quarta-feira, 17 de junho de 2009

Montagem brasileira de Hair faz 40 anos



Vídeo: Ingrid Morais

Hair e Cabelos de Sansão: tudo a ver. Há quatro décadas era lançada a montagem brasileira do musical que marcou época para toda uma geração.

Algum tempo depois eu, estudante de arquitetura, morava provisoriamente no Hotel do Parque, Recife, quando a novidade chegou. E, não por acaso, teve como palco o teatro vizinho: o Teatro do Parque, na rua do Hospício. O mesmo da minha futura estreia como compositor e intérprete das canções da peça Armação e do lançamento do grupo performático e multicultural Nuvem 33.

Eu podia ouvir toda a peça do meu quarto de hotel, mas graças ao amigo e ator José Luiz Penna, tinha livre acesso a todos os espetáculos. Após a peça, íamos beber cerveja e conversar no entorno do teatro. Não raro, iam junto outros integrantes do musical - alguns deles (como Neusa Borges, Ricardo Petraglia e o próprio Penna) atores da montagem original da peça.

Numa dessas conversas, Penna, já sabendo que eu fazia as primeiras incursões pela música, me incentivou a ir a São Paulo. Foi o que fiz em seguida, ficando um mês hospedado na casa de Zé Luiz e Rosa. Depois, com mais Paulo Costa e Xico Carlos, formamos o embrião do que viria a ser o grupo "transnordestino" Papa Poluição, consolidado com as adesões do pernambucano Bill Soares e do paulistano Beto Carrera.

Numa data tão marcante, eu não poderia deixar sem registro a lembrança dessa época. A época que eu tinha cabelos...

Tiago Araripe

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um ano no Recife

Há praticamente um ano no Recife, comemoro a data com a homenagem a um músico que não apenas projetou Pernambuco para além das fronteiras do Brasil: deu significativo impulso à valorização cultural do manguezal no Estado, um dos habitats mais ricos do planeta.

Claro, como você já percebeu pelo banner da foto, estou falando de Chico Science.

As mostras do reconhecimento público ao trabalho dele são visíveis. Há, por exemplo, uma avenida em Olinda e um túnel no Recife que têm seu nome.

Visitando o Espaço Ciência, em Olinda, me deparei com o ambiente da foto, onde está exposto um automóvel que pertenceu a Chico Science. Isso próximo a uma área de mangue que integra o parque.


No vídeo abaixo, ele fala sobre música e mangue, mostrando assim a gênese do Manguebeat que, a partir do trabalho de Chico Science & Nação Zumbi, mostrou ao Brasil e ao mundo novas possibilidades musicais. (Tiago Araripe)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Guia da Vila entrevista Riba de Castro sobre 30 anos do Lira Paulistana

.Entrevista.
Lira ganha livro e filme


O teatro Lira Paulistana, que funcionou entre os anos de 1979 e 1985 na Rua Teodoro Sampaio, em frente à praça Benedito Calixto, teve uma importância muito grande para a região da Vila Madalena. O Lira também lançou muita gente, influenciou no comportamento e até na redemocratização do país. Foram breves seis anos de vida cultural ativa que marcaram a cidade. No próximo mês de outubro está prevista uma comemoração aos 30 anos de fundação do Lira, como era carinhosamente chamado. Um dos sócios, o cineasta Riba de Castro, cearense de Quixeramobim, e que reside na Espanha há um bom tempo, reuniu todo o material que juntou daquele tempo, escreveu um livro e finalizou a captação de imagens do documentário que será lançado na ocasião. Nesta conversa, Riba conta como o Lira surgiu, quem passou por lá e o que vem por aí.

Quando você chegou à Vila Madalena?
Cheguei aqui em 1974. E aos 20 anos cheguei em São Paulo. A Vila Madalena foi a minha primeira morada aqui. Morei na Mateus Grou.

