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domingo, 23 de março de 2008

Nuvem 33, por Lula Wanderley

Foto: Lula, 1972

Recife dos anos setenta organizava-se culturalmente em torno de artistas
“oficializados” pelo estado e pela população. Para eles convergiam as verbas públicas e todo o mercado de arte. À margem disso, um bando de jovens talentosos, sem acesso a nada e num difícil dilema entre a arte e a sobrevivência, tinha as ruas de Recife como ponto de encontro das idéias.

Conheci Tiago Araripe na calçada da Rua da Aurora, sentado numa mureta ao longo do rio Capibaribe. Aproximei-me dele pelos gibis que tinha em mãos e que me ajudariam a passar o tempo naquele fim de tarde. Logo as identificações que tive com suas idéias sobre arte prolongaram nossa conversa. Nos tornamos amigos, e mostrou-me um pouco de seu trabalho como contista e músico.

(Tínhamos cabelos grandes, o que era raro em Recife daquela época. Enquanto conversávamos, ouvi de dois senhores logo atrás de nós:
- São veados?
- Não, podem ser artistas.
Não sendo veado, foi a primeira vez que me senti um artista reconhecido. )

Nessa mesma época, em circunstâncias parecidas, conheci um diretor de teatro que me convidou para um encontro de elaboração de uma peça. Tácito Borralho (nunca mais tive notícias) era um artista talentoso que gostava do pensamento descontínuo e anárquico. Suas peças eram feitas a partir de “restos de idéias” e imagens soltas, e eram abertas à participação de todos. Por isso seu grupo se chamava Armação. Na primeira reunião que participei, o músico convidado pediu desligamento do grupo deixando um vazio constrangedor para Tácito. Antônio Nóbrega (hoje reconhecido músico, ator e coreógrafo), que conhecia dos tempos de ginásio no Colégio Marista, sonhava com vôos mais altos e mais claros que sua formação erudita permitia. Logo me apressei em propor Tiago ao grupo. E como desapareci dos ensaios antes de trazê-lo, Tácito andou pelas ruas de Recife atrás do artista que, além da musicalidade, tinha um timbre de voz estranha e lidava maravilhosamente com as palavras.

Tiago compôs seis a oito músicas para o Armação. Eram extremamente originais e me entusiasmaram a entrar naquele labirinto de Tácito, que me levou a uma desastrada experiência como ator.

(Minha proposta inicial era ajudar Tácito nos cenários e vestimentas, mas terminei escrevendo uma parte da peça e atuando como ator. A peça era num castelo medieval, e todos usavam um pequeno saiote. Nervoso, peguei o saiote errado que, de tão pequeno, não cabia em mim. Resolvi ficar nu para fazer menos volume no corpo, para o saiote entrar, e meus ovos ficaram de fora. Entrei em cena, era o garçom do castelo, e arranquei delirantes risos e aplausos. Todo o elenco se constrangeu menos eu, que até o fim não percebi nada e curtia o meu sucesso. Encerrei minha carreira de ator depois de ser “ovacionado” no Festival de Teatro Amador de Caruaru, ao receber o prêmio “O OVO DE OURO”.)

Fim do Armação, Tiago me convidou para formar um grupo de música que chamou de Nuvem 33. Que poderia um artista gráfico, que não tocava instrumento algum e nem dançava porque não tinha ritmo, fazer num grupo musical? Tiago, como o Antônio Nóbrega que substituiu no Armação, tinha forte sotaque nordestino. Mas enquanto Antônio costurava seu sotaque, através de um fio erudito, a uma cultura popular, Tiago costurava-o através de uma atitude experimentalista, a uma cultura de massa que começava a invadir nosso cotidiano. História em quadrinhos, subliteratura, notícias populares eram as matérias-primas de suas músicas que, algumas vezes, se estendiam para além do campo musical transformando-se em pequenos jornais, quadrinhos ou contos. Era o início da nova tecnologia (não me refiro ao computador, mas ao mimeógrafo eletrônico) que nos trouxe a ilusão de poder ser, além de receptor, emissor/editor de informações e alcançar o cotidiano das pessoas. Eu, Rodolfo Mesquita e Humberto Avellar (Bactéria), três atuantes artistas gráficos da época, nos tornamos parceiros em suas composições.

