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terça-feira, 29 de abril de 2008

Meus encontros com o Papa Poluição

Foto: Papa Poluição antes da chegada de Beto Carrera e Bill Soares, em show no Colégio Rio Branco (SP): Paulo, Xico Carlos (bateria), Dirceu, Fausto Aguiar, Tiago e Penna.

Texto: Francis Vale


Nas minhas andanças pelo Crato a partir de 1975, tomei conhecimento da existência de um grupo musical paulista (integrado por alguns cearenses) chamado Papa Poluição.

De nome, eu já conhecia Tiago Araripe (por conta do Festival Abertura e da amizade com seu pai, Jósio, cuja casa tive a honra de freqüentar algumas vezes), e também José Luiz Penna e Xico Carlos ( primo e irmão, respectivamente, de meu amigo José Roberto França).

Como eu já havia produzido, no ano anterior, um show com Abidoral Jamacaru e sua banda, no Teatro da Emcetur, fui procurado para repetir a dose com os rapazes do Papa. Reservei a pauta, espalhei releases e fotos nos jornais, e fiquei aguardando a chegada do grupo.

Alguns dias antes da estréia do show (Mamãe Rádio não toca meu disco), eis que aparece a turma numa kombi. Ao volante, Túlio Penna (de saudosa memória). E mais: Tiago, Zé Luiz, Xico Carlos, Paulinho Costa, Beto e Bill Soares. Eu morava numa espécie de “quarto e sala” na rua Coronel Alves Teixeira, onde tive que hospedar quase todos, pois Tiago ficou na casa do avô que distava poucos quarteirões de nossa “república”.

Para uma banda que não estava na “mídia nacional”, a passagem pela capital cearense pode ser considerada um sucesso, pois despertou a atenção de muitos jovens da época que até hoje devem lembrar da variedade de ritmos, do visual “riponga” e do humor contido em muitas das letras do repertório.

Corria o mês de dezembro, quando aconteceu o show durante três dias. Em seguida, o Papa deixou Fortaleza rumo ao Cariri, onde tinha outras apresentações acertadas. Dias após, fui chamado por Fagner para organizar um show que ele faria numa quadra de esportes em Juazeiro, ao lado de Amelinha, Dominguinhos e Anastácia. Depois dessa apresentação, segui para o Crato com Fagner, Amelinha e Wiron Batista. Ali aconteceu um show da dupla Fagner/Amelinha, também numa quadra de esportes. Ficamos hospedados na casa do advogado e escritor Émerson Lacerda. Dominguinhos e Anastácia seguiram rumo ao Sul e, na estrada, encontraram Afonsinho que seguia com a mulher, Sílvia, e a enteada, Índia, para Fortaleza. Com a informação de que estávamos no Crato, Afonsinho foi juntar-se a nós na casa do Émerson. A partir daí foram armadas as “peladas” que juntaram o pessoal do Papa com Afonsinho, Fagner e outros amigos do Crato, como Abidoral, Pachelly, Dedê, Dadim e Zé Roberto, entre outros. Nesse reencontro caririense com o pessoal do Papa fiquei sabendo que eles tiveram que “animar” até festa dançante.

Da convivência com o grupo, ficou-me a lembrança de dois aspectos bastante positivos: de um lado, a amizade e a solidariedade irrestritas entre eles; de outro lado, a alegria, o bom humor e a simpatia que espalhavam por onde passavam. Posteriormente, em 1979, pude reencontrá-los em São Paulo, num espetáculo no Teatro Oficina, onde fui apresentado por eles ao cineasta Hermano Penna, mais um que passou a fazer parte do meu círculo de amigos até hoje. Sobre Hermano, o Tiago já falou um pouco, mas ainda há muito que se falar mais adiante.

Francis Vale

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Pelas frestas do Festival Abertura

Presenciei cenas impagáveis nos bastidores do Festival Abertura. Aqui, algumas delas.

Ficou a cargo de Tim Maia (foto) um dos shows do evento global. Na época, Tim era adepto da Cultura Racional. Só se apresentava de branco, mostrando na mão exemplar do livro Universo em Desencanto. Acontece que usar branco ainda era tabu para os padrões técnicos da televisão de então. Estourava a fotografia, coisa assim (a TV em cores ainda era relativamente recente no Brasil).

Criou-se um impasse, já que Tim Maia não arredava pé de cantar vestido de branco. No fim, a vontade do artista venceu a limitação da tecnologia.

