O período de existência do Papa Poluição, na segunda metade da década de 70, foi certamente heróico. Enquanto os demais integrantes do grupo tinham seus empregos, cabia a mim e a José Luiz Penna a tarefa de fazer contatos para shows, visitar gravadoras e editoras musiciais, abrir espaço na imprensa e coisas do gênero.Não raro, não havia o que comer. A gente, naturalmente, improvisava. E haja macarrão. Até que descobrimos a salvação da lavoura: uma mulher que fornecia quentinhas na rua Girassol. Coisas da Vila Madalena de então: ela permitia que o pagamento fosse feito apenas no final do mês.
Tínhamos, enfim, almoço garantido. Havia ainda um porém. O lingüição de Dona Nerina (aquela boa senhora que me perdoe) era absolutamente intragável. Abríamos a quentinha com grande expectativa. Comemorávamos ao descobrir que não era dia de lingüiça.
Pagar o aluguel era outra novela. Um dia fui à Sicam - Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais - disposto a receber um pagamento que me era devido. Fiquei de plantão a tarde inteira na ante-sala da entidade, aguardando a saída do presidente para cobrá-lo pessoalmente, visto que por outros meios não havia surtido efeito. Era exatamente o dia do vencimento do aluguel do sobradinho onde eu morava na rua Wizard, e estava tão determinado a pagar a conta que o presidente não pôde mais se esquivar.
Quando cheguei na imobiliária, haviam acabado de cerrar a porta de ferro da casa. Fiquei batendo lá que nem um maluco, tentando a todo custo me livrar da multa que inevitavelmente viria a partir do dia seguinte. Até que algum espírito compreensivo gritou de lá de dentro que eu poderia saldar o compromisso na próxima manhã, sem ônus algum.
O Papa Poluição tinha, no seu repertório, uma música chamada Durango Kid ("Saque sua estrela de xerife/Se identifique, venha me policiar...". Possivelmente tenha relação com tudo isso. Além do mais, o episódio da Sicam me inspirou a compor o rock Déjà vu. A letra diz:
O suspense que eu passo
Pra pagar o aluguel
É de deixar Hitchcock encabulado
É de botar Zé Mojica no chinelo...
Tiago Araripe