O ponto alto do Nuvem33 foi a Retreta Eletrônica no Teatro do Parque. Um espetáculo em que fundimos a música à experiência gráfica e performática. Em um determinado momento atravessei o palco com um “carrinho de rolimã”. Anos depois, Alex Hamburgo e Márcia X (grandes artistas carioca) se notabilizaram ao atravessarem de patinete (um rolimã sofisticado) um recital de John Cage na sala Cecília Meirelles, no Rio. Houve uma sintonia contemporânea no Retreta Eletrônica que nunca esqueci.

O “efêmero 33”, como chamava o Tarcísio da Livro Sete, acabou rápido sem deixar um registro – um disco qualquer. Foi uma brincadeira quase juvenil (éramos jovens), mas alavancou a cena musical do Recife dos anos setenta. Logo depois, com força e alcance, Marco Polo e seu Ave Sangria (antigo Tamarineira) sintetizou em shows e disco todo o pensamento de uma geração de artistas plásticos, poetas e músicos pernambucanos que, por não seguir o caminho da “oficialização” institucional, quase ficou condenada ao esquecimento.

Tiago foi morar em São Paulo, e eu rumei para o Rio. De São Paulo me enviou o Cabelos de Sansão, disco antológico da música popular brasileira.

Lula Wanderley


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Nuvem 33 no céu de Recife

Sem compromisso com a linearidade, rumamos da Vila Madalena, São Paulo (ver posts anteriores), para a Avenida Conde da Boa Vista, Recife. É lá que, em 1971 – na calçada – conheço Lula Wanderley. Ambos temos os cabelos longos – algo raro na Recife daquela época – e isso facilita a aproximação. Lula me fala do diretor de teatro maranhense Tácito Borralho, que veio à cidade montar uma peça chamada Armação e está à procura de certo estudante de Arquitetura autor de composições estranhas: quer convidá-lo para fazer a trilha musical.

A pessoa em questão, descubro em seguida, sou eu mesmo. E assim, meio casualmente, começo a fazer música para um circuito um pouco maior que os amigos e colegas de faculdade. Em uma semana, componho 12 canções para a peça. E monto uma banda para interpretá-las ao vivo no Teatro do Parque, durantes as cenas. Isso muda o curso da minha vida e determina o surgimento de um grupo muito atuante no cenário musical de Recife em 1972: o Nuvem 33.

A capital pernambucana vivia, no que dizia respeito à música, um momento de transição. Enquanto nomes como Alceu Valença e Geraldo Azevedo tinham ido tentar a sorte no Centro-Sul, a cidade repercutia a seu modo o Tropicalismo. Havia um certo clima experimentalista no ar, traduzido por nomes como Aristides Guimarães e o Laboratório de Sons Estranhos, Marco Polo e o Tamarineira Village, Ana Lúcia Leão, Flaviola, entre outros. Era um período bem estimulante.

O nome Nuvem 33 foi tirado do título de uma novela de ficção científica que escrevi na época. O grupo não era limitado à música, pois incluía artistas plásticos e atores em suas performances. Na primeira delas – Retreta Eletrônica, no Teatro do Parque – desenhistas faziam comentários ao vivo, em linguagem de histórias em quadrinhos, do que se passava no palco. O resultado era projetado em um telão. Por exemplo, enquanto eu fazia voz de falsete durante uma canção, o marinheiro Popeye dizia nos quadrinhos que minha voz era igual à de Olívia Palito. Coisas assim.

O Nuvem 33 reunia personagens como Otávio “Bzzz” Machado (que inventou uma espécie de teremim e me apresentou ao som de Frank Zappa), o guitarrista Carneirinho, o baixista João de Deus, o baterista Israel (que depois trabalharia com Alceu Valença), e as participações dos artistas plásticos Lula Wanderley, Humberto Avellar (que me apresentou autores de ficção científica como Isaac Asimov, Ray Bradbury e Kurt Vonnegut Jr.) e Rodolfo Mesquita. Claro, havia muito mais gente. O primeiro show, aberto a todos os músicos da cidade, não tinha hora para terminar. Nele o guitarrista Robertinho do Recife, recém-chegado dos Estados Unidos, fez uma participação especial. Nele quebrei minha régua "T" em cena e renunciei à Faculdade de Arquitetura. A partir daí decidi ir a São Paulo estudar música com Tom Zé.

Tiago Araripe

Na imagem, cartaz criado por Lula Wanderley para um dos shows do Nuvem 33 em Recife. Há muitos anos morando no Rio de Janeiro, Lula é também psiquiatra, tendo trabalhado com Nise da Silveira e colaborado com o cineasta Leon Hirszman no documentário Imagens do Inconsciente. Como artista plástico, manteve sólida parceria com Lygia Clark, de cuja obra foi curador.