Outro craque que desafiava os padrões da Rede Globo era o Hermeto Pascoal. Ele concorria com a música Porco na Festa. Com um detalhe: sua apresentação incluía a participação de porcos de verdade, o que causou um rebuliço na produção do festival. Afinal, havia uma alto grau de imprevisibilidade na presença dos suínos em um festival meticulosamente planejado para nada dar errado. Presenciei Hermeto dizendo em voz alta que se os porcos ficassem de fora, ele também ficaria. Mais uma vez venceu o artista. E os porcos. Ainda bem.

Em outra ocasião, a produção marcou uma reunião com os artistas. Chegamos ao local combinado e a porta estava fechada. Ficamos esperando sentados na escadaria. Já passava do horário estabelecido quando chega Hermeto. Ao ver aquele grupo de músicos, intérpretes e compositores naquela condição precária, se dirigiu à entrada e gritou que ou abriam ou ele derrubaria a porta a cabeçadas. Abriram.

Tiago Araripe


Em tempo: Dias depois da postagem do texto acima, me deparo com versão diferente quanto ao desfecho da participação de Tim Maia no Festival Abertura. O informante é o divertido livro Vale tudo, de Nelson Motta, que narra a atribulada biografia de Tim. Segundo o autor, na realidade a Rede Globo fechou as portas para o cantor e compositor de Que beleza. Assim Tim Maia não chegou a cantar no Festival. Torci tanto pela vitória de Tim Maia no embate com a Globo que minha memória registrou esse desejo, e não realmente o que ocorreu...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Drácula no Fantástico

Dias depois do Festival Abertura (vide post anterior), estava eu pensando que estratégia adotar para poder almoçar quando batem à porta do sobradinho onde eu morava na rua Wizard. Era alguém da produção da Rede Globo. Depois de se identificar, a pessoa disparou: eu aceitaria interpretar a música Drácula no Fantástico?

Parecia algo milagroso, dada a minha condição financeira precaríssima naquele momento. Mas o que me ouvi dizer ao rapaz da Globo surpreendeu a mim mesmo: falei simplesmente que ia pensar no assunto. Daria uma resposta depois. (Eu era muito jovem, muito duro e muito metido a besta.)

Depois do pretenso charme de artista (pobre, mas artista), acertei o cachê e os detalhes da gravação do programa –aliás, receber o pagamento foi dez vezes mais difícil que cantar a música.
Para dar mais fôlego à repercussão do Abertura, a Globo preparou um quadro do Fantástico que mostraria polaridades contrastantes do Festival: a música mais popular do evento (Farofa-fá, interpretada por Mauro Celso) e a considerada mais “maldita” (Drácula, interpretada por mim).

Naturalmente, o nome do parceiro Décio Pignatari deve ter pesado na definição da pauta do programa. Acredito também que a Globo, de alguma forma, estava me dando uma segunda chance depois da minha performance afônica no Festival. Seria uma forma de reabilitar minha imagem de cantor.

Do palco ao porão

Eu e o Mauro Celso gravamos os nossos números nos porões do Teatro Municipal de São Paulo (foto). Por sinal o cenário sombrio se adeqüava mais ao tema de Drácula que ao clima festivo de Farofa-fá.

Daí em diante, Drácula seria uma constante nas apresentações do Papa Poluição: um tango em meio aos rocks, xotes, baiões e maracatus que, traduzidos em linguagem pop, marcaram a diversidade musical do grupo.

Tiago Araripe

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Tangos e morcegos

Quando adolescente no Crato, morei em um sobrado antigo localizado na Praça da Sé. Era algo estranho: no térreo, de cômodos praticamente lacrados, o que havia eram móveis e quinquilharias centenárias da família do meu pai.

O lugar, escuro e assustador, vivia fechado. A ele chamávamos de Subterrâneo. Isso talvez por habitarmos o andar de cima, numa ala de quartos com assoalho de madeira, tendo pouco abaixo dos nossos pés aquele ambiente sombrio.

Havia muitos morcegos transitando ali, e algumas vezes eu e meu irmão Flamínio nos divertíamos a caçá-los pela casa. Com uma daquelas espingardas de carregar pela boca - socadeira, como dizem no sertão - dispensávamos o chumbo que poderia quebrar as telhas: bastava a pólvora, a bucha e o barulho da explosão para os morcegos, cegos que se guiam pela audição, caírem fulminados.