Qual é a sua formação? E como foi a sua vida por aqui?
Sou autodidata em tudo. Comecei muito cedo a fazer as coisas que eu queria fazer. Aos 15 já estava expondo. Aos 17, desenhava. Fui durante muito tempo desenhista gráfico. Vim para São Paulo traçar meu próprio caminho. Fiz amizades com o pessoal das artes gráficas e logo depois já fazia produção, shows, cartazes e cenários de eventos. Foi nessa época que conheci gente como Tiago Araripe, Papa-Poluição, José Penna, Walter Franco, Odair Cabeça-de-Poeta, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, Paçoca e outros. Aos 20 anos eu já estava totalmente envolvido com o cenário cultural da cidade.

Como era a Vila Madalena?
Um lugar de “estrangeiros”. Um pessoal criativo. Aqui sempre teve um clima interessante. Era um lugar de estudantes e professores da USP, músicos e cineastas e produtoras.

E como surgiu o Lira Paulistana?
Muitos artistas moravam na Vila e o público também era do bairro. No final dos anos 1970, a ditadura estava forte. Os teatros convencionais não recebiam os novos artistas. O Lira foi inaugurado em 25 de outubro de 1979 com a peça de teatro “Fogo Paulista”. Era um musical relacionado com o programa Pró-Álcool. A ideia da peça era uma crítica à crise de álcool. Tinha álcool para os carros, faltava álcool para se beber. Foi uma criação coletiva e dirigido por Mário Mazeti. Depois veio “Tambores da Noite”, de Bernold Brecht.

Quem teve a ideia de criar o Lira?
No começo não estávamos todos juntos. Nos primeiros seis meses, quem tocou foi o Wilson e o Valdir Galeano. Eles já trabalhavam com teatro em São Paulo. Já tinham a ideia de abrir um espaço. Aí acharam o porão da praça Benedito Calixto e surgiu o Lira Paulistana. Seis meses depois o Valdir se apaixonou e foi embora e o Wilson ficou só. Nesse momento entraram o Chico e o Fernando. Depois eu cheguei.

Como era a programação?
Tinha teatro e depois surgiu a música. O Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia é que inauguraram essa fase no Lira. E com ele, lançamos nosso primeiro long play com o selo do Lira. Tinha cinema também, que era o que me trouxe. Eu participava de um projeto na zona leste da cidade. Na época, o cineasta João Batista de Andrade tinha lançado o filme “O homem que virou suco”. Foi exibido no circuito comercial em dezembro e pouca gente viu. Dois meses depois, o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim (Alemanha) e eu tinha uma cópia desse filme dos tempos do centro cultural lá da zona leste. Nessa época eu fazia comunicação visual no Curso Anglo Vestibulares. Um amigo meu, o cineasta Ivo Branco, me visitou um dia e contei para ele que tinha uma cópia do “Homem...”. Ele sugeriu que fôssemos ao Lira que tinha uma janela na programação. Eles toparam fazer uma semana com o filme e foi muito legal. Foi a primeira vez no Lira que o público fez fila que dobrava a Rua Lisboa. Até então o Lira tinha teatro, música no meio da semana e filmes. A partir daí, ficamos mais próximos.

Quem se apresentou no Lira?
O Paçoca, Gereba, Tetê Espíndola e Almir Sater começaram a fazer
shows no Lira. Era uma mescla de estilos musicais, inclusive instrumentais.

O Jornal do Lira, como surgiu?
O Fernando Alexandre era editor da Gazeta de Pinheiros e sempre divulgava a nossa programação. Ele tinha um projeto de fazer um jornal cultural na cidade. Nesse momento, começamos a conversar sobre fazer um jornal cultural. Mas antes era preciso de uma infraestrutura mínima. Alugamos um sobrado na praça Benedito Calixto. Eu e o Fernando saímos dos nossos trabalhos e montamos uma gráfica para atender ao teatro e ao jornal. Cartazes, filipetas e outros trabalhos que foram surgindo. Aí o Lira passou a ser um centro de artes e editora. Continuei fazendo cenários para o Lira. Depois de quase um ano, o jornal saiu com 30 mil exemplares, com venda em banca.

E quem escrevia no Jornal do Lira?
Não tínhamos dinheiro. Formamos uma cooperativa de jornalistas. Muita gente trabalhou lá: Paulo Caruso, Apoenam Rodrigues, Gabriel Prioli (hoje diretor da TV Cultura) e outros que toparam participar. Tinha de tudo. Amigos participavam do jornal.

