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sexta-feira, 28 de março de 2008

Telha de vidro

Um ano depois (ver post anterior), nova ligação telefônica de Amelinha anunciando a gravação de mais uma composição da velha fita cassete que eu enviara a ela anos antes: Telha de vidro. A música se tornou uma das faixas do LP Romance da Lua Lua (na foto, a capa). Como no disco que o antecedeu, a produção da bolacha é de Zé Ramalho. A faixa-título é de Flaviola (que conheci em Recife, na época do Nuvem 33), sobre poema de Garcia Lorca.

É um disco temático, como logo se vê. Ou se ouve. Todas as músicas falam, de alguma forma, da Lua - que em Telha de vidro entra no quarto pela dita cuja para dar um aviso.

Algo curioso: uma falha de revisão na contracapa desdobrou meu sobrenome e me transformou em parceiro de mim mesmo - ali, a autoria da canção é atribuída a Tiago Araripe-Alencar Araripe.

Encontrei Amelinha em outras ocasiões, em momentos distintos de sua vida. Quase sempre em São Paulo. Em um deles, um empresário inescrupuloso havia lhe dado um desfalque e a deixara numa situação difícil. Como cearense valente, ela já estava dando a volta por cima. Isso foi há muito tempo. Depois não mais a vi. Espero reencontrá-la um dia desses, sob o sol do Ceará.

A Amelinha, aquele abraço. A você que me lê, também.

Tiago Araripe

terça-feira, 25 de março de 2008

Entre o frevo e o manguebeat

Lendo o texto de Lula Wanderley postado anteriormente, lembrei do livro cuja capa se vê ao lado. Lançado no ano 2000 e tendo como autor o jornalista pernambucano José Teles, Do frevo ao manguebeat traça um painel abrangente da música produzida na terra de Chico Science.

Pela publicação eu soube do destino de músicos com quem compartilhei palcos de Recife, em 1971 e 1972. Em alguns casos, um trágico destino.

O Nuvem 33 é citado algumas vezes en passant, como neste depoimento - datado de 1974 - do também jornalista e músico Marco Polo:


Acho que o Tamarineira foi muito importante no movimento musical recifense porque, por coincidência, nós pegamos uma fase em que o público jovem pernambucano estava se descondicionando de todas as repressões que sofria e procurando uma liberdade de comportamento que antes não tinha. Então coincidiu de a gente começar numa época em que todos os caras jovens do Recife estavam numa ânsia terrível de se integrar a uma cultura, vamos dizer, pop, e aqui ainda não existia nada assim. Existiam, claro, alguns precursores, como Flávio e Tiago do Nuvem 33, mas a coisa ainda não tinha criado um clima de movimento. Então a importância do grupo foi mais cultural que musical.

Outro lançamento recente possivelmente ofereça generosa complementação ao livro de José Teles. Falo de Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, de Herom Vargas.

Se você está disposto a mergulhar nessa história, vale investigar.

Tiago Araripe

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Palácio de Pilatos como palco

O Nuvem 33 fez um punhado de apresentações além da Retreta Eletrônica no Teatro do Parque: no Pátio de São Pedro, no Beco do Barato e na Feira Experimental de Música (ao lado, o cartaz criado por Lula Wanderley), em Nova Jerusalém.

Quanto a esta, o Diário de Pernambuco, em sua edição de 13 de novembro de 1972, não deixou por menos e estampou a nota:

"Hippies" invadem a Nova Jerusalém e realizam festival

FAZENDA NOVA (Do enviado especial) - As ruelas e palácios de Nova Jerusalém foram invadidos, sábado ao entardecer, por "hippies" e estudantes que, entre os sons de guitarras e a estridência "desordenada" de baterias, realizaram o primeiro festival de música de vanguarda de Pernambuco, com a denominação de I Feira Experimental de Música.

O espetáculo, que começou às 17h30m do sábado terminando às 4 horas do domingo, reuniu cerca de duas mil pessoas.

A Banda de Música de Fazenda Nova e a Banda de Pífanos de Nova Jerusalém abriram a parada musical em meio a um entusiasmo sem precedentes dos jovens aglomerados ante o imponente Palácio de Pilatos. Seguiu-se a apresentação do conjunto Tamarineira Village, culminando com a exibição do Nuvem 33 e Flaviola.