Anos depois, tive a oportunidade de ter o próprio Drácula nas mãos. Não, ele não veio de algum castelo fantasmagórico da Transilvânia. Saiu mesmo foi de um moderno apartamento no bairro paulistano das Perdizes. Longe de ser o aterrorizante personagem de Bram Stoker, era na verdade um vampiro bem-humorado, saído da imaginação criativa do poeta de Décio Pignatari.

Chegou até a mim por meio de Tom Zé, como letra de música, em meio a outros poemas de Décio. Dois deles falavam de vampiro e pareciam mais longos do que normalmente são as letras de uma canção. Depois de algumas horas ao violão, consegui transformá-los em tangos algo futuristas. Ambos foram registrados em disco. Teu coração bate, o meu apanha virou o lado B do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe. E com Drácula participei do Festival Abertura, da Globo.

O Festival aconteceu em 1975, no Teatro Municipal de São Paulo. Representava a tentativa da Globo de reviver os áureos tempos dos festivais de música popular que tanto animaram a cena cultural do país na década anterior. E projetou nomes importantes como Djavan, Alceu Valença, Walter Franco, Hermeto Pascoal, Ednardo, Luís Melodia, Jards Macalé, Jorge Mautner e muitos outros (clique nos links para ver letras ou assistir clipes de algumas das músicas do Festival).

Os futuros parceiros de Papa Poluição - José Luiz Penna e Paulinho Costa - também estavam entre os participantes defendendo Muzenza, composição deles que integraria depois o repertório do grupo, assim como a própria Drácula.

Uma das apresentadoras do Festival era ninguém mais ninguém menos que a Marília Gabriela (foto abaixo). Nos shows dos intervalos estavam lá artistas como Tim Maia e Caetano Veloso. Em suma, havia na receita todos os ingredientes para fazer do evento um grande espetáculo.

Tivemos bom ensaio geral na véspera, quando Drácula foi considerada, por alguns jornalistas presentes, como proposta inovadora. Saí do Teatro Municipal animado, cheio de perspectivas quanto à apresentação da noite seguinte e os seus possíveis desdobramentos.

Mas o imprevisto aconteceu. Lá fora, a garoa e o frio de uma virada de clima habitual em São Paulo passou a destoar das roupas leves que eu usava.

Resumindo: acordei afônico no dia do Festival.

Ao que parece, meu drama pessoal sensibilizou algumas pessoas nos bastidores do Teatro - principalmente aqueles que me viram cantar no ensaio anterior. Uma jurada, notória professora de canto, pediu que me transmitissem exercícios vocais para melhorar a garganta (se não me engano, foi a própria Marília Gabriela a porta-voz da receita). Do seu camarim, Caetano orientou que me ensinassem uma posição de Ioga chamada de Posição do Leão, indicada para casos como o meu. Atordoado, eu a tudo aceitava querendo ficar bom. Cheguei a cogitar a substituição por outro intérprete: o próprio Paulinho Costa. A direção da Globo não aceitou: meu videoclipe já estava gravado, ambientado no cemitério da Avenida Dr. Arnaldo, e havia alguma simpatia pela minha imagem magra, longos cabelos, vestido com capa negra de vampiro meio hippie.

Assim, com a coragem de mamar em onça que desenvolvi nos momentos difíceis de enfrentamento do público, adentrei o palco do Teatro Municipal. Procurei compensar a falta de voz com gestos dramáticos. Houve quem ouvisse na minha rouquidão uma referência aos guinchos de vampiro, que os violinos do arranjo de Mauro Giorgetti sugeriam.

No dia seguinte, alguns críticos foram benevolentes. Wladimir Soares, do Jornal da Tarde, escreveu que Drácula "foi a única música a representar uma proposta concreta de inovação e criatividade". Continuando, acrescentou: "Na hora da apresentação, Thiago (sic) Araripe perdeu a voz e ganhou apenas 66 pontos; era um tango que fugia do tradicional portenho e do jazzístico de Piazzola, com uma linha própria".

José Miguel Wisnik, que anos depois se revelaria um talentoso compositor, registou no jornal Última Hora o que chamou de perda lamentável "porque envolve o próprio andamento do concurso":

Thiago Araripe, que apresentou a música Drácula, é um cantor muito bom, com uma afinação muito natural e segura, além de ser um ótimo compositor, conforme pôde-se ver no decorrer dos ensaios. Acontece que ele acordou sem voz no dia da apresentação, em conseqüência dos rigores do clima paulistano, e sua interpretação perdeu toda a naturalidade. Repare bem quando puder: Drácula é uma das melhores composições do festival.

