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domingo, 14 de agosto de 2011

Estrela do Mar e Asa Linda em Sampa

Momentos da 9a. edição da Hora H, que prestou homenagem aos "poetas de campos e espaços" Haroldo e Augusto.

Nas fotos de André Brito: a) Felipe Avila, Tiago Araripe, Cid Campos e Rogério Botter Maio; b) Felipe, Tiago, Cid e Alberto Marsicano (cítara).

Casa das Rosas, 13 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Apresentação na Casa das Rosas













No próximo dia 13 de agosto, a convite de Cid Campos, participarei da 9a. edição da Hora H, na Casa das Rosas, em Sampa. O evento é dedicado à preservação da memória e da obra do poeta Haroldo de Campos (1929-2003). Este ano, também é homenageado seu irmão Augusto de Campos, pelos seus 80 anos.

A programação completa desta Hora H:

SÁBADO, 13 de agosto, das 18h30 às 22h
SHOW “LINGUAVIAGEM”
Cid Campos – voz, violão
Felipe Ávila – guitarra
Rogério Botter Maio – baixo
Júnior Vargas – bateria
Convidados especiais
Músicos:
Alberto Marsicano / Diogo Franco / Edvaldo Santana / Péricles Cavalcanti / Tiago Araripe / Walter Franco
Poetas:
Arnaldo Antunes / Frederico Barbosa / João Bandeira / Ivan de Campos / Lenora de Barros / Marcelo Tápia / Omar Khouri / Walter Silveira

DOMINGO, 14 de agosto
MOSTRA JÚLIO BRESSANE
13h
Sermões – A história de Antônio Vieira
1989, 80 minutos.
Cinebiografia poética do Padre Antônio Vieira, com participação especial de Haroldo de Campos, que foi o consultor literário para a elaboração do roteiro.
14h30
Galáxias Dark e Albina (Mix)
1992, 30 minutos.
Apresentação de um compacto que aglutina ambas as transposições que Bressane fez da obra Galáxias para o vídeo.
DEBATE
15h
O sequestro do Barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos
Debate sobre o estudo que Haroldo de Campos realizou, em fins dos anos 1980, sobre a questão do estudo do Barroco na literatura brasileira, com a presença dos poetas Nelson Ascher e Frederico Barbosa. Neste dia, o livro estará disponível para os interessados no estande da Editora Iluminuras, instalado na Casa das Rosas.
MOSTRA IVAN CARDOSO
16h
Ivan Cardoso vem a São Paulo especialmente para expor fotomontagens que fez de Haroldo de Campos e exibir uma entrevista inédita, concedida por Haroldo de Campos meses antes de seu falecimento, em 2003. Aproveitando a ocasião, serão exibidos mais três curtas-metragens do cineasta que contaram com a participação de Haroldo na concepção de seus roteiros. As fotos ficarão expostas, durante o evento, no andar térreo da Casa das Rosas, e os curtas mostrados serão:
H.O, 1979, 13 min.
À meia-noite com Glauber, 1997, 16 min.
Heliograma, 2004, 14 min.
Entrevista inédita com Haroldo de Campos, 2003, 60 min.
18h
Encerramento com fala de Ivan Cardoso e Ivan de Campos.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Tangos e morcegos

Quando adolescente no Crato, morei em um sobrado antigo localizado na Praça da Sé. Era algo estranho: no térreo, de cômodos praticamente lacrados, o que havia eram móveis e quinquilharias centenárias da família do meu pai.

O lugar, escuro e assustador, vivia fechado. A ele chamávamos de Subterrâneo. Isso talvez por habitarmos o andar de cima, numa ala de quartos com assoalho de madeira, tendo pouco abaixo dos nossos pés aquele ambiente sombrio.

Havia muitos morcegos transitando ali, e algumas vezes eu e meu irmão Flamínio nos divertíamos a caçá-los pela casa. Com uma daquelas espingardas de carregar pela boca - socadeira, como dizem no sertão - dispensávamos o chumbo que poderia quebrar as telhas: bastava a pólvora, a bucha e o barulho da explosão para os morcegos, cegos que se guiam pela audição, caírem fulminados.

Anos depois, tive a oportunidade de ter o próprio Drácula nas mãos. Não, ele não veio de algum castelo fantasmagórico da Transilvânia. Saiu mesmo foi de um moderno apartamento no bairro paulistano das Perdizes. Longe de ser o aterrorizante personagem de Bram Stoker, era na verdade um vampiro bem-humorado, saído da imaginação criativa do poeta de Décio Pignatari.

Chegou até a mim por meio de Tom Zé, como letra de música, em meio a outros poemas de Décio. Dois deles falavam de vampiro e pareciam mais longos do que normalmente são as letras de uma canção. Depois de algumas horas ao violão, consegui transformá-los em tangos algo futuristas. Ambos foram registrados em disco. Teu coração bate, o meu apanha virou o lado B do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe. E com Drácula participei do Festival Abertura, da Globo.

