segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Woodstock revisitado

Na foto, publicada no JC, Otávio "Bzzz" Machado e Fernando "Carneirinho" durante performance do Nuvem 33 na I Feira Experimental de Música.

O jornalista José Teles escreveu, para as edições de 14, 15 e 16 de agosto do Jornal do Commercio (Recife), extensa reportagem sobre os 40 anos do festival de Woodstock. No terceiro dia da matéria, é destacada a repercussão do evento na cena musical do Recife.

Entrevistado, lembrei do quanto me impressionou a versão idealizada do festival que nos chegou por meio do documentário exibido no Cine São Luís. Uma das consequências locais mais diretas foi a realização do nosso próprio woodstock possível: a I (e única) Feira Experimental de Música, em Nova Jerusalém, região Agreste de Pernambuco, tendo como palco o palácio de Pôncio Pilatos.

Segue o texto publicado no domingo. (T.A.)

» MEMÓRIA
Ecos de Woodstock chegam ao Recife
Publicado em 16.08.2009

Última reportagem sobre Woodstock mostra como o festival foi compartilhado pelos recifenses no documentário de Michael Wadleigh e influenciou uma geração

José Teles

teles@jc.com.br

A influência do festival de Woodstock sobre a juventude brasileira, sobretudo os jovens que viviam nas grandes cidades foi avassaladora. Em 1969, o País acabara de ingressar no período mais pesado da ditadura e para a juventude só havia duas opções, o desbunde ou o engajamento. Era cair na estrada, ou cair na clandestinidade. A turma do desbunde se viu refletida no Woodstock visto no documentário de Michael Wadleigh, que chegou às telas brasileiras em 1970 (é até paradoxal que tenha sido liberado pela censura, com tantas cenas de nu e drogas). “A gente era o genérico do hippie no Brasil. Foi um momento feliz, um universo de paz, era o ideal, num tempo em que a gente vivia a realidade dos anos de chumbo. A gente já vinha ouvindo aquela música, bebendo daquela fonte. Para nós era como prenúncio da mudança de tudo”, analisa o músico Lula Cortês.




Se Woodstock encantou a juventude, para os músicos foi uma influência marcante. Adolescente na época, mas já considerado o melhor guitarrista da cidade, Robertinho do Recife, que tocava nos Bambinos, há anos morando no Rio, lembra, em conversa por telefone, que viu o documentário várias vezes: “Para mim foi um aula de tudo que a gente estava vivendo. Ver aqueles músicos todos no mesmo lugar. Jimi Hendrix tocando o hino americano, que não havia ainda gravado foi fantástico. O filme fez as pessoas modificarem a maneira de vestir. Começaram a surgir festivais hippies em algumas praias de Pernambuco, lembro de um em que toquei, num lugar chamado, acho, Águas Finas. A gente já era meio hippie, eu, Lula Cortês, a turma do Ave Sangria, o filme nos fez ver que todos nós estávamos na mesma onda. Para mim Woodstock foi muito inspirador”.

O cartunista e escritor Lailson de Holanda recorda que tomou conhecimento do festival pelo semanário O Pasquim, na coluna Underground, assinada por Luís Carlos Maciel: “Foi a primeira vez que ouvi falar em Jimi Hendrix, Carlos Santana e Janis Joplin. Como naquela época eu ainda era bem garoto – 16 anos – não conhecia tanta gente que se interessasse pelo assunto. Tocava ainda em banda de adolescentes com Paulo Rafael (a lendária The Jopens!) e, para o público em geral, Beatles e Rolling Stones já eram vanguarda demais! Mas aí comprei o Have you been experienced, de Hendrix, e a vizinhança pensou que eu tinha ficado doido, diziam que era um barulho ensurdecedor. E olha que minha radiola Philips nem era estéreo!”. Mas até aí era só a descoberta de novas possibilidades sonoras. Ver o filme foi, como se dizia então, outro “barato”: “A primeira vez que vi eu estava em Nova Iorque e depois vi aqui, no Cine Veneza. Aí já estávamos em 1972, maluco surgia mais que cogumelo – literalmente – depois da chuva. O cinema virou uma comunidade hippie, tinha gente sentada em todo canto, no gargarejo da tela, na alcatifa que fica da tela para a primeira fila. Acho que todo mundo saiu do cinema com a sensação de que ser livre era possível, mesmo estando sob uma ditadura”.

