quarta-feira, 16 de abril de 2008

Nordeste revisitado - 2

Na foto, Paulo, Tiago e Beto: Papa Poluição no Teatro Municipal de São Paulo.

O destino seguinte foi o Cariri. No Crato, terra natal minha e do Xico Carlos, fomos recebidos como celebridades (doce ilusão). A nossa apresentação, no intervalo de um baile com o conjunto Ases do Ritmo, lotou o Crato Tênis Clube. Até minha avó e uma tia, velhinhas, estavam lá. As duas cabeças branquinhas no meio da multidão não destoavam do clima de festa em que estávamos mergulhados.

Nas cidades seguintes, Juazeiro do Norte e Barbalha, a lógica da programação seria a mesma: apresentação em clube, no intervalo do baile. Mas por alguma falha de comunicação, nossos bem intencionados interlocutores entenderam que o baile ficaria também por nossa conta. O que se sucedeu foi algo com que não contávamos. As pessoas estavam ali não apenas para nos ver. Queriam também dançar. Não atendê-los poderia comprometer a nossa integridade física. Ou seja: a barra poderia pesar...

Nossa estratégia de sobrevivência foi simples, mas exaustiva: disparamos nossas músicas mais dançantes. O público entrou no clima, tudo começava a funcionar às mil maravilhas. Mas o repertório era curto, e o baile não podia parar. Assim, ao concluir o último número da série, Penna fez um anúncio solene. Disse que, atendendo a pedidos, iríamos tocar tudo de novo. Foi o que fizemos uma, duas, três vezes. Lembro de Paulinho com os dedos sangrando, de ficar tanto tempo tocando guitarra. Valeu o sacrifício: conseguimos sair sãos e salvos.

Em Barbalha, o filme se repetiu na noite seguinte. Estávamos tão exaustos que, após cada rodada do repertório, dávamos um intervalo. À medida que a noite avançava, os intervalos iam ficando maiores. Certa ocasião, ouvi uma pessoa dizer, indignada, que o conjunto fazia mais intervalo que música. A atmosfera estava tensa, mas ao final também escapamos com vida.

Ficamos uns dez dias no Cariri, aproveitando o convívio com familiares e amigos. À tarde costumávamos encher o carro de meninos do Lameiro, bairro rural do Crato, para jogar futebol num campinho no pé da serra. Era divertido até para um notório perna-de-pau como eu. Uma dessas partidas contou com a participação de celebridades: o jogador Afonsinho e o cantor Fagner, tendo Amelinha como expectadora.

Do Cariri seguimos para João Pessoa, onde realizamos duas apresentações no belo Teatro Santa Roza. Na saída do hotel, um imprevisto. A pessoa que organizou o show sumiu, e só conseguimos convencer o gerente a nos deixar sair com muito custo: a conta não havia sido paga. O mesmo sujeito havia assegurado a continuidade de nossa tour em Aracaju. Mas ao chegarmos na capital sergipana, o teatro estava fechado. E o diretor, na Europa. O que nos coube fazer foi dormir um pouco na praia, e em seguida retornar a Salvador. Dali seguimos a longa viagem de volta a São Paulo.

Mas estávamos de alma lavada. Pelo mar do litoral nordestino e pelas nascentes da Serra do Araripe.

Tiago Araripe

5 comentários:

Carlos Rafael disse...

Boas histórias, Tiago. Boas de (re)lembrá-las e contá-las, também...

Dalvinha disse...

Tiago, que aventura né? Mas vale pelas lembranças, e pra ter o que contar.O Papa Poluição era um grupo engraçado, ou amavam ou odiavam, sei lá, talvez porque vcs falassem tudo o que não era dito.Pelo jeito de se vestir,, cabelos compridos.Eu me lembro que vcs tinham fãns que viajavam pelo interior paulista atás de vcs.Isso é o máximo.Lembro também do Guilherme Arantes indo a cada começo de um show.Do Gerson( da POP)publicar artigos sobre vcs.Não sei, mas o grupo tinha um "algo mais" que nenhum tinha.Eu além de colaboradora fui tiéte do PAPA sim!
com muita honra.E continuo fã de Paulo costa e Tiago Araripe.
Beijos querido
Dalvinha Costa

Francis Vale disse...

Tiago,

Muito bom o relato da viagem ao Nordeste. Eu mes mo só conhecia uma parte: Fortaleza e Cariri. Por outros motivos, fui ao Cariri com Fagner e Amelinha e soube das aventuras pelos clubes de Juazeiro e Barbalha

Cabelos de Sansão disse...

é bom tê-lo aqui como testemunha ocular da história, francis. melhor ainda se você enviar sua visão dos momentos do papa em fortaleza, para publicação no blog. envie para tiago.araripe@gmail.com que publico.
grande abraço.
e volte sempre.

Carlos Rafael disse...

Geraldo Urano, grande poeta (salve! Salve!), intitulou Francis Vale d'O Embaixador do Cariri', por tudo o que ele fez e faz pela arte do Cariri.