Qual era a linha do jornal?
Mais variedades. Foi o primeiro jornal na cidade a dar toda a programação cultural. Desde a programação de cineclubes ou dicas de onde ir para tomar uma canjinha na zona norte. Onde comprar flores. Tinha comida, diversão e arte. Cobria o circuito normal e o alternativo. E com um detalhe, com dicas de qual ônibus você devia usar e coisas assim. Tinha livrarias, bares, gafieiras e outros endereços. Fomos os primeiros a fazer isso. Seis meses depois do fechamento, surgiu a Veja São Paulo. Era semanal e formato tablóide. Foram 14 números. Fechou por falta de dinheiro.

Como surgiram os shows na Praça Benedito Calixto?
Fomos vender anúncio para a agência de publicidade Thompson. Eles não queriam anunciar no jornal mas topavam patrocinar uma série de shows com os artistas do Lira. Estávamos no vermelho. Juntamos a redação e viramos produtores. O primeiro show ao ar livre que aconteceu na Praça Benedito Calixto aconteceu no dia 25 de janeiro de 1981, no aniversário de São Paulo. Quem se apresentou: Jorge Mautner, Premeditando o Breque, Grupo Rumo e Tetê Espíndola. O jornal deixou muito prestigio ao Lira. Tinha 15 mil pessoas na praça. Depois fizemos outros shows pela cidade e fora daqui também.

Os projetos como o Virada Paulista e o Boca no Trombone, como surgiram?
O Virada Paulista foi um projeto que tinha 42 grupos de música e mais 500 músicos envolvidos. Muita gente que nunca tinha se apresentado. Língua de Trapo, Ultraje a Rigor, Grupo D’Alma, vários grupos surgiram. No ano seguinte criamos o Boca no Trombone com outros grupos, entre eles Os Titãs, Vânia Bastos e outros. O pessoal nos procurava. Nós alugávamos o teatro e também produzíamos alguns espetáculos.

Por que o Lira terminou?
Era um casamento de cinco. E como toda relação, se desgatou. O Boca no Trombone foi “exportado” para Curitiba. O Lira ficou pequeno para os artistas grandes e não tínhamos capacidade para receber um público desse tamanho. E nessa ocasião surgiu o Sesc Pompeia, que tinha um espaço maior para comportar esses shows.

Qual o grande mérito que o Lira deixou?
O Lira sempre estava na mídia. Tinha música, teatro, cinema, exposição. Todo dia tinha uma atividade. O público selecionava o trabalho que a gente programava. O Kid Vinil tocou a primeira vez lá.

Até que ponto a situação política do Brasil influenciou o Lira?
Um dos motivos do Lira ter dado certo era que o país atravessava um período de ostracismo por conta da ditadura. O pessoal que surgiu no Lira já existiam. O Lira foi o veículo que deu o espaço. Eram muitas pessoas. O Lira deixou um espírito boêmio e artístico para a cidade.

Fale sobre o documentário do Lira? Como surgiu?
Em setembro de 2008 resolvi escrever um livro sobre o Lira. A morte do Itamar Assumpção deu início ao projeto. Lembrei de muitas coisas. Nesses anos que estou na Espanha, sempre que eu vinha para cá, um estudante me achava e perguntava sobre o Lira. Eu tinha experiência em cinema e pensei “essa história precisa ser contada”. Eu tinha muito material da época, cartazes, jornais. Com o livro pronto, resolvi fazer o documentário. Conversando com um amigo, ele topou produzir o filme. Saí da TV e estou só trabalhando no documentário. E quero fazer outras coisas, mas ainda é segredo.

Será em película ou digital?
Filmei em HD. Será digital. Entrevistei 65 pessoas. Os fundadores, inclusive eu e os artistas que passaram por lá.

A receptividade foi boa?
O pessoal falou com alegria, com satisfação, sem saudosismo. Naquele momento, o Lira foi muito importante para o país. Surgiram outros partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores e o Partido Verde.

