tramas de um juiz eleitoral corrupto, reage com violência. Perseguido e preso, vê da cadeia seus amigos serem perseguidos. Em contraponto acompanha, através das revistas semanais, o país da Era JK. A construção de Brasília e a tentativa de Jucelino em pacificar a política nacional surgem em sua consciência, como na maioria do povo brasileiro, como um sinal de um Brasil novo. Um Brasil onde a política não se exprime através da violência. Seu sonho passa a ser chegar em Brasília, símbolo de um país voltado Aos Ventos que Virão.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Trilha do filme "Aos ventos que virão"

Foto e texto: Joana Aquino
Pierre, Tiago, Cláudio, Penna e Jerimum

Deu no portal do Estúdio Muzak, Recife.

Notícias

Trilha original de longa-metragem está sendo gravada na Muzak

Nesta semana, está sendo gravada, no Estúdio Muzak, a trilha original do novo longa-metragem de Hermano Penna (que dirigiu o premiado “Sargento Getúlio”). O filme, “Aos Ventos que Virão”, retoma a parceria de composição de José Luiz Penna e Tiago Araripe, que assinam as canções de vários trabalhos, como o próprio “Sargento Getúlio” e o documentário produzido para a Rede Globo, “Mulher no Cangaço”.

A história de “Aos Ventos que Virão” gira em torno do personagem José Olímpio, que vive dividido entre a política e o cangaço. “Fizemos uma trilha minimalista e fugimos do regional, mas eu digo que as músicas têm ‘sotaque’ nordestino”, afirma José Luiz.

A gravação conta com a participação dos músicos pernambucanos Jerimum de Olinda (percussão), Cláudio Rabeca (rabeca e violão) e Pierre Leite (teclados). “A escolha de gravar no Recife é pelo histórico do manguebeat, que sabe usar a cultura de forma original”, completa o compositor.

As gravações seguem até sábado. O filme tem previsão de lançamento para 2012.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Mais cenas do lançamento em São Paulo

Fotos: Sérgio Polignano

Momento do bis: Felipe Vagner, Felipe Avila, Zeca Baleiro, Tiago Araripe, Cid Campos e Pedro Cunha.




Participantes do LP e do CD Cabelos de Sansão: Zeca Baleiro (Saravá Discos), Wilson Souto Júnior (Lira Paulistana), Felipe Vagner (arranjos e flautas), Felipe Avila (Sexo dos Anjos, arranjos, violão, guitarra), Riba de Castro (Lira Paulistana), Suzana Salles, Tiago Araripe, Cid Campos (Papa Poluição, Sexo dos Anjos, arranjos, baixo, craviola), Passoca (vocais) e Sergio Polignano (fotomontagem do leão da capa).

Suzana é uma virtual integrante dos vocais do disco. Só não participou por não estar em São Paulo no período das gravações. Mas às vezes até consigo ouvi-la nos coros.

Hermano Penna (diretor de Sargento Getúlio), Tiago, José Luiz Penna (Papa Poluição e parceiro em Quando a pororoca pegar fogo), Wilson Souto e Riba de Castro.


Reencontro com Beto Carrera (Papa Poluição).

terça-feira, 29 de abril de 2008

Meus encontros com o Papa Poluição

Foto: Papa Poluição antes da chegada de Beto Carrera e Bill Soares, em show no Colégio Rio Branco (SP): Paulo, Xico Carlos (bateria), Dirceu, Fausto Aguiar, Tiago e Penna.

Texto: Francis Vale


Nas minhas andanças pelo Crato a partir de 1975, tomei conhecimento da existência de um grupo musical paulista (integrado por alguns cearenses) chamado Papa Poluição.

De nome, eu já conhecia Tiago Araripe (por conta do Festival Abertura e da amizade com seu pai, Jósio, cuja casa tive a honra de freqüentar algumas vezes), e também José Luiz Penna e Xico Carlos ( primo e irmão, respectivamente, de meu amigo José Roberto França).

Como eu já havia produzido, no ano anterior, um show com Abidoral Jamacaru e sua banda, no Teatro da Emcetur, fui procurado para repetir a dose com os rapazes do Papa. Reservei a pauta, espalhei releases e fotos nos jornais, e fiquei aguardando a chegada do grupo.