WOODSTOCK DO AGRESTE

Influenciado por Woodstock, Lailson participou da produção da Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém que, segundo ele, foi o nosso Woodstock local. “O logotipo que criei (um braço de violão com um punho fechado em cima) era a minha idéia variante do festival original. Ao invés de “Paz e amor”, uma proposta mais de resistência. Roberto Peixe ( ex-secretário de cultura da prefeitura) foi quem fez a versão final, pois meu desenho original era uma ilustração, muito cheia de detalhes. Ele sintetizou muito bem e ficou ótimo”. O festival de Nova Jerusalém teve a participação das principais bandas e cantores da cidade, entre outros, Lula Cortês, o Nuvem 33, o Tamarineira Village (mais tarde Ave Sangria), sedimentando uma cena de música alternativa no Recife e Olinda.

Marco Polo, compositor e principal vocalista da Ave Sangria, na época de Woodstock, já caíra na estrada, vendia artesanato na famosa feira hippie da praça General Osório, em Ipanema, no Rio. Ele assistiu ao filme com outros hippies: “Eu fiquei particularmente fascinado com a performance chocante de Joe Cocker, cantando A little help from my friends, de Lennon e McCartney, num arranjo arrepiante de Jimmy Page (futuro Led Zeppelin) à frente das guitarras. Saímos do cinema em estado de graça e fomos direto para um bar, beber, conversar, comentar, comemorar. Era o auge do paz e amor, com sexo livre (leia-se todo mundo transando com todo mundo), uso generalizado de drogas leves (leia-se maconha) e muita música (leia-se rock e derivados). Eu já compunha na época, e o filme foi mais um incentivo para continuar compondo, cantando e sonhando em formar uma banda, o que terminou acontecendo quando voltei para o Recife e formei com o pessoal de Casa Amarela a Tamarineira Village, depois Ave Sangria.

Hoje trabalhando em publicidade em Fortaleza, o músico Tiago Araripe, da Nuvem 33, conta como foi afetado pelo documentário sobre o festival: “De um lado existia aquele sonho coletivo da geração hippie, de que a melhor resposta ao mundo poderia ser simplesmente paz e amor. De outro, o anseio juvenil de estar, de alguma forma, participando do movimento. Eu já dava os primeiros passos na música, mas quando assisti ao documentário sobre o Woodstock no Cine São Luís do Recife foi um impacto. A decisão de mergulhar mesmo na música havia sido tomada a partir de encenação da peça Hair no Teatro do Parque. Um dos atores, que como outros que vieram a Pernambuco havia participado da montagem brasileira original, era José Luiz Penna. Penna, hoje presidente nacional do Partido Verde, me convidou a ir a São Paulo onde depois viríamos a fundar, com Paulo Costa, Xico Carlos, Beto Carrera e Bill Soares, o grupo musical Papa Poluição.

Quando assistiu a Woodstock, Araripe já participava do Nuvem 33, um grupo formado por muitos integrantes, com influências de Jimi Hendrix e, principalmente, Frank Zappa. “Quando o filme chegou à cidade nos deixou animadíssimos. Fernando ‘Carneirinho’, o guitarrista do grupo, praticamente internou-se no cine São Luís e assistia uma sessão seguida da outra. Ficava horas no cinema. Eu vi o filme umas três vezes. E ouvia muito o álbum do festival. O filme supriu uma lacuna importante, numa época em que não existia internet e quando quase não víamos televisão. Havia uma visão muito romântica e idealizada das drogas, por exemplo. Muita gente embarcou nessa. Não existia o conhecimento de causa que há hoje quanto a esse aspecto. Conheço muita gente talentosa que pagou um preço muito alto por isso. Alguns, com a própria vida. Por outro lado, Woodstock funcionou como um estimulante painel da música pop, que nos marcou muito. Em mim, por exemplo, acentuou o gosto pela diversidade musical. No País, a repercussão daqueles três dias de paz e amor sacudiu o mercado brasileiro e funcionou como motivação para os festivais de música que viriam em seguida, dando projeção tanto à MPB quanto ao rock e impulsionando a carreira de tantos artistas”, diz Araripe.

