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terça-feira, 11 de março de 2008

O revisor

Durante aproximadamente dez anos ganhei a vida fazendo revisão de textos para grandes editoras de São Paulo. Assim, encarafunchar palavras e trabalhar com música foram duas atividades que conviveram juntas por muito tempo no meu calendário. Nada mal para quem sempre gostou de livros e leitura...

Eu era então como naquela canção do Belchior, um rapaz vindo do interior sem dinheiro no bolso nem parentes importantes. O nascimento da minha primeira filha me levou a uma atitude radical: procurar emprego. Assim, numa madrugada gelada cheguei ao portão industrial da Editora Abril, onde me inscrevi para uma possível vaga de revisor.

Depois de meses e de uma bateria de testes que parecia não ter fim, fui convidado à fase final do processo de seleção: a entrevista com o gerente do setor. Soube, tempos depois, que ao me ver cabeludo e com roupas pouco indicadas para a ocasião, ele pensou com seus botões: "Este aí não tem cara de quem gosta de trabalhar..." Mas, por alguma misteriosa razão, fui contratado para o período noturno: das 22 às 6h. Enquanto a maior parte da população dormia, eu queimava as pestanas debruçado sobre os textos das publicações da Abril. E quando as pessoas normais começavam a acordar, tudo o que eu mais queria era dormir. Vivi, por um par de meses, numa espécie de terceira dimensão ou universo paralelo. Depois consegui mudar de turno, e a vida ficou mais próxima do normal.

Eu era um operário das palavras, e gostava disso. Gostava de atravessar todos os dias o parque gráfico da editora, que tinha a fama de ser o maior da América Latina (uma das máquinas chegava a trespassar três andares inteiros). O cheiro de tinta, da impressão das revistas recém-saídas das máquinas, me dava a sensação de que algo novo estava sempre acontecendo: o mundo se renovava a cada instante. Eu batia cartão de ponto, comia no bandejão com a peãozada e era revistado ao final de cada expediente - para se certificarem de que não levava alguma revista enfiada sob a camisa (algo meio constrangedor, que passei a encarar como tediosa rotina).

Quando gravei Cabelos de Sansão precisei conjugar as sessões no estúdio com o dia-a-dia de revisor: acordava às 4h, ia de ônibus da rua Teodoro Sampaio até a praça Marechal Teodoro onde, diante das instalações da Rede Globo, esperava o ônibus da Abril que me levava à sede da empresa na Marginal Tietê. Às 14h, tomava mais um ônibus que me deixava próximo ao estúdio Áudio-Patrulha, do Tico Terpins e do Zé Rodrix. Muitas vezes as gravações se estendiam até tarde da noite ou mesmo madrugada adentro. Logo era hora de acordar e começar tudo de novo. Apesar de eu às vezes parecer um sonâmbulo, todo o processo foi muito estimulante.

Até hoje tenho muita simpatia pela classe dos revisores. Nessa profissão, conheci pessoas interessantes, cultas, bem informadas, criativas. Entre elas Suzana Salles, que fazia parte do coro de Arrigo Barnabé e depois foi minha vizinha na rua Fradique Coutinho (em seguida ela iniciaria um consistente trabalho solo). Um dia apresentei a Suzana e a Ná Ozzetti a música Princesa Encantada, na gravação original da dupla sertaneja Cacique e Pagé. Foi paixão à primeira vista. As duas, sagitarianas com aniversário na mesmo data, fizeram um show no Lira Paulistana que batizaram de Princesa e Encantada. Mais tarde Ná gravaria a canção em um dos seus belos discos.

(Continua no próximo post).

Tiago Araripe

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Pizza não é cultura

Uma das últimas incursões do Papa Poluição em São Paulo foi mais que um show: foi uma espécie de movimento cultural para salvar o Teatro 13 de Maio. Afinal aquele era um dos principais espaços de música na cidade. Foi lá que assisti shows como o de lançamento do Moto Perpétuo, grupo que praticamente lançou Guilherme Arantes, e da banda de rock Joelho de Porco, integrada por Tico Terpins (anos depois, no estúdio Áudio Patrulha do Tico e do Zé Rodrix, eu gravaria Cabelos de Sansão).

Pois bem. O Teatro 13 de Maio estava prestes a se tornar uma pizzaria, e precisávamos fazer algo. Conseguimos algumas datas na pauta do teatro ameaçado. E então começamos a mobilizar músicos e poetas para tentar impedir o fechamento daquele espaço. Acorreram artistas como Jorge Mautner e Eliete Negreiros, que se alternaram ao Papa Poluição nas apresentações musicais. Poetas organizaram uma exposição de livros no saguão do teatro. Disponibilizamos diversos tubos de spay para o público pichar as paredes da casa (uma das frases anônimas que resultou disso tudo é a que dá título a este post).

Conseguimos aumentar a sobrevida do Teatro 13 de Maio por alguns meses, ao que me lembro. Hoje, pelo que vi na internet, no local está instalado um café. A Dalvinha, irmã do Paulo Costa, me lembrou esses dias que foi o Papa Poluição que fez o show de fechamento do Teatro. O nome do show: Venha passar o Natal com o Papa.

Num país de tantas CPIs que acabam em pizza, mas tão rico de manifestações artísticas e culturais, ficou aquele toque marcado em spray na memória: "Pizza não é cultura".


Tiago Araripe


Montagem fotográfica (da esquerda para a direita): Em cima, Beto Carrera, Bill Soares, José Luiz Penna; embaixo, Paulo Costa, Tiago Araripe, Xico Carlos.