O Festival aconteceu em 1975, no Teatro Municipal de São Paulo. Representava a tentativa da Globo de reviver os áureos tempos dos festivais de música popular que tanto animaram a cena cultural do país na década anterior. E projetou nomes importantes como Djavan, Alceu Valença, Walter Franco, Hermeto Pascoal, Ednardo, Luís Melodia, Jards Macalé, Jorge Mautner e muitos outros (clique nos links para ver letras ou assistir clipes de algumas das músicas do Festival).

Os futuros parceiros de Papa Poluição - José Luiz Penna e Paulinho Costa - também estavam entre os participantes defendendo Muzenza, composição deles que integraria depois o repertório do grupo, assim como a própria Drácula.

Uma das apresentadoras do Festival era ninguém mais ninguém menos que a Marília Gabriela (foto abaixo). Nos shows dos intervalos estavam lá artistas como Tim Maia e Caetano Veloso. Em suma, havia na receita todos os ingredientes para fazer do evento um grande espetáculo.

Tivemos bom ensaio geral na véspera, quando Drácula foi considerada, por alguns jornalistas presentes, como proposta inovadora. Saí do Teatro Municipal animado, cheio de perspectivas quanto à apresentação da noite seguinte e os seus possíveis desdobramentos.

Mas o imprevisto aconteceu. Lá fora, a garoa e o frio de uma virada de clima habitual em São Paulo passou a destoar das roupas leves que eu usava.

Resumindo: acordei afônico no dia do Festival.

Ao que parece, meu drama pessoal sensibilizou algumas pessoas nos bastidores do Teatro - principalmente aqueles que me viram cantar no ensaio anterior. Uma jurada, notória professora de canto, pediu que me transmitissem exercícios vocais para melhorar a garganta (se não me engano, foi a própria Marília Gabriela a porta-voz da receita). Do seu camarim, Caetano orientou que me ensinassem uma posição de Ioga chamada de Posição do Leão, indicada para casos como o meu. Atordoado, eu a tudo aceitava querendo ficar bom. Cheguei a cogitar a substituição por outro intérprete: o próprio Paulinho Costa. A direção da Globo não aceitou: meu videoclipe já estava gravado, ambientado no cemitério da Avenida Dr. Arnaldo, e havia alguma simpatia pela minha imagem magra, longos cabelos, vestido com capa negra de vampiro meio hippie.

Assim, com a coragem de mamar em onça que desenvolvi nos momentos difíceis de enfrentamento do público, adentrei o palco do Teatro Municipal. Procurei compensar a falta de voz com gestos dramáticos. Houve quem ouvisse na minha rouquidão uma referência aos guinchos de vampiro, que os violinos do arranjo de Mauro Giorgetti sugeriam.

No dia seguinte, alguns críticos foram benevolentes. Wladimir Soares, do Jornal da Tarde, escreveu que Drácula "foi a única música a representar uma proposta concreta de inovação e criatividade". Continuando, acrescentou: "Na hora da apresentação, Thiago (sic) Araripe perdeu a voz e ganhou apenas 66 pontos; era um tango que fugia do tradicional portenho e do jazzístico de Piazzola, com uma linha própria".

José Miguel Wisnik, que anos depois se revelaria um talentoso compositor, registou no jornal Última Hora o que chamou de perda lamentável "porque envolve o próprio andamento do concurso":

Thiago Araripe, que apresentou a música Drácula, é um cantor muito bom, com uma afinação muito natural e segura, além de ser um ótimo compositor, conforme pôde-se ver no decorrer dos ensaios. Acontece que ele acordou sem voz no dia da apresentação, em conseqüência dos rigores do clima paulistano, e sua interpretação perdeu toda a naturalidade. Repare bem quando puder: Drácula é uma das melhores composições do festival.

A seguir, você vai saber como - mesmo desclassificado no Abertura - fui convidado para cantar Drácula no Fantástico. E não vale antecipar, dizendo que é o show da vida...

A propósito, a foto que ilustra esta postagem é de um show realizado no Colégio Rio Branco logo após o Festival Abertura. Ali está, provavelmente, a mesma capa que utilizei no evento da Globo. Ali está, com certeza, o embrião que deu origem ao grupo Papa Poluição - e começou quando formamos uma banda para acompanhar Tom Zé alguns meses antes - inclusive no mesmo colégio paulistano.

Além de Xico Carlos na bateria e Fausto Aguiar na guitarra, contei com a participação de José Luís Penna e Paulinho Costa. Não lembro quem estava no baixo: a pessoa ficou encoberta por mim na fotografia. Mas recordo que bem em frente, na platéia, estavam Décio Pignatari e os irmãos Campos - Augusto e Haroldo. E que estreamos nessa noite outra parceria minha e do Décio: O hipopopótamo, rumba dançante de letra estranhíssima.

Tiago Araripe