Alguns dias antes da estréia do show (Mamãe Rádio não toca meu disco), eis que aparece a turma numa kombi. Ao volante, Túlio Penna (de saudosa memória). E mais: Tiago, Zé Luiz, Xico Carlos, Paulinho Costa, Beto e Bill Soares. Eu morava numa espécie de “quarto e sala” na rua Coronel Alves Teixeira, onde tive que hospedar quase todos, pois Tiago ficou na casa do avô que distava poucos quarteirões de nossa “república”.

Para uma banda que não estava na “mídia nacional”, a passagem pela capital cearense pode ser considerada um sucesso, pois despertou a atenção de muitos jovens da época que até hoje devem lembrar da variedade de ritmos, do visual “riponga” e do humor contido em muitas das letras do repertório.

Corria o mês de dezembro, quando aconteceu o show durante três dias. Em seguida, o Papa deixou Fortaleza rumo ao Cariri, onde tinha outras apresentações acertadas. Dias após, fui chamado por Fagner para organizar um show que ele faria numa quadra de esportes em Juazeiro, ao lado de Amelinha, Dominguinhos e Anastácia. Depois dessa apresentação, segui para o Crato com Fagner, Amelinha e Wiron Batista. Ali aconteceu um show da dupla Fagner/Amelinha, também numa quadra de esportes. Ficamos hospedados na casa do advogado e escritor Émerson Lacerda. Dominguinhos e Anastácia seguiram rumo ao Sul e, na estrada, encontraram Afonsinho que seguia com a mulher, Sílvia, e a enteada, Índia, para Fortaleza. Com a informação de que estávamos no Crato, Afonsinho foi juntar-se a nós na casa do Émerson. A partir daí foram armadas as “peladas” que juntaram o pessoal do Papa com Afonsinho, Fagner e outros amigos do Crato, como Abidoral, Pachelly, Dedê, Dadim e Zé Roberto, entre outros. Nesse reencontro caririense com o pessoal do Papa fiquei sabendo que eles tiveram que “animar” até festa dançante.

Da convivência com o grupo, ficou-me a lembrança de dois aspectos bastante positivos: de um lado, a amizade e a solidariedade irrestritas entre eles; de outro lado, a alegria, o bom humor e a simpatia que espalhavam por onde passavam. Posteriormente, em 1979, pude reencontrá-los em São Paulo, num espetáculo no Teatro Oficina, onde fui apresentado por eles ao cineasta Hermano Penna, mais um que passou a fazer parte do meu círculo de amigos até hoje. Sobre Hermano, o Tiago já falou um pouco, mas ainda há muito que se falar mais adiante.

Francis Vale

terça-feira, 22 de abril de 2008

Adeus às ilusões

Na foto de Hermano Penna, em pé, Cid Campos, José Luís Penna e Paulo Costa; sentados, Beto Carrera, Tiago Araripe e Xico Carlos.
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Ao longo de cinco anos de luta e música, o Papa Poluição foi praticamente agente de si mesmo. Claro, ter um bom empresário cuidando dos nossos interesses facilitaria muito a vida. Possivelmente melhorasse as condições de sobrevivência do grupo, também.
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Nesse meio tempo, duas figuras se anunciaram para suprir essa importante lacuna. O relacionamento com elas foi breve e decepcionante.
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Nem lembro em que ordem entraram em cena na nossa trajetória. Mas começo falando daquela mulher de aparência distinta e gestos educados. Expressava-se bem, sendo convincente em seus argumentos. Transmitia segurança e sensatez. E o melhor: mantinha escritório na Rua Augusta, com algumas funcionárias. Claro que ficamos animados ao conhecê-la. Mas nada de concreto aconteceu. Ela nos deu algum apoio em um show que já tínhamos programado. Depois nos pediu dinheiro emprestado. Pelo que lembro, não pagou.
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O segundo elemento era argentino. Muito falante, prometeu que nos transformaria em "psicose nacional". Tinha escritório na Avenida Consolação, próximo à Praça Roosevelt. Agenciava um grupo de sucesso, à época. Também vimos nele motivos para sonhar. O contato nos rendeu apenas uma apresentação numa espécie de festival de rock no Paraná. E nada mais.
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Uma bela tarde chegamos ao escritório dele e encontramos a porta fechada. Batemos... e nada. Depois descobrimos que o empresário estava acossado lá dentro, com medo da Polícia Federal. Nunca mais o vimos.
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Fecha o pano, rápido. E ponto final no nosso brevíssimo relacionamento com empresários.
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Tiago Araripe