A seguir, você vai saber como - mesmo desclassificado no Abertura - fui convidado para cantar Drácula no Fantástico. E não vale antecipar, dizendo que é o show da vida...

A propósito, a foto que ilustra esta postagem é de um show realizado no Colégio Rio Branco logo após o Festival Abertura. Ali está, provavelmente, a mesma capa que utilizei no evento da Globo. Ali está, com certeza, o embrião que deu origem ao grupo Papa Poluição - e começou quando formamos uma banda para acompanhar Tom Zé alguns meses antes - inclusive no mesmo colégio paulistano.

Além de Xico Carlos na bateria e Fausto Aguiar na guitarra, contei com a participação de José Luís Penna e Paulinho Costa. Não lembro quem estava no baixo: a pessoa ficou encoberta por mim na fotografia. Mas recordo que bem em frente, na platéia, estavam Décio Pignatari e os irmãos Campos - Augusto e Haroldo. E que estreamos nessa noite outra parceria minha e do Décio: O hipopopótamo, rumba dançante de letra estranhíssima.

Tiago Araripe

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Tom Zé, por Tiago Araripe


Em dezembro de 2003, Tom Zé veio a Fortaleza apresentar o show Imprensa Cantada e lançar o livro Tropicalista Lenta Luta. Na ocasião, o jornalista Luciano Almeida Filho me pediu para escrever um texto sobre o período em que trabalhei com o compositor e músico baiano. Tirei do fundo do baú a foto ao lado, que ilustra o artigo (de um ensaio que fizemos no apartamento de Tom Zé em Perdizes).
O depoimento me proporcionou um reencontro musical com Tom Zé no palco do anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A convite dele, juntei-me à banda e ao show para dividir os vocais da antológica Jimi Renda-se.


RECORDAÇÕES DO FUTURO


Tiago Araripe
Especial para O POVO


"Quando saí de Recife para tentar a sorte como cantor e compositor em São Paulo, deixando pela metade o curso de Arquitetura e um emprego de copy-desk no Diário de Pernambuco, só tinha um objetivo cem por cento definido: estudar na escola de música de Tom Zé. A fixação tinha seus motivos. Tom Zé era, como 30 anos depois continua sendo para muitos, uma referência de inventividade musical. Suas entrevistas que acompanhei pela televisão me indicavam um criativo invulgar, sempre capaz de lançar um olhar novo sobre os mais diversos assuntos da vida e da cultura do país.


Cheguei a São Paulo no início de 1973, trazendo na bagagem algumas composições tão estranhas quanto imaturas, feitas no eixo Crato-Recife por onde eu me movimentava. Não por acaso, o primeiro show a que assisti na grande metrópole foi o de Tom Zé e Grupo Capote, no auditório do Masp. Depois um vizinho pianista me forneceu o telefone do cantor e marcamos o primeiro encontro. De antemão soube que a escola de música já não existia. Mas fui em frente. Na longa conversa que tivemos no estúdio do maestro tropicalista Rogério Duprat, no bairro do Bixiga, entremeada pela apresentação ao violão de meu precário repertório, Tom Zé se mostrou um ouvinte atento e respeitoso. O contato, que durou toda uma tarde, teve desdobramento inesperado: trabalhamos juntos durante um ano, fazendo apresentações nas quais eu tinha espaço para mostrar algumas de minhas músicas.