Vai ser exibido em circuito cultural?
Acho que vai ser exibido em circuito comercial e cultural.

Como será o lançamento?
Quero fazer um grande lançamento. Ainda não definimos o local. Gostaria de fazer um show na praça Benedito Calixto. Ideias não faltam. Ainda estamos buscando recursos.

www.piratacreative.com

(Guia da Vila, maio de 2009)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O passado



O passado

Passo a passo
Suavemente
Como que descalço
Se fez presente.

Eu o recebi
Com um abraço.


Tiago Araripe

segunda-feira, 27 de abril de 2009

No Guia da Vila Madalena





Cabelos de Sansão, de Tiago Araripe


Tiago Araripe, que viveu durante muitos na Vila Madalena, se apresentou no dia 10 de março no pequeno palco da Fnac Pinheiros para o lançamento em CD do seu LP Cabelos de Sansão, lançado em 1982. Quando ele ainda morava aqui no bairro, se apresentava regularmente no Teatro Lira Paulistana, local que fez história no cenário musical dos anos 1980 e neste ano completaria 30 anos. Quem se empenhou para tornar realidade o CD foi o cantor Zeca Baleiro que resolveu relançar Cabelos de Sansão pela sua gravadora, a Saravá Discos. Ele fez a apresentação do CD: “Quando escutei o LP do Tiago Araripe, percebi uma sonoridade incomum, de cara prendeu minha atenção, assim como a voz aveludada do cantor”. Zeca Baleiro também participou do show de Tiago Araripe na FNAC.
Os longos cabelos daqueles anos 1980 ainda resistem na capa e Tiago Araripe, hoje mais calvo, mora e trabalha com publicidade em Recife (PE). O show foi uma oportunidade para os amigos e companheiros dos tempos do Teatro Lira Paulistana se encontrarem. Além do show, o lançamento do CD foi uma grande oportunidade para os amigos se reencontrarem depois de algum tempo. José Luiz de França Penna, colaborador do GUIA DA VILA MADALENA, hoje vereador de São Paulo e também parceiro de Tiago Araripe em ‘A Pororoca Vai Pegar Fogo’, o cineasta Hermano Penna entre outros, estiveram presentes no show que teve ‘Asa Linda’ (Little Wing, letra e música original de Jimi Hendrix na versão do poeta Augusto dos Anjos). “É muito importante voltar à São Paulo para lançar este meu trabalho”, afirmou Tiago Araripe.

terça-feira, 31 de março de 2009

Resumo da ópera

Vídeo inédito e novas fotos de pockets shows realizados por Tiago Araripe e convidados para o lançamento do CD Cabelos de Sansão (Saravá Discos).

FORTALEZA

(Vídeo:
Cena 7 Produções Audiovisuais)



RECIFE



CRATO

(Foto: Alemberg Quindins)




SÃO PAULO

(Fotos: Sergio Polignano)



Felipe Vagner, Felipe Avila, Tiago Araripe, Cid Campos, Pedro Cunha.



Tiago e Zeca Baleiro.

sábado, 21 de março de 2009

Papa Poluição na "poeira Zine"

Com o sugestivo conceito de "O melhor da música do melhor dos tempos", a poeira Zine é uma revista paulistana especializada na música pop dos anos 70. Na sua mais recente edição, de fevereiro/março, o editor Bento Araújo abre generoso espaço na seção Arquivo Verde Amarelo para o Papa Poluição. Em duas páginas onde há inclusive citação a este Blog, o jornalista e músico Ayrton Mugnaini Jr. faz um oportuno reconhecimento à contribuição do Papa para a fusão do rock com a música nordestina.

Vale a leitura.