Tiago Araripe e Marco Polo, 37 anos depois

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tailândia Montenegro lança CD "Forró da Minha Terra"

A cantora Tailândia Montenegro, que anima a cena cultural cearense com um trabalho inspirado na melhor tradição deixada por Marinês, está lançando seu primeiro CD: Forró da Minha Terra.

No repertório, uma feliz regravação de Telha de vidro, composição de minha autoria interpretada originalmente por Amelinha no seu LP Romance da Lua Lua (1983).

As faixas do lançamento de Tailândia:

  1. Dois em um (Arnaldo Farias)
  2. Os dois lados da paixão (Dorgival Dantas)
  3. Utopia sertaneja (Flávio Leandro/Miguel Silva)
  4. Mar de rosas (Dida)
  5. O amor e a razão (Chico Pessoa/Zé do Norte)
  6. Namoro do sabiá com a mata (Dílson Pinheiro)
  7. Na pisada do forró (César do Acordeon)
  8. Chuva (Flávio Leandro)
  9. A semente (Majó)
  10. Capim verdão (Daudeth Bandeira)
  11. Travessuras (Flávio Leandro)
  12. Pra minha terra (Álcio Barroso)
  13. Telha de vidro (Tiago Araripe)
  14. Água da vida (Antonio Brasileiro)

Vale a audição.

Tiago Araripe

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mais uma garimpada na rede

De uma entrevista de Chico César ao jornal O Povo, em 10 de novembro de 2006:

"Tem um disco lindo chamado Cabelos de Sansão, do Tiago Araripe, que já ouvi muito com Zeca Baleiro. Pena que não tenho CD disso, nem sei se saiu, e não posso mais ouvir. Esse disco é uma pedrada, antecipou muita coisa que nós e outros nordestinos faríamos depois. Grande Tiago..."

Graças a Zeca Baleiro, Rossana Decelso e à Saravá Discos, Chico César pôde ter o CD e voltar a ouvir Cabelos de Sansão... Muita gente também.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Catada na rede

Encontrei esta nota por acaso, na internet. Mais um ponto de vista (ou de audição) do disco Cabelos de Sansão.

E mais uma reflexão a respeito do tempo e da transformação...

Quando leio coisas assim/ é como se me visse/ além de mim.

Tiago Araripe

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Montagem brasileira de Hair faz 40 anos



Vídeo: Ingrid Morais

Hair e Cabelos de Sansão: tudo a ver. Há quatro décadas era lançada a montagem brasileira do musical que marcou época para toda uma geração.

Algum tempo depois eu, estudante de arquitetura, morava provisoriamente no Hotel do Parque, Recife, quando a novidade chegou. E, não por acaso, teve como palco o teatro vizinho: o Teatro do Parque, na rua do Hospício. O mesmo da minha futura estreia como compositor e intérprete das canções da peça Armação e do lançamento do grupo performático e multicultural Nuvem 33.

Eu podia ouvir toda a peça do meu quarto de hotel, mas graças ao amigo e ator José Luiz Penna, tinha livre acesso a todos os espetáculos. Após a peça, íamos beber cerveja e conversar no entorno do teatro. Não raro, iam junto outros integrantes do musical - alguns deles (como Neusa Borges, Ricardo Petraglia e o próprio Penna) atores da montagem original da peça.