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A mulher no cangaço

Aqui faço pequena pausa nos relatos de percurso para uma informação pontual, direcionada especialmente a quem mora em Fortaleza. Como parte da programação do 18º Cine Ceará, que está acontecendo na cidade, a Casa Amarela Eusélio Oliveira realiza a mostra paralela Nordeste, Cangaço e Cinema.

Neste 18 de abril (sexta-feira) um dos filmes a serem exibidos na Mostra é o documentário A mulher no cangaço, do cearense Hermano Penna. A trilha, assinada pelo Papa Poluição, antecede o trabalho musical que fizemos para o longa Sargento Getúlio, do mesmo diretor.

O documentário revela como viviam e sobreviviam mulheres como Maria Bonita (foto), Dadá e tantas outras que deixaram família e comunidade em que moravam para se integrar aos bandos de cangaceiros.

A mostra Nordeste, Cangaço e Cinema acontece das 14h às 22h na Casa Amarela Eusélio Oliveira - Cine Benjamin Abrahão.

O endereço: Av. da Universidade, 2591 – Benfica – Fortaleza – CE.

Informações pelos telefones: (85) 3366.7771 / (85) 3366.7772.

Abaixo, ficha técnica do filme disponibilizada no site do Cine Ceará.


A Mulher no Cangaço

Documentário. 1976. Rio de Janeiro. 16 mm. COR e PB. 35 min

Hermano Penna

Data: 18/04/2008

Documentário (com cenas reconstituídas) sobre algumas das mais de 50 mulheres que estiveram no cangaço. Destaque para Dadá (mulher de Corisco), Cila (mulher de Zé Sereno) e Adilia (mulher de Canário). Dadá relembra o dia em que foi raptada por Corisco. Cila conta que teve que doar o filho, cujo parto foi feito por Maria Bonita. Adilia relata que encontrou na companhia do marido, Canário, a liberdade que o pai lhe negava.

terça-feira, 18 de março de 2008

Cabelos muito compridos de Sansão, por Cid Campos - 1

Mesmo tendo tocado em inúmeras bandas durante a minha adolescência e até tendo participado da montagem e como músico no I Festival de Águas Claras, em Iacanga (SP, 1974), a minha primeira grande experiência musical profissional ocorreu no final dos anos 70, quando, ainda muito jovem, passei a integrar como baixista o grupo Papa Poluição. Formado por Zé Luiz Penna (voz), Tiago Araripe (voz), Paulo Costa – que na época assinava Paulinho da Costa (voz e guitarra), Beto Carrera (guitarra) e Xico Carlos (bateria), o Papa já existia há algum tempo. Com a saída de Bill Soares, surgiu a oportunidade para que eu entrasse para o grupo. Houve uma empatia total e de cara, entre ensaios e preparativos, fomos fazer uma sessão de fotos realizadas por Hermano Penna numa garagem cheia de quinquilharias e figurinos, para divulgação do show que estrearia em novembro de 1978 - Projeto Blue Cap´s. Nem é preciso dizer que as fotos ficaram um arraso!

Todos os músicos eram muito mais experientes do que eu, com muita estrada, shows realizados e ainda, no caso específico de Paulo Costa e Xico Carlos, com grande experiência em estúdios profissionais de gravação, onde trabalhavam regularmente. Isso tudo me fazia ver o quanto tinha a aprender e, ao mesmo tempo, sentia-me cada vez mais motivado diante dos novos desafios.