O ROCK NORDESTINO BIODEGRADÁVEL DO PAPA POLUIÇÃO

De todos os artistas que fundiam rock à música nordestina nos anos 1970, o grupo Papa Poluição foi um dos que menos gravaram ou fizeram sucesso – mas se revelou em longo prazo um dos mais influentes, inclusive hoje, trinta anos após sua separação. Esta reportagem resultou de consulta à famosa Fundação Mugnaini e de entrevistas com Tiago Araripe e Bill Soares, dois integrantes do grupo – além dos textos no imperdível blog de Tiago: www.cabelosdesansao.blogspot.com

Ainda vou pleitear um espaço especial na pZ para falar sobre a grande influência da música nordestina no mundo, inclusive sobre o rock, provando mais uma vez minha famosa “teoria do pingue-pongue”: mal o rock surgiu oficialmente em meados dos anos 1950, foi sua vez de influenciar a música nordestina, a partir do “Baião-Rock” gravado por Jair Alves em 1957, passando pela Tropicália e os Novos Baianos e explodindo de vez no começo dos anos 1970 com uma boa leva de artistas arretados, como Lula Côrtes, Belchior, Fagner, Ednardo, Ave Sangria e talvez o mais bem-humorado de todos, o Papa Poluição.

Excelente amostra da presença nordestina no Sul, o Papa Poluição formou-se em São Paulo com os cearenses Tiago Araripe (vocal, violão, composições) e Xico Carlos (bateria), o potiguar José Luiz Penna (vocais, guitarra, composições), o baiano Paulinho Costa (vocais, guitarra e composições; não confundir com o percussionista Paulinho da Costa – se bem que hoje em dia nosso amigo do PP atende por Paulo Costa), o pernambucano Bill Soares (contrabaixo e direção visual) e o paulistano Beto Carrera (guitarra) – todos com queda não só para a música mas também teatro e egressos de outros grupos nordestinos como os pernambucanos A Porta e Nuvem 33, o baiano The Blue Star e os cearenses The Top’s e Os Águias de Barbalha.

Foi em São Paulo que os Papas começaram a aparecer nos grandes meios de comunicação em nível nacional. Em 1970 Penna atuou na primeira montagem do musical Hair! (inclusive no LP da trilha) e participou de um festival da TV Tupi com sua composição “John”. Tiago surgiu para o grande público em 1973 gravando um compacto pela EMI fundindo pop, dixieland (com participação não creditada da Traditional Jazz Band) e letras nonsense, “Os Três Monges” e “Sodoma E Gomorra”; no ano seguinte participou do Festival Abertura da Rede Globo de Televisão com “Drácula”, parceria com o poeta Décio Pignatari e cantada num dos LPs (Abertura – Estas Também Participaram) dedicados ao festival por outro futuro Papa, Paulinho Costa – que participou também com sua composição “Muzenza”, tendo Xico Carlos à bateria. (Ah, sim: Tiago não cantou neste LP, lançado pela RCA, por estar ainda vinculado à EMI.) Paulinho tocou em Paisagem, o LP folk-rock do já veterano mais então ainda um tanto obscuro MPBzeiro Renato Teixeira. E Beto tocou na montagem paulistana do musical Hoje É Dia De Rock da equipe Teatro Ipanema.

Mais que excelente resultado da presença nordestina em Sampa, o PP foi um dos precursores da chamada Vanguarda Paulista dos anos 1980 e um dos responsáveis pela reputação do bairro paulistano da Vila Madalena como grande baluarte da música independente e descompromissada. “Quando eu cheguei [a São Paulo], em 1973, morei no Butantã, mas foi muito pouco tempo”, lembrou Tiago ao Diário do Nordeste. “Depois fiquei na casa do José Luís Penna, próxima à Vila Madalena, na rua Patápio Silva – por sinal, nome de um flautista [grande pioneiro da MPB no começo do século 20]. Era no Sumarezinho, perto da Vila Madalena, onde depois eu aluguei uma casa, que dava pra ir a pé pra casa do Zé Luiz Penna, onde a gente ensaiava no quarto de casal, na época do Papa Poluição. A mulher dele com uma santa paciência... E o Papa contribuiu muito pra essa fama do bairro. Lembro de revistas nacionais, como a Quatro Rodas, que fizeram matérias sobre o [Teatro] Lira Paulistana, colocando como pioneiro desse movimento dos artistas irem pro bairro.