Numa dessas conversas, Penna, já sabendo que eu fazia as primeiras incursões pela música, me incentivou a ir a São Paulo. Foi o que fiz em seguida, ficando um mês hospedado na casa de Zé Luiz e Rosa. Depois, com mais Paulo Costa e Xico Carlos, formamos o embrião do que viria a ser o grupo "transnordestino" Papa Poluição, consolidado com as adesões do pernambucano Bill Soares e do paulistano Beto Carrera.

Numa data tão marcante, eu não poderia deixar sem registro a lembrança dessa época. A época que eu tinha cabelos...

Tiago Araripe

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um ano no Recife

Há praticamente um ano no Recife, comemoro a data com a homenagem a um músico que não apenas projetou Pernambuco para além das fronteiras do Brasil: deu significativo impulso à valorização cultural do manguezal no Estado, um dos habitats mais ricos do planeta.

Claro, como você já percebeu pelo banner da foto, estou falando de Chico Science.

As mostras do reconhecimento público ao trabalho dele são visíveis. Há, por exemplo, uma avenida em Olinda e um túnel no Recife que têm seu nome.

Visitando o Espaço Ciência, em Olinda, me deparei com o ambiente da foto, onde está exposto um automóvel que pertenceu a Chico Science. Isso próximo a uma área de mangue que integra o parque.


No vídeo abaixo, ele fala sobre música e mangue, mostrando assim a gênese do Manguebeat que, a partir do trabalho de Chico Science & Nação Zumbi, mostrou ao Brasil e ao mundo novas possibilidades musicais. (Tiago Araripe)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Guia da Vila entrevista Riba de Castro sobre 30 anos do Lira Paulistana

.Entrevista.
Lira ganha livro e filme


O teatro Lira Paulistana, que funcionou entre os anos de 1979 e 1985 na Rua Teodoro Sampaio, em frente à praça Benedito Calixto, teve uma importância muito grande para a região da Vila Madalena. O Lira também lançou muita gente, influenciou no comportamento e até na redemocratização do país. Foram breves seis anos de vida cultural ativa que marcaram a cidade. No próximo mês de outubro está prevista uma comemoração aos 30 anos de fundação do Lira, como era carinhosamente chamado. Um dos sócios, o cineasta Riba de Castro, cearense de Quixeramobim, e que reside na Espanha há um bom tempo, reuniu todo o material que juntou daquele tempo, escreveu um livro e finalizou a captação de imagens do documentário que será lançado na ocasião. Nesta conversa, Riba conta como o Lira surgiu, quem passou por lá e o que vem por aí.

Quando você chegou à Vila Madalena?
Cheguei aqui em 1974. E aos 20 anos cheguei em São Paulo. A Vila Madalena foi a minha primeira morada aqui. Morei na Mateus Grou.

Qual é a sua formação? E como foi a sua vida por aqui?
Sou autodidata em tudo. Comecei muito cedo a fazer as coisas que eu queria fazer. Aos 15 já estava expondo. Aos 17, desenhava. Fui durante muito tempo desenhista gráfico. Vim para São Paulo traçar meu próprio caminho. Fiz amizades com o pessoal das artes gráficas e logo depois já fazia produção, shows, cartazes e cenários de eventos. Foi nessa época que conheci gente como Tiago Araripe, Papa-Poluição, José Penna, Walter Franco, Odair Cabeça-de-Poeta, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Itamar Assumpção, Paçoca e outros. Aos 20 anos eu já estava totalmente envolvido com o cenário cultural da cidade.

Como era a Vila Madalena?
Um lugar de “estrangeiros”. Um pessoal criativo. Aqui sempre teve um clima interessante. Era um lugar de estudantes e professores da USP, músicos e cineastas e produtoras.