As composições do Papa eram feitas por Zé Luiz, Paulo e Tiago. As músicas eram muito bacanas, misturando rock com ritmos brasileiros, meticulosamente arranjadas por Paulo e executadas com maestria pelos integrantes da banda. Xico Carlos, exímio baterista, era expert em fazer levadas tipicamente brasileiras, que mescladas às guitarras de Paulo e Beto, definiam com precisão o estilo musical do grupo. As letras eram ecléticas, muitas vezes trazendo críticas sociais, como Na Fila do INPS, passando pela regionalíssima Rola Coco e chegando até Drácula, lindo tango de Tiago Araripe, sobre o poema/letra do poeta Décio Pignatari, cuja faixa, com interpretação de Paulo Costa, está incluída no CD Verbivocovisual (2007), por mim produzido em tiragem limitada e já esgotada, que homenageia a Poesia Concreta – mas pode ser escutado aqui.

Foram anos muito ricos para mim e realmente, através desses amigos, conheci de perto o mundo dos estúdios, dos shows e ensaios, que fazíamos na casa do Zé Luiz, na Vila Madalena, quando a Vila ainda não era nada do que é hoje. Passei nessa época a dividir uma pequena casa na rua Girassol com Xico Carlos, que se tornou especialmente um grande amigo e companheiro de batalha. Todos morávamos nos arredores, freqüentávamos assiduamente o bar “Sujinho”, na esquina da rua Morato Coelho com a rua Wisard, e de alguma forma pude acompanhar, junto a esses amigos, a chegada ao bairro de muitos outros músicos e artistas, o crescimento constante e finalmente o agito que acabou virando o bairro de Vila Madalena. Zé Luiz já morava por ali há algum tempo, mas creio que fomos alguns dos primeiros músicos cabeludos do bairro, que até então era habitado, em geral, por operários, antigos moradores e alguns bandidos, como o Lanchão – com quem éramos obrigados a conviver mas, com todo o respeito, atravessávamos a rua sem vacilar se o avistássemos no mesmo lado da calçada.

Participei também, com o Papa Poluição, dos arranjos de base e execução da trilha sonora do filme longa-metragem Sargento Getúlio, baseado em livro de Ubaldo Ribeiro, dirigido por Hermano Penna, cujas belíssimas composições foram feitas por Zé Luiz, Paulo e Tiago. As gravações ocorreram em São Paulo, no Estúdio Eldorado. Lembro que quando entrei nesse estúdio fiquei maravilhado com o tamanho da sala de gravações, a técnica com enormes caixas acústicas, a mesa de som e todos os aparatos técnicos característicos de um estúdio de grande porte. Jamais havia entrado num estúdio assim. Pensava comigo, quantas pessoas maravilhosas deveriam ter passado por ali, quantas gravações realizadas e que naquele mesmo ambiente Caetano Veloso gravara uma de suas obras mais fantásticas, Araçá Azul... Estava deslumbrado. Demorei um pouco para me acostumar com a luz vermelha que acendia quando se iniciava uma tomada de gravação e confesso que tremia na base quando o engenheiro de som dizia a palavra: – gravando! Porém, me tranqüilizava quando olhava para o lado e via Zé Luiz, Paulo, Tiago, Beto e Xico muito à vontade. Me saí muito bem nas sessões de gravação e realmente depois dessa experiência, me senti preparado para tudo.
(Continua)
Cid Campos
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Na imagem, reprodução da capa de peça de divulgação do show Projeto Blue Cap´s. Na foto central, de pé, Penna e Cid; agachados, Beto, Paulinho, Tiago e Xico Carlos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Outras vozes - 9

E outras vozes continuam chegando a este Blog na forma de textos e imagens, lançando novas luzes sobre muito do que vem sendo lembrado e informado aqui.

A foto acima (no click de Paulo Miranda) mostra, durante apresentação do show Fala da Palavra, mais um importante personagem do disco Cabelos de Sansão: o compositor e baixista Cid Campos.

Parceiro da canção Estrela-do-mar, que abre o lado B do LP, Cid integrou o Papa Poluição depois de Bill Soares, tendo participado com o grupo da trilha musical do filme Sargento Getúlio. Aliás, ele é autor de um dos temas instrumentais do longa-metragem de Hermano Penna.

Com a dissolução do Papa em 1980, Cid formaria com Felipe Ávila, Luiz Brasil e Xico Carlos o grupo instrumental Sexo dos Anjos (não sei se ele lembra, mas fui eu quem propôs o nome da banda).