A gente ativou tudo isso. Chegamos a tocar na calçada, o que de certa forma originou aquela Feira da Vila [série de shows na Praça Benedito Calixto, em frente ao Lira]. O José Luís se tornou presidente do Centro Cultural da Vila Madalena; enfim, a coisa começou a ganhar projeção. O Hermano Penna, que dirigiu o [filme] Sargento Getúlio, filme de que nós fizemos a trilha, também tinha um escritório na Vila Madalena, com outros cineastas. Enfim, tinha vários pólos, de várias linguagens, convivendo ali.”

Outra composição de Tiago e Pignatari é “Teu Coração Bate, O Meu Apanha”, gravada por Tiago em dupla com Tom Zé na Continental em 1974 (e com participação de um colega da Continental, o tecladista da banda Moto Perpétuo – ele mesmo, Guilherme Arantes). Foi neste mesmo ano que Tiago e Penna se encontraram e resolveram fundar o grupo Papa Poluição – e em 1976 chegou a vez do Papa se fazer notar. Parodiando a campanha televisiva “Adote Um Atleta”, o PP lançou o show Adote Um Artista, apresentado em escolas, teatros e uma novidade: estações do metrô paulistano. “Os shows tinham uma dinâmica muito forte, a gente saía do palco, brincava com a platéia. Eram performances, uma coisa muito viva”, relembrou Tiago Araripe ao Diário do Nordeste décadas depois. “E tínhamos na platéia pessoas que viriam a ser importantes pra música popular.

Os músicos gostavam de ir assistir, porque os arranjos eram muito inventivos. O Guilherme Arantes costumava ir pros nossos shows, o próprio Belchior cogitava de em algum momento lançar um LP do trabalho com o Papa Poluição. Por algum motivo, a coisa não aconteceu. Quando ele conseguiu [viabilizar], o grupo tinha acabado.” (Vale lembrar que Beto e Bill substituíram dois integrantes originais do PP que mal esquentaram lugar, respectivamente Fausto Aguiar e Dirceu – e que, anos depois, Fausto fez uma participação especial no segundo compacto do grupo.)

No mesmo ano de 1976 o grupo fez a trilha sonora do curta-metragem A Mulher no Cangaço, dirigido por Hermano Penna (primo de José Luiz – assim como Xico Carlos). E também lançou seu primeiro disco, um compacto-duplo pela Chantecler com os rocks-baiões “Rola Coco” (incluindo participação de Osvaldinho do Acordeon), “Brechando nas Gretas” e “Em Nome do Rock” (com citações dos Beatles e jovem guarda) e o balanço latino de “Guerra Fria”. O disco ganhou elogios unânimes de profissionais da comunicação, como o jornalista Wladimir Soares (“com humor e inteligência, o Papa Poluição conseguiu provar que a música pop pode ser feita no Brasil sem buscar originais estrangeiros, o ritmo é nosso e deles”), e o radialista Jacques Kaleidoscópio (“Papa Poluição, um som biodegradável”), e de colegas como o poeta Augusto de Campos (“muito ar livre pra dar a nossa inspiração musical”), Marcus Vinicius (“eu também papo”) e Guilherme Arantes (“eu acho o conjunto a revelação mais espontânea e autêntica de São Paulo nos últimos dez anos”), mas não fez sucesso e o Papa foi dispensado da Chantecler.

Isso não impediu o grupo de marcar 1977 estreando novo show, Mamãe Rádio Não Toca Meu Disco (que o próprio grupo apresentou como “desaconselhável para virtuoses cansados, folcloristas, nostálgicos, FM estéreo, multigravadoras, são-paulinos e araras”) e assinar com a gravadora carioca Top Tape, onde gravou (pelo selo Arco-Íris) seu segundo e último disco, um compacto simples com o rock-balada “Tua Ausência” (trazendo mais citações de Beatles) e a faixa meio-rock-meio-latina “Inferno Da Criação”. O que brecou o Papa Poluição foram problemas de outras ordens – principalmente briga com gravadoras do tipo que são empresas visando lucro, imagine se não fossem.