E como surgiu o Lira Paulistana?
Muitos artistas moravam na Vila e o público também era do bairro. No final dos anos 1970, a ditadura estava forte. Os teatros convencionais não recebiam os novos artistas. O Lira foi inaugurado em 25 de outubro de 1979 com a peça de teatro “Fogo Paulista”. Era um musical relacionado com o programa Pró-Álcool. A ideia da peça era uma crítica à crise de álcool. Tinha álcool para os carros, faltava álcool para se beber. Foi uma criação coletiva e dirigido por Mário Mazeti. Depois veio “Tambores da Noite”, de Bernold Brecht.

Quem teve a ideia de criar o Lira?
No começo não estávamos todos juntos. Nos primeiros seis meses, quem tocou foi o Wilson e o Valdir Galeano. Eles já trabalhavam com teatro em São Paulo. Já tinham a ideia de abrir um espaço. Aí acharam o porão da praça Benedito Calixto e surgiu o Lira Paulistana. Seis meses depois o Valdir se apaixonou e foi embora e o Wilson ficou só. Nesse momento entraram o Chico e o Fernando. Depois eu cheguei.

Como era a programação?
Tinha teatro e depois surgiu a música. O Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia é que inauguraram essa fase no Lira. E com ele, lançamos nosso primeiro long play com o selo do Lira. Tinha cinema também, que era o que me trouxe. Eu participava de um projeto na zona leste da cidade. Na época, o cineasta João Batista de Andrade tinha lançado o filme “O homem que virou suco”. Foi exibido no circuito comercial em dezembro e pouca gente viu. Dois meses depois, o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim (Alemanha) e eu tinha uma cópia desse filme dos tempos do centro cultural lá da zona leste. Nessa época eu fazia comunicação visual no Curso Anglo Vestibulares. Um amigo meu, o cineasta Ivo Branco, me visitou um dia e contei para ele que tinha uma cópia do “Homem...”. Ele sugeriu que fôssemos ao Lira que tinha uma janela na programação. Eles toparam fazer uma semana com o filme e foi muito legal. Foi a primeira vez no Lira que o público fez fila que dobrava a Rua Lisboa. Até então o Lira tinha teatro, música no meio da semana e filmes. A partir daí, ficamos mais próximos.

Quem se apresentou no Lira?
O Paçoca, Gereba, Tetê Espíndola e Almir Sater começaram a fazer
shows no Lira. Era uma mescla de estilos musicais, inclusive instrumentais.

O Jornal do Lira, como surgiu?
O Fernando Alexandre era editor da Gazeta de Pinheiros e sempre divulgava a nossa programação. Ele tinha um projeto de fazer um jornal cultural na cidade. Nesse momento, começamos a conversar sobre fazer um jornal cultural. Mas antes era preciso de uma infraestrutura mínima. Alugamos um sobrado na praça Benedito Calixto. Eu e o Fernando saímos dos nossos trabalhos e montamos uma gráfica para atender ao teatro e ao jornal. Cartazes, filipetas e outros trabalhos que foram surgindo. Aí o Lira passou a ser um centro de artes e editora. Continuei fazendo cenários para o Lira. Depois de quase um ano, o jornal saiu com 30 mil exemplares, com venda em banca.

E quem escrevia no Jornal do Lira?
Não tínhamos dinheiro. Formamos uma cooperativa de jornalistas. Muita gente trabalhou lá: Paulo Caruso, Apoenam Rodrigues, Gabriel Prioli (hoje diretor da TV Cultura) e outros que toparam participar. Tinha de tudo. Amigos participavam do jornal.

Qual era a linha do jornal?
Mais variedades. Foi o primeiro jornal na cidade a dar toda a programação cultural. Desde a programação de cineclubes ou dicas de onde ir para tomar uma canjinha na zona norte. Onde comprar flores. Tinha comida, diversão e arte. Cobria o circuito normal e o alternativo. E com um detalhe, com dicas de qual ônibus você devia usar e coisas assim. Tinha livrarias, bares, gafieiras e outros endereços. Fomos os primeiros a fazer isso. Seis meses depois do fechamento, surgiu a Veja São Paulo. Era semanal e formato tablóide. Foram 14 números. Fechou por falta de dinheiro.