Somando forças, apresentamos juntos o show Fôlego de 7 Gatos no Lira Paulistana, em 1971, que foi uma espécie de cartão de visita para a gravação de Cabelos de Sansão e é o título de uma das faixas do disco.

Cid é filho do poeta Augusto de Campos, tendo dado importante suporte sonoro à obra do pai.

A seguir, com você, Cid Campos.

Tiago Araripe

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Papa Poluição antes e depois, por Paulo Costa

Conheci Tiago no começo dos anos setenta em São Paulo, apresentado pelo Penna. Cabelos compridos como os meus, fazia umas harmonias estranhas, umas melodias (lindas) mais ainda e letras que me intranqüilizaram também pela força com que as cantava com uma voz ainda mais surpreendente. E tome-lhe Cine cassino, Três monges, Sodoma e Gomorra, Teu coração bate, o meu apanha, Drácula e que tais. Daí em diante, eu, ele mais o Penna seguimos tocando juntos até desembocarmos "naquele filho de mãe careca e pai cabeludo", como bem definiu André Luís de Oliveira, que foi o grupo Papa Poluição.

Papamos, por alguns anos, tudo que aparecia pela frente: sons, ritmos, notícias, palpites, fuxicos etc., digerindo tudo pra depois misturar os detritos. Uma vez reciclados, eram retransformados em música (com uma originalidade de marcianos), pra depois serem consumidas nos teatros, rádios, tvs e até ruas da metrópole. À noite, juntos com os outros Papas Beto, Bill e Chico, assustavámos os paulistanos à bordo de Sofia Bundette, a fantástica Kombi bege que nos tranportava saltitante pelas ruas da cidade pra colar cartazes, transportar aparelhos de som, idas e vindas de ensaios, pequenas viagens etc.

Depois, já em carreira solo, Tiago gravou Cabelos de Sansão, eu e o Penna Macaco avoa, música-tema do longa de Hermano Penna, Sargento Getúlio. Seguimos em dupla (Penna & Paulinho) até que a vontade de respirar ares mais puros me levou de volta pra Salvador, enquanto Tiago ia pra Fortaleza e Penna continuava na paulicéia, sempre em grandes movimentações culturais e políticas. Fiquei lá na Bahia muitos anos entre jingles, mar, carnavais, cerveja, rede, sombra e água de coco. Em meio a tudo isso gravei e toquei com o Penna uma trilha prum novo filme do Hermano, Mário. Reencontrei o Tiago umas tantas vezes pra conversar e gravar uns reclames.

Mas como nós baianos dizemos, "o mundo é Oropa, França e Bahia", acabei mudando (por obra e muita graça da Luciana, minha mulher) pra França, onde não há carnaval e não preciso falar com quase ninguem. Meio sem compromisso, fui fazendo umas apresentações aqui e acolá, até que tive a feliz idéia de escrever pro Tiago sugerindo uma possível parceria internética. Agora sigo meu caminho por aqui cantando canções que faço via e-mail com Antonio Miranda, Fred Vieira, Penna e Tiago Araripe, ele segue por lá. Cabelos de Sansão vai estar logo nas ruas; Salvador, meu disco de estréia na França, também. Bom estar de volta aos palcos, gravações, ensaios etc.

Acabei de fazer mais uma música com letra do Tiago, Idéias, que acho ficou bem legal! Já já mando em mp3 por e-mail, como modernos que somos…

Grande abraço, Araripe.

Paulinho Costa

Foto: Paulo Costa e quarteto, in concert.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mais um mergulho no fundo do baú

Não se trata de saudosismo. Mas já que Cabelos de Sansão está sendo relançado, traz no seu vácuo essa pré-história da qual faz parte o compacto simples acima. Os cabelos, que já se foram, afloram agora como se sob a ação de algum tônico capilar miraculoso.

Mera virtualidade.

E aí está meu segundo disco, lançado pela Odeon também em 1974. O escritório da gravadora era pequeno mas arrumado, localizado na área da Boca do Lixo, em São Paulo. Aliás, algumas gravadoras ficavam localizadas ali.

No casting da Odeon havia nomes como Egberto Gismonti e Leny Andrade, com quem eu me deparava de vez em quando (a Leny chegou a me pedir uma composição).