Estas duas faixas do disco da Top Tape nasceram independentes; o PP as gravou por conta própria no Eldorado, então o maior estúdio do Brasil, aproveitando horas vagas entre uma gravação paga e outra. Subitamente, adentram o estúdio Scarambone (que havia sido tecladista do grupo Renato e Seus Blue Caps durante quase todos os anos 1970 e estava deixando a banda, preferindo seguir carreira como produtor de discos) e outro produtor, veterano e bem-sucedido, Reinaldo Barriga (que trabalhou com Tom Zé e muitos outros). Ambos ouvem a gravação do PP e adoram – não só o resultado musical, como também seu custo praticamente zero. Desataram a prometer ao Papa Poluição mundos e fundos, a começar por um LP na Top Tape. Só que o grupo, pouco disposto a, como se diz, “entrar para o esquemão”, insiste em ir com calma e começar por um compacto para testar o mercado.

Pois bem, a Top Tape lançou o compacto – mas não pagou jabá (sim, isso já existia; aliás, sempre existiu, embora nem sempre com esse nome) às rádios e TVs; coube ao grupo ralar em shows e entrevistas para conseguir um bom espaço em algumas emissoras. “Tua Ausência” começou a fazer sucesso. Mas de repente... o disco obedeceu ao título do show do PP e parou de tocar no rádio. O que aconteceu? Penna relembrou ao blog de Tiago: “Tivemos um trabalho danado para saber o que houve. Não é que a nossa gravadora tinha pedido ao programador da rádio para trocar o nosso espaço, conseguido a duras penas, pelo disco do Stevie Wonder [também do elenco da Top Tape]?” Como resumiu Tiago ao DN: “Descobrimos que a gente conseguia as coisas no
rádio, na TV, e eles vinham por trás e tentavam colocar o cast internacional deles. Ou seja, a própria gravadora tava nos boicotando.” “Aí não deu mais”, continua Penna. “Fomos no dia seguinte, eu e o Tiago Araripe, bem cedo à Top Tape, munidos de bastões, e pichamos todos os cartazes dos astros internacionais com obscenidades. E ficamos esperando funcionários e diretores para recebermos nossa rescisão contratual. Foi um belo escândalo. Enfrentamos a partir daí o colapsototal. As gravadoras determinaram o fim DISCOGRÁFICO do PAPA POLUIÇÃO.” (Ah, sim: a quem interessar, Scarambone ainda vive no Rio de Janeiro e hoje em dia trabalha não com jabá, e sim com mais palatáveis doces e salgados.)

Como se esse enrosco com a gravadora já não fosse bastante, na época, Bill Soares trabalhava como diretor de arte da TV Tupi, a qual entrou na crise que a fecharia em 1980. “Fiquei de cabeça quente e saí do Papa Poluição batendo porta”, recorda Bill. “Me arrependi tanto... E ficou aquele clima de casamento, procurar pêlo em casca de ovo...” O PP ainda seguiu em frente com outro contrabaixista, Cid Campos (filho de Augusto). Mas não passou de 1979, quando gravou uma marcha carnavalesca para um compacto triplo de vários intérpretes, compôs e gravou canções para o filme Sargento Getúlio (também dirigido por Hermano Penna e estrelando Lima Duarte) e participou do último festival da Tupi defendendo “O Grande Circo Universal”, de Thomas Roth em parceria com o saudoso Luís Guedes.