Os promotores do certame distribuíram questionários a fim de colher as impressões dos participantes do espetáculo, qualificado pelos observadores como "o primeiro grande passo para a completa renovação da música popular regional".

As composições do Nuvem 33 refletiam nossas influências juvenis à época (eu tinha apenas 21 anos): Frank Zappa e os Mothers of Invention, Jimi Hendrix, filmes B de terror e livros de ficcção científica (você já leu O homem demolido, de Alfred Bester, ou Inalterado por mãos humanas, de Robert Scheckley? São muito criativos).

Hoje, canções como Moma, seu banjo e o Dr. Bizarro; Motcha, o morcego; Ave marciana; Lesmas famintas e outras não fariam feio em um CD para crianças...

Tiago Araripe

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Nuvem 33 no céu de Recife

Sem compromisso com a linearidade, rumamos da Vila Madalena, São Paulo (ver posts anteriores), para a Avenida Conde da Boa Vista, Recife. É lá que, em 1971 – na calçada – conheço Lula Wanderley. Ambos temos os cabelos longos – algo raro na Recife daquela época – e isso facilita a aproximação. Lula me fala do diretor de teatro maranhense Tácito Borralho, que veio à cidade montar uma peça chamada Armação e está à procura de certo estudante de Arquitetura autor de composições estranhas: quer convidá-lo para fazer a trilha musical.

A pessoa em questão, descubro em seguida, sou eu mesmo. E assim, meio casualmente, começo a fazer música para um circuito um pouco maior que os amigos e colegas de faculdade. Em uma semana, componho 12 canções para a peça. E monto uma banda para interpretá-las ao vivo no Teatro do Parque, durantes as cenas. Isso muda o curso da minha vida e determina o surgimento de um grupo muito atuante no cenário musical de Recife em 1972: o Nuvem 33.

A capital pernambucana vivia, no que dizia respeito à música, um momento de transição. Enquanto nomes como Alceu Valença e Geraldo Azevedo tinham ido tentar a sorte no Centro-Sul, a cidade repercutia a seu modo o Tropicalismo. Havia um certo clima experimentalista no ar, traduzido por nomes como Aristides Guimarães e o Laboratório de Sons Estranhos, Marco Polo e o Tamarineira Village, Ana Lúcia Leão, Flaviola, entre outros. Era um período bem estimulante.

O nome Nuvem 33 foi tirado do título de uma novela de ficção científica que escrevi na época. O grupo não era limitado à música, pois incluía artistas plásticos e atores em suas performances. Na primeira delas – Retreta Eletrônica, no Teatro do Parque – desenhistas faziam comentários ao vivo, em linguagem de histórias em quadrinhos, do que se passava no palco. O resultado era projetado em um telão. Por exemplo, enquanto eu fazia voz de falsete durante uma canção, o marinheiro Popeye dizia nos quadrinhos que minha voz era igual à de Olívia Palito. Coisas assim.

O Nuvem 33 reunia personagens como Otávio “Bzzz” Machado (que inventou uma espécie de teremim e me apresentou ao som de Frank Zappa), o guitarrista Carneirinho, o baixista João de Deus, o baterista Israel (que depois trabalharia com Alceu Valença), e as participações dos artistas plásticos Lula Wanderley, Humberto Avellar (que me apresentou autores de ficção científica como Isaac Asimov, Ray Bradbury e Kurt Vonnegut Jr.) e Rodolfo Mesquita. Claro, havia muito mais gente. O primeiro show, aberto a todos os músicos da cidade, não tinha hora para terminar. Nele o guitarrista Robertinho do Recife, recém-chegado dos Estados Unidos, fez uma participação especial. Nele quebrei minha régua "T" em cena e renunciei à Faculdade de Arquitetura. A partir daí decidi ir a São Paulo estudar música com Tom Zé.

Tiago Araripe

Na imagem, cartaz criado por Lula Wanderley para um dos shows do Nuvem 33 em Recife. Há muitos anos morando no Rio de Janeiro, Lula é também psiquiatra, tendo trabalhado com Nise da Silveira e colaborado com o cineasta Leon Hirszman no documentário Imagens do Inconsciente. Como artista plástico, manteve sólida parceria com Lygia Clark, de cuja obra foi curador.