Do disco participam, entre outros nomes arregimentados pela gravadora, músicos que viriam a formar comigo, no ano seguinte, o grupo Papa Poluição: José Luiz Penna, Paulo Costa e Xico Carlos. A faixa Sodoma e Gomorra, canção de toques surrealistas que chegou a tocar em rádios do interior de São Paulo e fez algum sucesso no Crato onde nasci, tem a participação de integrantes da Traditional Jazz Band.

A foto da capa é do cineasta cearense (também do Crato) Hermano Penna. Os arranjos são do maestro José Briamonte, arranjador do antológico disco Estudando o Samba de Tom Zé, lançado dois anos depois, onde na faixa Índice são também parceiros.

E vamos chegando à tona, que respirar é preciso.

Tiago Araripe

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Easy Rider do sertão

A classificação do Guia para Sargento Getúlio não é das mais felizes. A "discutível simpatia pelo personagem", por exemplo, é discutível. Imagino quantos trabalhos, que demandaram tempo, inteligência e dinheiro, são reduzidas a notas breves feitas segundo a visão pessoal do crítico de plantão. O que não tira a validade do Guia. Tive que inserir, como estava, o verbete no sistema. Ossos do ofício. Eu colocaria uma estrela a mais na classificação. E examinaria mais o contexto em que se deu a história de João Ubaldo Ribeiro. O que pude fazer foi escrever a nota comparando o filme de Hermano Penna com o de Dennis Hooper. Talvez nem seja uma boa comparação. Mas, cada um a seu modo, são dois filmes importantes. Certamente Sargento Getúlio merece uma revisão mais generosa. E mais justa.

Tiago Araripe






terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sargento Getúlio, o filme

Por falar em cinema (vide post anterior), vamos dar um salto no tempo. Do ambiente bíblico/hollywoodiano de Sansão e Dalila passamos ao cenário nordestino de Sargento Getúlio. Ao herói interpretado por Victor Mature contrapomos o anti-herói vivido por Lima Duarte. Saímos da paisagem interiorana do Crato, no sul do Ceará, e mergulhamos no cosmopolitismo de São Paulo, no Centro-Sul do país. Estamos no bairro do Bixiga, diante da moviola da Blimp Filmes, vendo o copião de Sargento Getúlio. O convite do diretor Hermano Penna é um desafio: quer que o Papa Poluição faça a trilha musical do seu road-movie sertanejo. José Luiz Penna, parceiro de Quando a pororoca pegar fogo, uma das faixas de Cabelos de Sansão, faz anotações sobre as cenas. As imagens são fortes, de grande plasticidade. Eu já havia lido o romance de João Ubaldo Ribeiro, do qual gostara muito. Logo entro no clima do filme.

Discutida a idéia da trilha, Penna, Paulo Costa e eu distribuímos as composições. E cada um põe mãos à obra. Leio mais uma ou duas vezes o romance, assinalo trechos, empunho o violão. Horas mais tarde nos reunimos com os demais Papa Poluição (Xico Carlos, Beto Carrera e Cid Campos), as composições são mostradas e começamos a preparar os arranjos musicais de base. Convidamos o maestro Mauro Giorgetti (irmão do diretor de cinema Ugo Giorgetti) para os arranjos de cobertura. E em cerca de 48 horas estamos com toda a trilha gravada.

Gostamos do resultado, de sonoridades regionais bem diferentes do que o Papa Poluição apresentava nos shows. Um trabalho que, ao contrário do que esperávamos, não chegou a ser lançado em disco. Cinco anos depois, tendo Hermano finalmente conseguido recursos para ir aos Estados Unidos ampliar seu Sargento Getúlio para 35mm, o filme ganhou o grande prêmio do Festival de Cinema de Gramado (1983). Mas quando procuramos os tapes para produzir o disco, o estúdio havia apagado metade das músicas simplesmente porque precisava reutilizar as fitas.

A canção Urubus, que interpreto na abertura enquanto aparecem os primeiros créditos, foi gravada há poucos anos por um grupo mineiro chamado Ozorríveis, que me localizou pela internet. Ao contrário do que parece, a gravação é bem interessante.

Tiago Araripe