Mas os integrantes do grupo continuaram ativos de uma forma ou outra. Em 1982 Tiago gravou pelo selo Lira Paulistana o LP Cabelos de Sansão, que fez algum sucesso alternativo com faixas como “Estrela do Mar” e “Meg Magia” (e em 2008 foi promovido a CD pelo selo Saravá, do fã Zeca Baleiro), e hoje reside no Recife, trabalhando com música e publicidade. No ano seguinte Penna e Paulinho da Costa gravaram em dupla o compacto “O Macaco Avoa” (alusão aos saltos do bicho de cipó em cipó, dando realmente a impressão de que ele voa pela floresta), incluído na trilha do filme e trazendo gravações antigas do PP. Penna entrou para a política e se deu bem como vereador e presidente nacional do Partido Verde (sim, tudo a ver com o nome Papa Poluição); e uma composição sua da época do PP, “Comentário a Respeito de John”, foi modificada por Belchior e fez muito sucesso nas gravações da cantora Bianca e do próprio Belchior. Paulinho seguiu o verso de “Rola Coco” que fala do “sonho vago de não morrer sem ver Paris”, radicando-se mais ou menos lá perto, em Toulouse, na França, onde já gravou um CD solo (e continua compondo com Tiago, um de seus parceiros de sempre). Xico, após formar com Cid o grupo Sexo dos Anjos, mudou-se para a Bahia e hoje atende por Xico Sá (não confundir com o jornalista homônimo). Bill Soares perdoou a TV Tupi a ponto de trabalhar no departamento de criação visual do SBT, e hoje tem seu estúdio de gravação e publicidade, o Yeah! Estúdio. E Beto Carrera está radicado em Embu das Artes, na Grande São Paulo.


Paulinho da Costa realiza "o sonho vago
de não morrer sem ver Paris".


Trinta anos depois, o Papa Poluição continuou sendo garimpado e bem lembrado, influenciando artistas mais novos como Chico Science e tendo canções aproveitadas em filmes (como “Rola Coco” no longa Cine Tapuia, dirigido por Rosemberg Cariry e com Rodger, ex-Pessoal do Ceará, no papel do Cego Aderaldo) ou regravadas por Belchior e outros. “É bom ver que nosso trabalho não foi em vão”, comenta Bill. Para quase terminar, por enquanto, a pergunta inevitável: haverá volta do Papa Poluição? “No ano passado [2008] Penna me disse ‘vamos fazer!’” De modo que podemos ter esperanças em breve. E, para terminar mesmo, o ideal é a frase que Tiago incluiu no encarte do LP Cabelos de Sansão: “Viva o Papa Poluição!”

Ayrton Mugnaini Jr.


Quem quiser conhecer melhor a iniciativa poeira Zine, experimente um desses link (ou todos):

Site: www.poeirazine.com.br

Sample: http://issuu.com/poeirazine/docs/pz23

My Space: www.myspace.com/poeirazine
Blog: www.poeirazine.blogger.com.br
Video blog: http://poeirazine.wordpress.com


sexta-feira, 20 de março de 2009

Mais cenas do lançamento em São Paulo

Fotos: Sérgio Polignano

Momento do bis: Felipe Vagner, Felipe Avila, Zeca Baleiro, Tiago Araripe, Cid Campos e Pedro Cunha.




Participantes do LP e do CD Cabelos de Sansão: Zeca Baleiro (Saravá Discos), Wilson Souto Júnior (Lira Paulistana), Felipe Vagner (arranjos e flautas), Felipe Avila (Sexo dos Anjos, arranjos, violão, guitarra), Riba de Castro (Lira Paulistana), Suzana Salles, Tiago Araripe, Cid Campos (Papa Poluição, Sexo dos Anjos, arranjos, baixo, craviola), Passoca (vocais) e Sergio Polignano (fotomontagem do leão da capa).

Suzana é uma virtual integrante dos vocais do disco. Só não participou por não estar em São Paulo no período das gravações. Mas às vezes até consigo ouvi-la nos coros.

Hermano Penna (diretor de Sargento Getúlio), Tiago, José Luiz Penna (Papa Poluição e parceiro em Quando a pororoca pegar fogo), Wilson Souto e Riba de Castro.


Reencontro com Beto Carrera (Papa Poluição).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Nas ondas do rádio

No click de Sergio Polignano, autor da fotomontagem da capa de Cabelos de Sansão, cena do lançamento do CD da Saravá Discos em São Paulo: Felipe Avila, Tiago Araripe e Zeca Baleiro.

Entrevistas com Tiago Araripe

  • Dia 17 de março, das 13h às 14h, participação no programa Visita Vip, da Rádio USP. Para ouvir, acesse o site www.radio.usp.br

  • A qualquer momento, você pode ouvir aqui o podcast da entrevista feita por Vilmar Bittencourt para o programa RadarCultura, da Rádio Cultura AM.