O primeiro filme que assisti na vida foi Sansão e Dalila, superprodução de Cecil B. DeMille com Hedy Lamarr e Victor Mature. A produção americana, de 1949, demorou alguns anos para chegar ao Crato. Eu tinha apenas quatro anos de idade quando me levaram àquela sessão da tarde no Cine Moderno. (Resisto à tentação de dizer que isso aconteceu no Cine Cassino, um dos três cinemas que existiam na cidade e nome de uma das faixas de que mais gosto no Cabelos de Sansão - daria mais charme a este relato.) A experiência foi inesquecível. Fiquei, ao mesmo tempo, fascinado e aterrorizado. Queria correr e queria ficar. Fiquei até o fim. Na cena final, tremi na base e entrei em pânico. Quando Sansão balançou as duas colunas de sustentação e derrubou o palácio do rei, achei que o cinema inteiro estava caindo sobre a minha cabeça. Saí do cinema ainda aos berros. Algumas imagens permaneceram na minha memória durante anos. Depois, com os adventos do videocassete e do DVD, pude assistir o filme outras vezes e relembrar aquele momento tão impactante que marcou para sempre minha relação com o cinema. Cine Cassino, a música, mostra um pouco isso. A letra utiliza cortes e imagens cinematogáficos, abrindo espaço para a imaginação do ouvinte fazer a sua parte. A composição foi gravada também pelo cantor e compositor cearense Luís Carlos Salatiel. Foi cantada por Zeca Baleiro em barzinhos, antes de ele ser um nome na música brasileira, e em alguns shows do já famoso artista (tive o prazer de cantá-la com ZB em novembro de 2005, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza).
O Cine Cassino, que funcionou durante anos na Praça Siqueira Campos, no quarteirão diante da casa onde nasci na rua Miguel Limaverde, não existe mais: no seu lugar está instalada uma lanchonete. Foram mantidas as características do prédio original. O Cine Moderno também foi para o além. Idem para o Cine Educadora, a casa da Miguel Limaverde e quase todas as casas em que morei no Crato.
Eu continuo vivo, graças a Deus.
Tiago Araripe