A princípio, reunimos um time de músicos amadores, universitários de uma forma ou de outra atraídos pelo trabalho do baiano de Irará. (Alguns deles se profissionalizaram e chegaram a dar boas contribuições ao que se configuraria mais tarde como a Vanguarda Paulistana.) Ensaiávamos no apartamento de Tom Zé nas Perdizes, provavelmente no mesmo edifício onde mora até hoje e do qual é jardineiro oficial. Na mesma vizinhança habitavam os articuladores do movimento concretista: Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Cheguei a participar de alguns encontros de Tom Zé com esses poetas de campos e espaços. Muitos deles no bar Cristal, regados a chopp e Steinhager. Não raro surgiam intersecções musicais interessantes, como a audição da obra do músico austríaco Anton Webern, promovida e comentada por Augusto de Campos, no apartamento deste, com a presença de Tom Zé e do poeta Régis Bonvicino. Ou as cinco letras que Décio pediu a Tom Zé para musicar e este me repassou: um desafio, pois eram extensas e sugeriam tudo menos versos de canção popular. Mesmo assim, a partir delas consegui fazer duas composições: Teu coração bate, o meu apanha, lado B do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe, lançado pela Continental em 1974, e Drácula, que interpretei no Festival Abertura da Globo no ano seguinte. Ambas são tangos, gênero no qual até então eu não me aventurara, definidos pela crítica especializada da época como uma vertente nova, não enquadrada nem no tango tradicional nem no tango jazzístico de Piazzola. Aprovado pelo novo parceiro, ganhei depois uma letra específica (e curiosíssima) das mãos do próprio Décio, transformada numa espécie de rumba: Hipopopótamo (sic).


Voltando ao fio da meada. Nos ensaios com os universitários, trabalhando a partir da sonoridade acústica de violões, era interessante observar a capacidade de Tom Zé de extrair o melhor dos músicos incipientes que éramos. Valia-se dos seus conhecimentos de música erudita (chegou a estudar cello e ter aulas com Smetak, quando morava em Salvador) e sua intuição de artista inquieto, sempre em busca do inusitado, para nos ensinar. Lembro de um arranjo que ele criou para ser executado por mim numa harmônica de boca, mostrando-me como tocar sem me atrapalhar com o manejo da clave. Assim a gaita incorporou-se aos shows, que fazíamos em diversos espaços da capital e do interior paulistano. E olha que nunca fui tocador de gaita.


Em determinada altura do campeonato, sugeri a ele que deveríamos modernizar o show, dando-lhe uma característica pop. Algo que fizesse jus ao disco Todos os olhos (sim, aquele da foto polêmica), recém-lançado. Ele aceitou de pronto, e convidei alguns amigos, nordestinos e músicos, constituindo assim o que viria a ser o embrião do grupo Papa Poluição, que integrei entre 1975 e 1980.


A derradeira apresentação que fizemos juntos foi num evento sobre cultura baiana no Anhembi, do qual participou também Walter Smetak. No seu show, Tom Zé entrava todo paramentado de artista pop, com uma máscara aplicada sobre o rosto que o deixava transfigurado. Aos poucos ele ia tirando o disfarce, arrancando nariz, orelhas etc. Se queria impacto, conseguiu.


O registro do trabalho que fizemos juntos foi o compacto gravado no mesmo estúdio, de apenas dois canais, onde nos conhecemos: de um lado Conto de fraldas, de Tom Zé, e do outro Teu coração bate, o meu apanha. Queríamos uma sonoridade diferente para o disco, e convidamos um músico na época bem cotado nos estúdios, mas completamente desconhecido do grande público: Guilherme Arantes. Foi quem fez os arranjos, pilotou os sintetizadores e participou do coro.

Tom Zé tinha uma maneira peculiar de viver a cidade de São Paulo. Acompanhá-lo dirigindo no trânsito caótico era muito interessante. Ele sabia de todos os fluxos e contrafluxos, de todos os meandros do tráfego, como um pescador conhece as oscilações das marés. O que não quer dizer que sua convivência com a cidade fosse tranqüila. Não o era em absoluto. Que o digam algumas de suas músicas, como Botaram tanto lixo, botaram tanta fumaça.


Fazia anos que não o via e nos encontramos na pré-estréia do filme The Doors, à qual ele foi por insistência da esposa Neusa. Tinha voltado há pouco de Nova York onde tivera o primeiro contato pessoal com David Byrne. Assistimos ao filme juntos e perguntei-lhe como estava a cena musical novaiorquina. Ingenuamente, imaginava que me contaria novidades quentíssimas. No entanto, ele me respondeu que não sabia: ficara o tempo todo dentro do hotel.


Esse é o Tom Zé que conheci. Um ser híbrido, meio Irará meio futurismo universal. Durante o longo período em que ficamos sem nos ver, tive um sonho premonitório que contei a Neusa numa fila de cinema. Nele, Tom Zé obtinha finalmente amplo reconhecimento. Isso foi antes de o mundo lhe abrir as portas, a partir do convite de David Byrne. Que bom que se tornou real."
(Publicado no jornal O Povo, em 5 de dezembro de 2003)