Como surgiram os shows na Praça Benedito Calixto?
Fomos vender anúncio para a agência de publicidade Thompson. Eles não queriam anunciar no jornal mas topavam patrocinar uma série de shows com os artistas do Lira. Estávamos no vermelho. Juntamos a redação e viramos produtores. O primeiro show ao ar livre que aconteceu na Praça Benedito Calixto aconteceu no dia 25 de janeiro de 1981, no aniversário de São Paulo. Quem se apresentou: Jorge Mautner, Premeditando o Breque, Grupo Rumo e Tetê Espíndola. O jornal deixou muito prestigio ao Lira. Tinha 15 mil pessoas na praça. Depois fizemos outros shows pela cidade e fora daqui também.

Os projetos como o Virada Paulista e o Boca no Trombone, como surgiram?
O Virada Paulista foi um projeto que tinha 42 grupos de música e mais 500 músicos envolvidos. Muita gente que nunca tinha se apresentado. Língua de Trapo, Ultraje a Rigor, Grupo D’Alma, vários grupos surgiram. No ano seguinte criamos o Boca no Trombone com outros grupos, entre eles Os Titãs, Vânia Bastos e outros. O pessoal nos procurava. Nós alugávamos o teatro e também produzíamos alguns espetáculos.

Por que o Lira terminou?
Era um casamento de cinco. E como toda relação, se desgatou. O Boca no Trombone foi “exportado” para Curitiba. O Lira ficou pequeno para os artistas grandes e não tínhamos capacidade para receber um público desse tamanho. E nessa ocasião surgiu o Sesc Pompeia, que tinha um espaço maior para comportar esses shows.

Qual o grande mérito que o Lira deixou?
O Lira sempre estava na mídia. Tinha música, teatro, cinema, exposição. Todo dia tinha uma atividade. O público selecionava o trabalho que a gente programava. O Kid Vinil tocou a primeira vez lá.

Até que ponto a situação política do Brasil influenciou o Lira?
Um dos motivos do Lira ter dado certo era que o país atravessava um período de ostracismo por conta da ditadura. O pessoal que surgiu no Lira já existiam. O Lira foi o veículo que deu o espaço. Eram muitas pessoas. O Lira deixou um espírito boêmio e artístico para a cidade.

Fale sobre o documentário do Lira? Como surgiu?
Em setembro de 2008 resolvi escrever um livro sobre o Lira. A morte do Itamar Assumpção deu início ao projeto. Lembrei de muitas coisas. Nesses anos que estou na Espanha, sempre que eu vinha para cá, um estudante me achava e perguntava sobre o Lira. Eu tinha experiência em cinema e pensei “essa história precisa ser contada”. Eu tinha muito material da época, cartazes, jornais. Com o livro pronto, resolvi fazer o documentário. Conversando com um amigo, ele topou produzir o filme. Saí da TV e estou só trabalhando no documentário. E quero fazer outras coisas, mas ainda é segredo.

Será em película ou digital?
Filmei em HD. Será digital. Entrevistei 65 pessoas. Os fundadores, inclusive eu e os artistas que passaram por lá.

A receptividade foi boa?
O pessoal falou com alegria, com satisfação, sem saudosismo. Naquele momento, o Lira foi muito importante para o país. Surgiram outros partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores e o Partido Verde.

Vai ser exibido em circuito cultural?
Acho que vai ser exibido em circuito comercial e cultural.

Como será o lançamento?
Quero fazer um grande lançamento. Ainda não definimos o local. Gostaria de fazer um show na praça Benedito Calixto. Ideias não faltam. Ainda estamos buscando recursos.

www.piratacreative.com

(Guia da Vila, maio de 2009)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O passado



O passado

Passo a passo
Suavemente
Como que descalço
Se fez presente.

Eu o recebi
Com um abraço.


Tiago Araripe