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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cabelos de Sansão, por Nelson Augusto









Foto: Clarissa Araripe

Nelson Augusto em O Disco da Semana, da Rádio Universitária FM

Tiago Araripe lança Cabelos de Sansão em CD

Na Lira Paulistana, movimento lítero-musical que revelou para a Música Popular Brasileira estrelas do quilate de Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé e o Grupo Rumo, só para citar algumas, também brilhou o cearense do Crato, Tiago Araripe.

Idealizado primeiramente como teatro no final da década de 70, o Lira Paulistana transformou-se em gravadora, editora, produtora, loja de discos e livros e divulgou também durante os anos 80 os trabalhos de artistas da então chamada Vanguarda Paulista.

Dessa troupe participavam, entre outros o Grupo Rumo, Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque (Premê), Língua de Trapo, Ná Ozzetti, Susana Salles, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, além do próprio Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, os quais fizeram seus primeiros shows em Sampa, no então Teatro Lira Paulistana.

O álbum Cabelos de Sansão foi lançado em 1982 pelo selo Lira Paulistana, que já havia disponibilizado o então elepê de estréia do Nego Dito Beleléu, Itamar Assumpção. No disco Cabelos de Sansão, Tiago Araripe contou com o auxílio luxuoso de mais de trinta artistas da música como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Turcão, Passoca, Dino Vicente (teclados), Mané Silveira (sax), Cláudio Faria (trumpete), Oswaldinho do Acordeon, entre outros.

Acompanho o trabalho dos cantores, compositores e músicos cearenses desde minha adolescência. Se fosse eleger os três discos mais emblemáticos dessa geração que se lançou, escolheria o álbum Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, o qual ficou conhecido como o Pessoal do Ceará de Rodger Rogério, o Alucinação de Belchior, ambos da década de 70, e o Cabelos de Sansão de 1982 do Tiago Araripe.

O LP Pessoal do Ceará com sua capa antológica trazendo uma foto do artesanato de renda de bilro e no encarte fotos, textos sobre os artistas da música envolvidos no projeto e as letras de todas as canções. Já o Alucinação, com suas mensagens contestatórias, estampava em suas artes gráficas internas uma nota de dólar com mensagens criativas sobre o tema. O álbum Cabelos de Sansão, a partir da lendária capa, mostrando uma foto de Tiago Araripe montado num leão numa colagem com uma imagem do espaço sideral, também no encarte e na contracapa revelava criação artística revolucionária para os lançamentos da época.

Esses três discos até hoje, na minha concepção, soam atualíssimos pois trazem uma proposta inovadora tanto de música, quanto das mensagens das letras e suas artes gráficas. E nesse último item, vale salientar que os recursos gráficos da época eram muito precários no que se refere às modernas técnicas dos computadores de hoje. Creio que, se fossem disponibilizados hoje, causariam o mesmo impacto da época do lançamento original.

Nelson Augusto
www.nelsons.com.br

Com o texto acima, o radialista Nelson Augusto abriu a noite de lançamento de Cabelos de Sansão em Fortaleza, no dia 22 de setembro de 2008.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Diogo quer brincar... no cinema.




Com exclusividade para os leitores deste Blog, publicamos trecho do filme Cine Tapuia, que este ano garantiu ao cineasta cearense Rosemberg Cariry o Prêmio Ver-o-Peso de Melhor Longa-Metragem de Ficção no 4º. Festival de Belém do Cinema Brasileiro. A música que interage com as cenas é Diogo quer brincar, composição que fiz em parceria com Manassés de Souza.

Sobre este fragmento do filme, os articulistas Cid Nader e Marcelo Miranda comentam no site Cinequanon (veja a íntegra do texto aqui):

Há momentos belíssimos e um em especial, de meninos vendo imagens de cinema refletidas por um espelho através de uma "caixa de imagens" – e nesse momento fica bastante óbvio que o grande homenageado mesmo é o cinema.

Em Cine Tapuia, o compositor e cantor Rodger de Rogério (que integrou o Pessoal do Ceará) interpreta personagem inspirado no célebre Cego Aderaldo, que sobrevivia projetando filmes em lugares públicos de cidades nordestinas.

Sobre o filme, escreveu o diretor Rosemberg Cariry:

Cine Tapuia é um filme sobre a identidade do povo cearense, um tema hoje muito discutido pelos estudiosos, acadêmicos ou não. Quem somos nós? O que ficou da nossa herança indígena e portuguesa, consagrada na prosa poética de José de Alencar no seu clássico romance Iracema, obra que funda o mito da origem trágica e mestiça do povo brasileiro? Dessa obra o filme se serve, como ponto inicial. Mas a presença negra não seria também evidente na formação cearense, apesar de um certo pensamento resistente a tal idéia?

Tiago Araripe

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O show do Papa na Emcetur. Por Mona Gadelha.

Na Fortaleza dos anos 70, a gente tinha muita vontade de ser punk. Natural para quem já fazia rock and roll no lendário Teatro de Arena da Credimus, na Avenida Santos Dumont, e nos raríssimos festivais que apareciam numa cidade embalada pelo lirismo do Pessoal do Ceará.

Essa introdução de memória afetiva é para relembrar um dia que jamais esqueci.

Aconteciam poucos shows na cidade. Nossa diversão era circular pelos bares – havia um aonde a gente ia, sem um tostão no bolso, chamado “O Bigode do Meu Tio”, na Aldeota, o outro lado da cidade para mim, que morava no Centro, na Rua Senador Pompeu.

A turma era quase toda do Centro (Siegbert Franklin, Lúcio Ricardo...). O Tui Falcão, sempre animadíssimo, não, era da Aldeota mesmo. E naquele ano – algo entre 1977 e 1979 – a gente sabia que o Papa Poluição (foto), grupo de nosso conterrâneo radicado em São Paulo, Tiago Araripe, iria se apresentar no Teatro da Emcetur.

Na tarde do show fui com o Siegbert a um armarinho comprar alfinetes gigantes para “costurar” uma calça em que ele cabia umas dez vezes. Era o modelito punk para o show do Papa. Eu já estava com meu longo vestido psicodélico, bordado de paetês por minha irmã.

Sentamos todos na primeira fila. E participamos do show com o nosso afã de adolescentes. Conhecemos Tiago, com seus cabelos de Sansão, muito amoroso com seus fãs. Ficamos amigos. E como eu adorava, naquela época, ir ao correio mandar cartas, e mais ainda de receber, começamos nossa história epistolar. Era engraçado receber as belas cartas escritas pelo Tiago com endereço de uma tal rua Wisard, na Vila Madalena, lugares tão distantes para mim na Fortaleza desconectada do mundo.

Hoje ando sempre pela Rua Wisard, onde fica o estúdio 185, do amigo Beto, e no Bar Piratininga, onde toca o Beba Zanetini. Moro em São Paulo. E Tiago em Fortaleza. Fizemos o caminho inverso. A música do Papa era divertida, original, ousada. Certamente aquela noite em que eles se apresentaram no Teatro da Emcetur deve ter influenciado todos nós que começávamos a tocar por puro prazer – e queríamos ser punk.

Saudades de Meg Magia.



Mona Gadelha