O estúdio Gravodisc (mais usado para gravar música sertaneja) tinha apenas quatro canais. Carvalho, o produtor, falava que bateria, baixo e guitarra deviam ser gravados ao mesmo tempo, como se fosse ao vivo. Ah! Ainda tínhamos que arrumar um jeitinho de enfiar a percussão lá sem queimar canais, como falavam naquele tempo... Feito isso seriam gravadas as coberturas, guitarra solo e, por último, voz e vocais. Tudo isso cheio de manhas, como o posicionamento diante dos microfones, os músicos uns por cima do outro ou a metros de distância entre si, tapadeiras tipo biombo etc. Tudo para que a emissão de um instrumento ou uma voz mais potente não sobressaísse. Uma cena circense...
O coração começou a bater muito forte e de forma irregular, tirando o sincronismo e a pegada rítmica que fez do contrabaixo um instrumento tão importante nos nossos arranjos. Os integrantes da banda estavam todos com os olhos grudados em minhas mãos, que teimavam em não obedecer a tudo que havíamos ensaiado... E nós tínhamos tudo na ponta dos dedos: ensaiávamos de segunda a sábado, ano após ano, em média quatro horas por dia sem falhar. Fazíamos os shows com os olhos fechados e os pés nas costas...
Na verdade, os integrantes da banda torciam para que um após o outro conseguíssemos tocar sem erros, com um mínimo de repetição possível, pois o tempo disponível em estúdio era limitado, e para um artista iniciante como eu parecia ainda mais curto. Dos seis integrantes da banda, só o Paulinho tinha boa experiência em estúdio de gravação, seguido do Xico Carlos.
Depois de muitas repetições (quando eu comemorava o meu acerto a bateria não tinha ficado tão boa), finalmente foi ouvido o grito: OK, valeu! Valeu! Lindo! Próxima...
Ao final, comemoramos todos como uma final de campeonato. Uma experiência única e inesquecível! Senti-me ótimo! Fiquei me achando... Esse dia foi um dos mais importantes na minha formação como pessoa e como profissional.
Bill Soares
Na imagem, auto-retrato do Bill.